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Edição 2052

19 de março de 2008
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Cinema
Dylan despedaçado

Em Não Estou Lá, seis atores diferentes
não somam um Bob Dylan inteiro


Isabela Boscov

Divulgação
Cate, como o cantor no início da fase elétrica: o mistério permanece
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Trailer do filme


Entre todas as divagações já feitas sobre Bob Dylan, talvez uma única máxima possa sobreviver como verdadeira: a de que esse é um artista impossível de conhecer, tais a multiplicidade de suas facetas e o zelo com que ele joga seu jogo de espelhos. Em princípio, então, poderia ser muito apropriada a idéia de biografar o cantor e compositor entregando cada persona dele a um ator diferente. Mas tudo o que Não Estou Lá (I’m Not There, Estados Unidos/Alemanha, 2007) consegue é demonstrar que a soma das partes não basta para fazer um todo.

Concebido e dirigido por Todd Haynes, de Longe do Paraíso, o filme que estréia nesta sexta-feira no país traz seis Dylans – todos com nomes diferentes, numa manobra para evitar ações legais que aspira parecer "autoral". O menino negro Marcus Carl Franklin personifica o artista em nascimento, quando Dylan emulava o ícone do folk e do protesto Woody Guthrie. Heath Ledger encarna o marido e pai inconstante, numa boa parceria com Charlotte Gainsbourg. Na única interpretação que realmente apreende algo de substancial do artista, Cate Blanchett é o Dylan que enfureceu os fãs ao trocar o violão acústico pela guitarra elétrica. Christian Bale, Richard Gere e Ben Whishaw completam esse elenco de formas menos bem delineadas – ou, no caso de Gere, incompreensíveis.

Justiça seja feita, Não Estou Lá não se propõe a ser uma biografia tal e qual, mas sim uma meditação pessoal de Haynes sobre seu personagem. No início, em que Dylan/Woody ocupa a maior parte da cena, o filme cumpre a premissa, com uma evocação cheia de atmosfera de um país que já ficara no passado, e que o trovador iniciante ia descobrindo tardiamente. Em sua segunda parte, o filme tem a imensa vantagem de contar com Cate Blanchett – e a imensa desvantagem de se fragmentar muito além do necessário e descair para a afetação. Como nenhum outro cantor popular do século XX, Dylan soube aglutinar e sintetizar o espírito de seu tempo. Haynes não compartilha com ele essa qualidade. Seja onde for que se pode encontrar o verdadeiro Dylan, aqui é que ele não está mesmo.

 



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