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Edição 1 794 - 19 de março de 2003
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DVD

Divulgação

A Doce Vida: Fellini no auge


A Doce Vida
(La Dolce Vita, Itália/França, 1960. Versátil) – Eleger o maior entre os filmes de Federico Fellini só é uma tarefa possível por causa dessa obra-prima, com que o diretor rompeu definitivamente com o neo-realismo. Na Roma efervescente do fim dos anos 50, em que toda a Europa tentava enterrar em festa o trauma da II Guerra, o protagonista Marcello é um jornalista que vive de parasitar celebridades, todas tão vazias quanto ele. A interpretação de Marcello Mastroianni é sublime, e um dos extras desse disco duplo cuida justamente de homenageá-lo, num depoimento de Fellini sobre seu ator predileto. A edição contém também um documentário sobre Nino Rota, autor da magnífica trilha sonora de A Doce Vida e da maioria dos filmes do diretor. Finalmente, o filme vem em cópia restaurada e no formato original esticado. É item obrigatório em qualquer filmoteca que se preze.

 

DISCOS

At Last!, Etta James (Universal) – A gravadora Chess contratou Etta James no fim dos anos 50 pensando em transformá-la num ícone da música pop. Os executivos da companhia, no entanto, não demoraram a perceber que a voz roufenha de Etta era valiosa demais para ser gasta apenas em baladas. Esse disco, lançado em 1961, mostra fagulhas da intérprete incendiária que iria ser aclamada como dama do blues e influenciar artistas como Janis Joplin. Basta conferir a interpretação cheia de malícia de I Just Want to Make Love to You, canção do bluesman Willie Dixon e que virou sucesso na versão dos Rolling Stones. Uma injustiça, visto que a gravação de Etta James é infinitamente superior. A versão em CD de At Last! traz ainda quatro faixas bônus, gravadas em dueto com o cantor de soul music Harvey Fuqua.

Mono/Stereo, Paul Westerberg (Sum) – Nos anos 80, R.E.M. e Replacements brigavam pelo posto de "melhor banda do mundo" – ao menos no entender dos fãs de rock independente americano. O R.E.M. venceu a disputa não apenas porque tinha um letrista e vocalista mais carismático (Michael Stipe), mas porque a concorrência se afundou em drogas e brigas internas. Nesse CD duplo, o quarto de sua carreira-solo, Paul Westerberg, ex-guitarrista e cantor dos Replacements, mostra por que seu antigo grupo desfrutou de tanta reverência. Ele faz canções para ouvir no volume máximo, como a vibrante High Time, e tem o dom de criar refrãos que cativam à primeira audição. Curiosamente, a autoria das músicas divide-se entre Westerberg e um certo Grandpa Boy – na verdade, um alter ego "acústico" do cantor.

 

LIVROS

 
Cezar Pena
Borges: prazer e erudição

Curso de Literatura Inglesa, de Jorge Luis Borges (tradução de Eduardo Brandão; Martins Fontes; 442 páginas; 42,50 reais) – Durante vinte anos, o argentino Jorge Luis Borges (1899-1986) – um dos maiores autores do século XX – ocupou a cátedra de literatura inglesa na Universidade de Buenos Aires. Essa face menos conhecida do autor de O Aleph é recuperada no livro. Ele reúne 25 aulas ministradas por Borges em 1966. O escritor, que aprendeu a língua inglesa antes mesmo do castelhano, fala do assunto de forma apaixonada. Dos poemas anglo-saxões à obra de Robert Louis Stevenson (de O Médico e o Monstro), suas explanações transbordam prazer e erudição.

A Metafísica dos Tubos, de Amélie Nothomb (tradução de Clóvis Marques; Record; 144 páginas; 28 reais) – A escritora Amélie Nothomb é uma das penas mais afiadas da literatura em língua francesa. Filha de um diplomata belga, nascida e criada no Japão, ela falou com humor corrosivo de suas experiências naquele país no livro Medo e Submissão, no qual narra sua via-crúcis como estagiária numa empresa. No atual lançamento, o Japão volta a ser cenário: ela recria seus três primeiros anos de vida, num tom que mescla autobiografia e fantasia. O livro é um inusitado retrato das relações humanas sob o ponto de vista de uma criancinha.

Solaris, de Stanislaw Lem (tradução de José Sanz; Relume Dumará; 272 páginas; 38 reais) – Lançado em 1961, Solaris é um clássico da ficção científica. O livro do polonês Lem já vendeu mais de 25 milhões de exemplares e, nos anos 70, deu origem a um filme cultuado do diretor russo Andrei Tarkovsky. Às vésperas da estréia nos cinemas de uma nova adaptação, estrelada por George Clooney, a obra ganha uma reedição brasileira. Ela narra a ida de um astronauta a uma estação espacial num planeta coberto por um misterioso "oceano vivo", que se comunica com o protagonista. Por trás da história, uma reflexão sobre os limites da ciência. Leia trechos do livro.

 

OS MAIS VENDIDOS — CRÍTICA

Leia trechos do livro

A cena literária do Rio Grande do Sul tem vida própria. Há muitos autores gaúchos que fazem sucesso no âmbito local, embora suas vendagens fora do Estado sejam inexpressivas. Graças a um empurrão da TV, essa barreira foi transposta pela escritora Leticia Wierzchowski. Autora do romance A Casa das Sete Mulheres (Record; 516 páginas; 48 reais), que inspirou a série da Rede Globo, ela ocupa o topo da lista de mais vendidos de ficção de VEJA. O livro foi lançado há quase um ano, mas dois terços de suas vendas de 35 500 exemplares ocorreram nos últimos dois meses – ou seja, desde que o programa estreou. "Não sou ingênua de achar que faria tanto sucesso sem a ajuda da TV. Quero mais é aproveitar a chance para consolidar meu nome", diz Leticia, uma descendente de poloneses de 30 anos, casada e mãe de um filho de 1 ano e 8 meses. O marido, aliás, ela também conquistou por meio da literatura. Depois de se encantar com um retrato de Leticia na orelha de um livro, o publicitário Marcelo Pires começou a trocar e-mails com ela – e assim nasceu um romance que dura quatro anos.

Divulgação

Leticia: pegando marido pela orelha


Leticia teve uma mãozinha para ver sua história transformada em série. Sua editora empenhou-se em vender a história para a Rede Globo, mesmo antes de ela ser publicada. O fato de Leticia e Maria Adelaide Amaral, uma das autoras do programa, terem a mesma agente literária facilitou esses contatos. "Só pelo título já me convenci de que aquela história era talhada para a tela", elogia Maria Adelaide. Não se pode dizer que Leticia esteja desperdiçando sua projeção nacional. Tão logo a série entrou no ar, ela lançou um novo romance – o sexto. Trata-se de O Pintor que Escrevia, história de amor feita sob encomenda para sua editora, a Record. E tem mais dois originais concluídos – outro romance e um livro de contos –, com lançamento previsto para até 2004.

Como todo escritor que atinge subitamente a notoriedade, Leticia é hoje alvo de críticas ácidas, sobretudo em sua terra natal. Ela, que cita o conterrâneo Erico Verissimo como paradigma, tem sido atacada por causa dos lugares-comuns de seu texto e por narrar a vida das mulheres da família do líder farroupilha Bento Gonçalves sem muita fidelidade histórica. Essas críticas são um pouco fora de foco. A pretensão da escritora não vai além de contar histórias capazes de arrebatar o público, com um enredo que tem começo, meio e fim. Se sua escrita não tem arte, tem um bom artesanato. Leticia faz um tipo de romance de entretenimento que é escasso no país – e sempre bem-vindo.  

Marcelo Marthe

   
 

 

Fontes: São Paulo: Cultura, Laselva, Saraiva, Livraria da Vila, Fnac, Nobel, Siciliano; Rio: Saraiva, Nobel, Laselva, Sodiler, Siciliano, Argumento, Travessa; Porto Alegre: Saraiva, Nobel, Livraria Ed. Porto Alegre, Siciliano; Brasília: Sodiler, Nobel, Siciliano, Saraiva, Leitura; Recife: Sodiler, Nobel, Saraiva, Siciliano; Natal: Nobel, Sodiler; Florianópolis: Siciliano; Goiânia: Siciliano, Nobel; Fortaleza: Siciliano, Laselva, Nobel; Salvador: Siciliano; Curitiba: Siciliano, Saraiva; Belo Horizonte: Siciliano, Nobel, Leitura; Maceió: Sodiler, Nobel.
   
 
   
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