Arrumar
o cabelo, fazer maquiagem, pintar as unhas, talvez uma massagem para relaxar.
Quem acha que esse é o tipo de agenda lotada da moça que passa o
dia inteiro se aprontando para desfilar até o altar está atrasado
no tempo e no espaço. Atualmente, um único "dia da noiva"
não dá nem para o começo. Com tantos tratamentos para experimentar,
tantas celebridades para imitar, tanto desejo de transformar a festa num evento
(a palavra é delas) único, a preparação de uma noiva
dotada de dinheiro e tenacidade começa muitos meses antes do dia do casamento.
"Depois do noivado, a primeira providência que tomei foi procurar uma
nutricionista e me matricular na academia de ginástica para perder 11 quilos.
Consegui", relata, apropriadamente orgulhosa, a engenheira química
Renata Spallicci, 26 anos, de São Paulo, que passou um ano e meio se preparando
para o casamento celebrado em agosto do ano passado. "Também fiz tratamento
contra acne e estrias, clareei os dentes e pus megahair", lista. "Depois
que a beleza se tornou uma exigência universal, espera-se que a noiva esteja
perfeita. Ela se vê obrigada a contratar todos os tipos de serviço,
com medo de decepcionar", avalia, do alto de sua excepcional experiência
no assunto, a dermatologista Ligia Kogos. "O antigo dia da noiva se transformou
no ano da noiva".
Aszmann
Acima
de tudo, sorrir: além de se fazer linda, Carolina cuidou da festa
Em
seu ímpeto de auto-aperfeiçoamento, Renata arrastou a família.
Sua mãe, Martha, e a avó, Dorothy, fizeram dieta e aplicaram Botox.
O noivo, Marcelo Cavaggione, engenheiro de 28 anos, entrou com um esforço
extra na coreografia: ensaiou um mês para, de peruca black power, dar show
imitando o cantor Sidney Magal. Exibições artísticas amadoras
ou profissionais tornaram-se quase obrigatórias, sobrecarregando ainda
mais a já puxada atuação, quer dizer, participação
dos noivos. A professora Elayne Corrêa da Silva, 29 anos, do Rio de Janeiro
(dez meses de tratamento para amenizar estrias e rugas de expressão), ia
contratar a bateria de uma escola de samba para animar o baile, mas foi dissuadida
pelo cerimonialista (tradução: organizador de festas): "Ele
disse que era coisa batida e sugeriu chamar o MC Bochecha", conta Elayne.
Incendiados pelo ritmo, os convidados caíram em peso no funk. Até
Elayne entrou no bonde. Magérrima por natureza, a curitibana Elirane Johnsson,
24 anos, concentrou-se na performance para sua grande festa de casamento, no fim
de fevereiro. Ela e o marido, o piloto de corrida Augusto Farfus Junior, 24, contrataram
um professor de dança de salão e tomaram duas horas diárias
de aulas durante dez dias. Até o vestido entrou na dança: a saia
fechada foi trocada, às pressas, por outra mais leve e com fendas, para
incrementar o efeito. Farfus, que mora em Mônaco, viajou até Milão
para comprar, por 2.500 euros, um flamejante terno dourado Carlo Pignatelli, acompanhado
de sapatos com as iniciais A e E pintadas (também em dourado) na sola.
"Como a Liri cuidou de todo o resto, quis dar a minha singela contribuição
com uma roupa diferente. Mostrei a cor antes, para que ela não se assustasse.
No fim, todo mundo gostou", diz o piloto. Outro noivo esforçado
além de cantor diletante , o médico cardiopediatra Ricardo
Ribera, 37 anos, em seu casamento em Rio Branco, no Acre, caprichou na encenação
para entoar a música-tema do filme Ghost em homenagem à noiva,
Melissa Vieira. Mandou construir uma escada de sete degraus, iluminada, só
para subir e descer durante a performance. "Foi inspirada em Miss Saigon",
afirma ele.
Edison
Caetano
Ribera
canta para a noiva na escada iluminada: inspiração em Miss Saigon
O excesso de esforço pode ter efeitos colaterais negativos. "Muitas
perdem peso demais, ficam abatidas, com mau hálito e sob o risco de desmaiar
na hora H. E depois engordam tudo de novo", suspira Vera Simão, uma
das mais ocupadas organizadoras de festas de São Paulo. Definitivamente,
não é o caso da administradora de empresas mineira Amanda Miguel,
28 anos, que se casou em outubro de 2006 com o engenheiro Marcelo Fernandes. Linda,
com um arzinho de Penélope Cruz, ela enfrentou com persistência todas
as fases dos preparativos. "Um ano antes, fui ao endocrinologista. Perdi
10 quilos", conta. Na penúltima prova do vestido, tinha recuperado
1; o estilista recusou-se a alargar a roupa. Amanda emagreceu de novo. Também
deixou o cabelo crescer, fez bronzeamento artificial e, um mês antes, submeteu-se
a uma cirurgia a laser para reduzir a miopia. "Não posso usar lente
de contato e não ia entrar na igreja de óculos", explica. Além
de emagrecer, fazer ginástica, cuidar da pele e demais rituais (incluindo
uma coisa chamada máscara de parafina, para as mãos), a publicitária
carioca Carolina Cesar Coelho, 24 anos, enfrentou situações de alta
tensão que bastariam para fazer qualquer noiva rodar a grinalda. As duas
organizadoras que contratou com grande antecedência não corresponderam
às expectativas; a quatro meses do dia D, dispensou-as e cuidaram, ela
e a mãe, de tudo sozinhas. Na festa, duas madrinhas e dois amigos, mais
empolgados nos drinques, baixaram no hospital. Nada que comprometesse o resultado
geral como toda família sabe, coisas bem piores acontecem nesse
tipo de festividade (veja quadro).
Arquivo
pessoal
Elayne
cai no funk com as amigas: escola de samba já era
A
síndrome da noiva estressada é perigosa. Patrícia Moinho
Klein, publicitária, fez todo tipo de tratamento de pele (antiacne, laser,
peeling) para chegar ao grande dia, em julho passado, com a tez iluminada. "Pois
amanheci com uma espinha na bochecha que parecia uma bola. Passei o dia da noiva
no consultório da médica", relembra. Dos preparativos de Patrícia,
o mais inusitado foram seis meses de sessões semanais de RPG para adquirir
postura condizente com o decote. "Quis um modelo inspirado no de Grace Kelly,
com gola alta e transparência nas costas, na altura dos ombros. Minha estilista
reparou que eu ficava corcunda e recomendou RPG", conta. Acostumado a operar
noivas e mães de noivas quase toda semana, o cirurgião plástico
carioca Carlos Fernando Gomes de Almeida acha que a data virou a desculpa perfeita,
ou o empurrão final, para o bisturi há muito desejado. "Casamento
agora é pretexto para resolver antigos complexos", diz. Mas é
melhor não falar isso perto de nenhuma noiva nervosa.
Juninho
Viegas/Paulo Filho
O
ano da noiva: Amanda fez cirurgia a laser para corrigir a miopia