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Edição 2052

19 de março de 2008
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Chá verde com Coca-Cola

O prêmio Nobel suicida e o escritor que cita Prince têm
pelo menos uma coisa em comum: a cultura japonesa


Jerônimo Teixeira

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Contos da Palma da Mão
Kafka à Beira-Mar

Um dos mais persistentes clichês sobre o Japão é aquele que fala em uma terra onde convivem tradição e modernidade. No momento em que saem duas novas traduções de livros japoneses no Brasil – Contos da Palma da Mão (tradução de Meiko Shimon; Estação Liberdade; 496 páginas; 59 reais), de Yasunari Kawabata, e Kafka à Beira-Mar (tradução de Leiko Gotoda; Objetiva/Alfaguara; 572 páginas; 54,90 reais), de Haruki Murakami –, o resenhista preguiçoso sente-se tentado a associar o suicida Kawabata, Nobel de Literatura de 1968, à tradição, e Murakami, autor que goza de um status de astro pop no Japão, à modernidade. Não seria uma completa impropriedade. Os clichês, afinal, quase sempre têm sua parcela de verdade. O problema é que as explicações que eles oferecem são pobres. Uma contraposição convencional entre Kawabata e Murakami deixaria passar os surpreendentes pontos em comum entre os dois escritores.

Nascido em 1899 e morto em 1972, Kawabata de fato tentou, em sua obra, recuperar tradições japonesas ameaçadas pela influência ocidental do pós-guerra – seu romance Mil Tsurus é todo calcado na cerimônia do chá. O cultivo da tradição, porém, nunca o impediu de flertar com as vanguardas européias, em especial com o surrealismo. Contos da Palma da Mão traz 122 contos curtos (caberiam na palma da mão, daí o título da coletânea), que Kawabata produziu ao longo da carreira, entre um romance e outro – as datas de composição vão de 1923 a 1964. Alguns contos nostálgicos visitam a zona rural onde o autor passou parte da infância, mas também há incursões aos bairros mais boêmios e agitados de Tóquio. A descrição de sonhos ocupa uma parte importante da obra. O protagonista de Neve, um dos últimos contos, isola-se em um quarto de hotel para fantasiar paisagens hibernais. Apesar da brevidade das narrativas, esse é um livro para ser apreciado vagarosamente, com muita atenção para os subentendidos sexuais e as imagens líricas cinzeladas por Kawabata.

O romance Kafka à Beira-Mar, ao contrário, é um vira-página. Norwegian Wood, um dos maiores sucessos de público de Murakami, buscou seu título em uma canção dos Beatles, e Kafka à Beira-Mar vai mais longe nas referências pop – músicas de Prince e Radiohead são citadas, e dois personagens tomam a forma de ícones da publicidade mundial: o maligno Johnnie Walker (da marca de uísque) e o despachado coronel Sanders (da rede de fast food Kentucky Fried Chicken). Murakami alterna as desventuras de Nakata, um deficiente mental que consegue conversar com gatos, e a narrativa em primeira pessoa de Kafka Tamura, um adolescente perseguido por uma maldição de tragédia grega – segundo a qual matará o pai e dormirá com a mãe. A relação entre as duas histórias fica mais sugerida do que explicada. Kafka à Beira-Mar é um romance irregular – as banalidades filosofantes de alguns diálogos são quase paulocoelhescas, se é que o adjetivo merece existir –, mas mantém a rara ousadia de não entregar ao leitor a solução definitiva de todos os seus mistérios. Muitos contos breves de Kawabata também têm esse caráter inconclusivo. Há mais em comum entre os dois: o erotismo tingido de cores mórbidas, o onirismo desvairado e, sobretudo, certa melancolia que assola personagens deslocados no mundo. Essa afinidade subterrânea entre Kawabata e Murakami terá mais a dizer sobre a cultura japonesa do que a velha conversa sobre tradição e modernidade.

 


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