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Edição 2052

19 de março de 2008
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10S (dez, no plural)
notas sincopadas

I Não podia mesmo dar certo. Nascemos com excesso
de ancestrais. E morremos com excesso de descendentes.

II POEMEU
Em Ipanema
Foi o tempo mais estranho!
Encontrava Drummond
Chupando Chica-Bom
E o grande César Lattes
Bebendo nas boates.

III Lula: "Melhor do que dar ao companheiro um peixe é lhe dar um caniço e ensiná-lo a usar o cartão corporativo".

IV CENA em grande clínica médica da cidade:
Cliente: "Mas eu tenho Plano Saúde. Como é que me cobram essa intervenção no baço?".
Administrador: "Está escrito aqui, senhor – o tratamento de baço foi descredenciado".
Outro cliente: "Como cinco mil pra pagar três médicos? E meu Plano Saúde?".
Administrador: "Desculpe, amigo, mas esses médicos não são da Clínica. São terceirizados".
Outro cliente: "Qué qué isso? Não vou pagar nada. Taqui o meu Plano Saúde".
Administrador: "Desculpe, senhor, mas seu Plano Saúde não prevê doenças".

V No Brasil o leite só não é adulterado enquanto está na vaca.

VI Advogado:
"Querida, hoje não vou trabalhar. Estou me sentindo muito ‘Quid Pro Quo’".

VII A fé remove montanhas. No Rio vimos isso com a derrubada do Morro do Castelo. Mas logo, no lugar, botaram mil arranha-céus. A especulação imobiliária refaz montanhas.

VIII Todo caminho é sempre pra cá e pra lá.

IX Até hoje o baile mais famoso do Brasil foi o da Ilha Fiscal. Exceto, claro, quando chega esta época do ano com o baile da Receita Fiscal.

X Na minha infância, quando alguém mais respeitável da família falava em falta de decoro, eu sabia o que era. Mas hoje, quando falam em "quebrar o decoro parlamentar", não sei o que querem dizer. Falta de decoro de que se falava, naquele então, era, no máximo, um velho da família sair do banheiro de braguilha aberta, com o pinguelo ao ar livre. "Deus do céu, vovô não tem mais decoro."
Agora, quando rivais, ou juristas, ou a imprensa, falam de um malversador, ladrão, patife, aquilo que no todo se sintetiza com o substantivo canalha, ele está apenas faltando com o decoro? Putsgrila!
Vejam agora no plano internacional. Recebi, pela internet, de várias fontes, um filme com a figura do grande líder italiano Berlusconi, em primeiro plano, close, fotografia nítida e ao vivo, tirando ouro do nariz. Não só tirando, mas apertando entre os dedos. A descrição é repugnante? Poupo-lhes a imagem – esta é uma revista asseada.
Ah, bom, todos sabem quem é Berlusconi. Sem dúvida o homem mais poderoso da Itália. E um cidadão cujos feitos são de tal ordem e tal desfaçatez que reduzem nossos grandes líderes no setor, Quércia, Maluf, Jader Barbalho, ao nível de trombadinhas.
No meu tempo (meu tempo é daqui a dez anos) esse homem, que possivelmente será novamente primeiro-ministro da Itália e domina 45% da televisão, não seria convidado em jantar em família.

 



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