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Edição 2052

19 de março de 2008
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Trambiqueiros literários

Memórias forjadas e autores inventados podem ser uma
forma de provocação ou de expressão criativa. Mas é mais
comum que essas fraudes sejam apenas golpes publicitários


Jerônimo Teixeira

Mestiça de branco com índio, Margaret B. Jones foi criada por uma família negra, em um lar substituto em Los Angeles, e acabou se associando a uma gangue de traficantes de drogas. Sua dramática história foi narrada em Love and Consequences (Amor e Conseqüências), livro de memórias aclamado pela crítica – mas que acabou desmascarado quando uma irmã de Margaret ligou para o jornal The New York Times esclarecendo uma coisa ou duas: o nome da autora – que não tem nenhuma ascendência indígena – é Margaret Seltzer, não Jones. Ela cresceu em uma vizinhança privilegiada de Los Angeles, longe de todas as gangues e mimada pelos pais biológicos. A editora Riverhead apressou-se para recolher todos os exemplares de Love and Consequences do comércio. O caso vem na seqüência de vários escândalos semelhantes. A fraude, porém, nem sempre serviu – como nos casos recentes – ao oportunismo publicitário. A farsa literária já foi um exercício de criação, de inventividade, de provocação.

O Zohar, obra fundamental da cabala, a disciplina mística judaica, foi obra de Moisés de Leon, estudioso judeu que viveu na Espanha, no século XIV – mas que atribuiu o livro a Simeon ben Yohai, rabino do século II. Na literatura religiosa da Idade Média, a autoridade do autor era determinante para que um texto fosse levado a sério – daí a necessidade de inventar um ilustre autor antigo. Mas outras farsas ganharam seu lugar na literatura bem depois de a mentalidade medieval ter sido superada. No século XVIII, o poeta escocês James Mcpherson "descobriu" – leia-se inventou – a obra de Ossian, poeta épico e guerreiro irlandês do século III. Goethe e Hegel estão entre os que se deixaram engambelar, professando admiração pelo épico fajuto. Outro farsante genial foi o francês Pierre Louÿs, criador de Bilitis, poeta grega do século VI a.C.

Já houve fraudes criadas para desmascarar o que os autores consideravam fraudes maiores. Nos anos 40, na Austrália, dois poetas conservadores irritaram-se com a revista modernista Angry Penguins e remeteram para seu editor uma série de poemas esquizofrênicos de um tal Ern Malley, supostamente um mecânico que morrera sem publicar uma só linha. Além da humilhação de ter veiculado a fraude, o editor Max Harris ainda foi processado por divulgar material considerado obsceno. Outro caso célebre foi o artigo repleto de disparates científicos que o físico americano Alan Sokal submeteu ao conselho editorial da revista acadêmica Social Text, conhecido reduto do chamado pensamento "pós-moderno". O texto foi publicado – e Sokal então denunciou a fatuidade dos pós-modernistas.

Os recentes companheiros de Margaret Seltzer têm pouco em comum com esses exemplos clássicos. Misha Defonseca revelou no mês passado que o livro em que narra como fugiu dos nazistas na companhia de lobos é, veja só, uma fantasia. Não foi a primeira a forjar memórias do holocausto: em 1996, aparecia Fragmentos, de Benjamin Wilkomirski, suposto sobrevivente de Auschwitz criado por um tal Bruno Doessekker, que passou a guerra em segurança na Suíça. Nos Estados Unidos, estouraram recentemente os casos de James Frey, ex-drogadito que exagerou seu tempo na prisão para dar mais dramaticidade às suas memórias, e de JT Leroy, prostituto convertido em escritor que na verdade era invenção de uma roqueira fracassada, Laura Albert. Em todos esses casos, a farsa busca vestir o autor com o manto de vítima de dramas sociais ou históricos – um deboche imoral com as vítimas reais. Margaret teve o desplante de dizer ao New York Times que Love and Consequences pretendia "dar voz" às silenciosas vítimas da pobreza e da criminalidade. Mas também aventou uma motivação plausível para sua farsa: "Talvez seja uma coisa de ego".

 

Letras falsas

Algumas das mais famosas fraudes literárias

A americana Margaret Seltzer cresceu a pão-de-ló em um bairro afluente de Los Angeles. Nas suas memórias, fabricou uma ascendência indígena e disse que cresceu no meio de gangues de rua. Foi desmascarada no início do mês

 

Em um livro publicado em 1997, a belga Misha Defonseca conta que, como menina judia, passou a infância fugindo dos nazistas – e que até viveu com uma matilha de lobos. Neste ano, Misha admitiu que inventou muita coisa – e que nem sequer é judia

Suzanne Kreiter/The New York Times

 

A ficção de JT Leroy só despertou interesse porque vinha embalada na biografia do autor, ex-prostituto adolescente e ex-viciado em heroína. Tudo balela: Leroy foi inventado por uma tal Laura Albert, que chegou a contratar uma cunhada para representar Leroy em eventos literários

 

Divulgação

Em 1894, o francês Pierre Louÿs enganou muitos estudiosos da literatura antiga ao se apresentar como mero tradutor de As Canções de Bilitis, conjunto de poemas eróticos de uma poeta grega. Houve até helenistas que disseram já conhecer a obra de Bilitis – que na verdade era uma criação de Louÿs



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