Luiz
Felipe de Alencastro
As cotas e a
história nacional
"Dos
39 000 estudantes de graduação da USP,
há apenas 1,3% de negros. Não dá mais para
continuar com a política do 'deixar estar como
está para ver como é
que fica'"

Veja também |
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A controvérsia
sobre as cotas para candidatos negros, mulatos e alunos de escolas públicas
no vestibular da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) vai muito
além das tribulações da vida universitária
carioca. De verdade, o debate situa-se na encruzilhada de duas questões
capitais para o país: a organização do ensino público
e a redução das desigualdades raciais e sociais. São
matérias complicadas que devem ser abertamente discutidas numa
sociedade democrática. No caso das cotas universitárias,
é interessante observar o exemplo dos Estados Unidos, onde o critério
foi posto em prática e ainda perdura sob formas atenuadas.
Há
um paralelo evidente entre a história americana e a história
brasileira. Passando a ser independentes, os dois países foram
os únicos a estruturar o Estado nacional em torno de um sistema
escravista operando em larga escala. Situação distinta da
que predominava nos países sul-americanos onde a escravidão
era uma instituição secundária (Argentina, Uruguai)
ou em colônias escravistas como Jamaica e Cuba. Ali, a instituição
era gerida pela Inglaterra e pela Espanha, que não autorizavam
o escravismo no solo europeu.
Ilustração Ale Setti
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Nos EUA, a imbricação entre o escravismo e a sociedade moderna
restringiu-se aos Estados sudistas. Mas no Brasil o processo foi mais
profundo: durou mais tempo e imiscuiu-se em toda a extensão do
território nacional. Por causa de seu longo entranhamento nos corpos
nacionais americano e brasileiro, o escravismo deixou taras graves nos
dois países. Nos EUA, as assembléias estaduais sudistas
introduziram leis racistas que jogaram os negros livres numa situação
de infracidadania e estabeleceram um apartheid. Só em 1967 a Corte
Suprema declarou inconstitucional a lei que proibia uniões inter-raciais
em dezesseis Estados sudistas. Embora não a estivesse mais aplicando,
a Carolina do Sul esperou até 1998 para eliminar essa lei celerada
de sua Constituição.
No Brasil
pós-escravista predominou uma discriminação informal
embaciada por um processo amplo de mestiçagem. O fato de esse processo
resultar de um estatuto desigual em que o pai na esmagadora maioria
das vezes pertencia à comunidade dominante branca e a mãe
à comunidade dominada negra não impediu que ele fosse generosamente
celebrado em tese, prosa e verso. Radicalizando as idéias de Gilberto
Freyre, Darcy Ribeiro afirmou: "No Brasil, a mestiçagem sempre
se fez com muita alegria".
Desse modo,
há cinqüenta anos o estatuto dos negros americanos nos Estados
racistas do sul era, em muitos aspectos, pior que o dos negros brasileiros.
Depois o quadro mudou. Nos EUA, houve as decisões anti-racistas
da Corte Suprema, as vigorosas campanhas dos direitos civis e as políticas
afirmativas, fixando cotas universitárias e dispositivos legais
em favor da minoria negra. No Brasil, permaneceu tudo igual e vieram os
sustos das feias estatísticas que desenham o quadro da desigualdade
racial. Hoje, guardadas as devidas proporções, a situação
dos negros brasileiros é pior que a dos negros americanos. Em algumas
décadas de consciência cívica e de reafirmação
da legalidade republicana, a sociedade transformou-se nos Estados Unidos.
No Brasil,
a última carantonha da discriminação brotou no campus
da USP no começo de março. Segundo o jornal O Globo,
pela primeira vez (!) em sua história, a USP realizou um censo
étnico entre seus 39.000 estudantes
de graduação e constatou que há apenas 1,3% de negros.
Para desenhar a extensão do mal, cabe lembrar outra estatística
que já mencionei aqui. Nas 250 dioceses do país há
16 000 padres, dos quais 12 000 são brasileiros. Desses, menos
de 1 000 são negros ou mulatos.
Sem procurar
arremedar, é preciso guardar em mente o exemplo americano. O que
não dá mais é continuar no Brasil com a política
grotesca do "deixar estar como está para ver como é que
fica".
Luiz Felipe de Alencastro é historiador e professor
titular da Universidade de Paris –
Sorbonne (abomey@uol.com.br)
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