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Cinema As Crônicas
de Spiderwick é,
enfim, uma fantasia que
As Crônicas de Spiderwick (The Spiderwick Chronicles, Estados Unidos, 2008), que estréia nesta sexta-feira no país, põe a fantasia a serviço de um elemento um bocado emocional: pais que saíram de cena por motivos diversos, e por isso mesmo dominam a vida interior de seus filhos, dão o mote à aventura. Nela, os gêmeos Jared e Simon e sua irmã mais velha, Mallory, se mudam para uma decrépita mansão vitoriana a fim de recomeçar a vida, após a separação de seus pais. A casa abandonada é uma herança de família: ali morou o naturalista Arthur Spiderwick (David Strathairn), misteriosamente desaparecido oitenta anos antes. E dali a filha dele, Lucinda (Joan Plowright), foi despachada para um asilo psiquiátrico, por insistir demais na idéia de que Arthur ainda vive, mas não pode retornar porque seres fantásticos o ameaçam. Com a rebeldia adolescente acentuada pela ausência paterna, Jared (o perspicaz Freddie Highmore, de Em Busca da Terra do Nunca, faz os gêmeos idênticos na aparência e opostos na personalidade) transforma a mudança em uma tortura para a mãe (Mary-Louise Parker, da série Weeds). Não só a acusa de afastá-lo do pai, como inventa que há criaturas andando dentro das paredes. Depois vai mais longe, dizendo ter encontrado o livro secreto em que o naturalista fez suas anotações sobre tais criaturas e jura que, se o livro sair do círculo mágico que protege a casa e cair nas mãos do ogro Mulgarath, todos ali serão destruídos. A questão é que, embora pareça estar apenas bolando novas maneiras de atormentar sua mãe, Jared está coberto de razão. Entre a produção fantástica que se rearticulou a partir do sucesso de O Senhor dos Anéis, Spiderwick é de longe o exemplar mais inteligente e o que com mais propriedade utiliza os recursos do gênero. Seus efeitos, caprichados e às vezes poéticos (como as fadas que mimetizam flores, usando as pétalas como saiotes), miram não no grandioso, mas na variedade mais doméstica, por assim dizer, da imaginação infantil. Ao contrário de As Crônicas de Nárnia e A Bússola de Ouro, o roteiro faz a história se dobrar aos personagens, em vez de simplesmente jogá-los em cenários que possam render o máximo de computação gráfica. Também a escolha do elenco obedece mais ao critério da capacidade que ao da fotogenia. Acima de tudo, porém, o filme respeita o princípio básico desse tipo de enredo: assume como verdadeiras as descobertas de Jared, mas deixa sempre um espaço para que se lembre que esse plano mágico, feito meio de realidade, meio de invenção, é o lugar no qual as crianças às vezes se refugiam para enfrentar dilemas que estão além de sua capacidade de solução. Nesse sentido, As Crônicas de Spiderwick têm parentesco bem mais próximo com o excepcional O Labirinto do Fauno, de Guillermo del Toro, do que com o restante da fantasia hollywoodiana. Não que seja tão radical nem tão pessimista quanto o colega mexicano: o desfecho inclui não apenas algumas das reconciliações de praxe, como também o inevitável gancho para que, assim como os livros que deram origem ao filme (publicados aqui pela editora Rocco), Spiderwick vire também no cinema uma série. Desta vez, pode-se dizer que há aí material para tanto.
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