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19 de março de 2008
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A revolução azul

Dez anos depois do lançamento do Viagra, a
impotência deixou de ser um fantasma masculino


Anna Paula Buchalla

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Na história da sexualidade humana, ocorreram duas grandes revoluções químicas. A primeira delas foi o surgimento da pílula anticoncepcional, na década de 60, que liberou as mulheres do risco de uma gravidez indesejada. A segunda, a entrada do Viagra no mercado farmacêutico. Lançada há dez anos, a pílula azul livrou milhões de homens do fantasma da impotência e, com isso, promoveu mudanças radicais no comportamento sexual masculino – e feminino. Casais que davam por encerrados os prazeres do sexo reencontraram a felicidade das noites de amor. Além disso, a disfunção erétil deixou de ser um tabu nas conversas íntimas, entre amigos e nos consultórios médicos. Em sua edição de 1º de abril de 1998, sobre a aprovação do Viagra, VEJA estampou na capa a chamada "A pílula milagrosa". O adjetivo não foi um exagero. "Nós sempre esperamos pela pílula mágica contra a impotência e, com o Viagra, chegamos bem perto disso", disse o urologista David Ralph, do University College London, em entrevista ao jornal inglês The Guardian.

O remédio possibilita que 80% dos pacientes recuperem a potência sexual. Antes, o arsenal da medicina contra a disfunção erétil era muito restrito. E, diga-se, bastante desconfortável e constrangedor – injeções na base do pênis na hora H, supositórios na uretra, próteses e bombas a vácuo. Com a drageazinha azul, basta um gole d’água meia hora antes de ir para a cama acompanhado. O sucesso não poderia ser menos do que instantâneo e absoluto. No dia do lançamento, um urologista de Atlanta, nos Estados Unidos, assinou 300 prescrições de Viagra. Calcula-se que o primeiro medicamento antiimpotência já tenha sido indicado a mais de 35 milhões de homens de 125 países. Hoje, existem quatro concorrentes da pílula azul. No Brasil, o Cialis é o líder de vendas. O motivo: seu efeito dura 36 horas, contra as seis do Viagra.

O Viagra salvou inúmeros casamentos, mas serviu de estopim para a dissolução de outros tantos. Homens mais velhos, animados com o novo fôlego sexual, passaram a buscar a companhia de mulheres mais jovens. "A coisa chegou a tal ponto que há mulheres que boicotam o uso do remédio por temer que o marido procure outra", diz o urologista Celso Gromatzky, do Hospital das Clínicas, de São Paulo. "Mas não são os remédios que acabam com um casamento. Se o relacionamento é saudável, o casal só tem a ganhar com eles." Há, por fim, o drama das mulheres que são, elas próprias, portadoras de alguma disfunção sexual e, por isso mesmo, não conseguem corresponder aos apetites renovados do companheiro.

O impacto do Viagra vai além dos limites da cama. "Com os homens mais abertos para falar sobre seus problemas sexuais, está mais fácil fazer o diagnóstico de diabetes e de hipertensão. Esses distúrbios podem ter a disfunção erétil como sintoma", diz Gromatzky. Além disso, movidos pelos lucros estratosféricos proporcionados pelas vendas dos medicamentos antiimpotência, os laboratórios passaram a investir pesado no estudo de outros problemas sexuais que atormentam homens e mulheres. O Viagra motivou até a corrida pela criação de seu equivalente feminino, contra a frigidez. O capitalismo é mesmo um ótimo afrodisíaco.




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