|
Livros Memórias forjadas
e autores inventados podem ser uma
Mestiça de branco com índio, Margaret B. Jones foi criada por uma família negra, em um lar substituto em Los Angeles, e acabou se associando a uma gangue de traficantes de drogas. Sua dramática história foi narrada em Love and Consequences (Amor e Conseqüências), livro de memórias aclamado pela crítica mas que acabou desmascarado quando uma irmã de Margaret ligou para o jornal The New York Times esclarecendo uma coisa ou duas: o nome da autora que não tem nenhuma ascendência indígena é Margaret Seltzer, não Jones. Ela cresceu em uma vizinhança privilegiada de Los Angeles, longe de todas as gangues e mimada pelos pais biológicos. A editora Riverhead apressou-se para recolher todos os exemplares de Love and Consequences do comércio. O caso vem na seqüência de vários escândalos semelhantes. A fraude, porém, nem sempre serviu como nos casos recentes ao oportunismo publicitário. A farsa literária já foi um exercício de criação, de inventividade, de provocação. O Zohar, obra fundamental da cabala, a disciplina mística judaica, foi obra de Moisés de Leon, estudioso judeu que viveu na Espanha, no século XIV mas que atribuiu o livro a Simeon ben Yohai, rabino do século II. Na literatura religiosa da Idade Média, a autoridade do autor era determinante para que um texto fosse levado a sério daí a necessidade de inventar um ilustre autor antigo. Mas outras farsas ganharam seu lugar na literatura bem depois de a mentalidade medieval ter sido superada. No século XVIII, o poeta escocês James Mcpherson "descobriu" leia-se inventou a obra de Ossian, poeta épico e guerreiro irlandês do século III. Goethe e Hegel estão entre os que se deixaram engambelar, professando admiração pelo épico fajuto. Outro farsante genial foi o francês Pierre Louÿs, criador de Bilitis, poeta grega do século VI a.C. Já houve fraudes criadas para desmascarar o que os autores consideravam fraudes maiores. Nos anos 40, na Austrália, dois poetas conservadores irritaram-se com a revista modernista Angry Penguins e remeteram para seu editor uma série de poemas esquizofrênicos de um tal Ern Malley, supostamente um mecânico que morrera sem publicar uma só linha. Além da humilhação de ter veiculado a fraude, o editor Max Harris ainda foi processado por divulgar material considerado obsceno. Outro caso célebre foi o artigo repleto de disparates científicos que o físico americano Alan Sokal submeteu ao conselho editorial da revista acadêmica Social Text, conhecido reduto do chamado pensamento "pós-moderno". O texto foi publicado e Sokal então denunciou a fatuidade dos pós-modernistas. Os recentes companheiros de Margaret Seltzer têm pouco em comum com esses exemplos clássicos. Misha Defonseca revelou no mês passado que o livro em que narra como fugiu dos nazistas na companhia de lobos é, veja só, uma fantasia. Não foi a primeira a forjar memórias do holocausto: em 1996, aparecia Fragmentos, de Benjamin Wilkomirski, suposto sobrevivente de Auschwitz criado por um tal Bruno Doessekker, que passou a guerra em segurança na Suíça. Nos Estados Unidos, estouraram recentemente os casos de James Frey, ex-drogadito que exagerou seu tempo na prisão para dar mais dramaticidade às suas memórias, e de JT Leroy, prostituto convertido em escritor que na verdade era invenção de uma roqueira fracassada, Laura Albert. Em todos esses casos, a farsa busca vestir o autor com o manto de vítima de dramas sociais ou históricos um deboche imoral com as vítimas reais. Margaret teve o desplante de dizer ao New York Times que Love and Consequences pretendia "dar voz" às silenciosas vítimas da pobreza e da criminalidade. Mas também aventou uma motivação plausível para sua farsa: "Talvez seja uma coisa de ego".
|
|
VEJA | Veja São Paulo | Veja Rio | Expediente | Fale conosco | Anuncie | Newsletter | ![]() |
|