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Roberto
Pompeu de Toledo
Atirar
primeiro,
perguntar jamais
Uma
pena de
morte tem
sido aplicada
por semana,
no Texas.
Por acaso
(ou
não?) é
o Estado de
Bush
Delma Banks Jr., de 44 anos, já tinha comido os cheeseburgers que
lhe foram servidos como última refeição. Já
recebera a visita da mãe, que o achou "em paz com o Senhor". Tudo
pronto. Sua morte estava marcada para as 6 da tarde da última quarta-feira.
Ele seria amarrado a uma cadeira e receberia uma injeção
letal, na sala de execuções da prisão de Huntsville,
no Estado americano do Texas. Quando faltavam poucos minutos, uma ordem
chegou de Washington. A Suprema Corte dos Estados Unidos mandara suspender
a execução.
Banks seria o 300º condenado a ser executado no Texas desde 1982,
quando a pena de morte foi restabelecida no Estado. No dia anterior, tinha
ocorrido a execução de número 299 a de um
condenado de 41 anos que confessara ter assassinado um homem que dormia.
Essa execução foi a décima do ano, o que dá
a média de uma a cada sete dias. Outros 439 homens e oito mulheres
estão sentenciados à morte, no Estado, e aguardam execução.
O escritor inglês Martin Amis, num artigo recente, disse que o Texas
parece a Arábia Saudita: tem clima quente, templos repletos, um
monte de petróleo e execuções semanais. Por acaso,
ou, talvez, não por acaso, o Texas é o Estado de George
W. Bush. Foi do governo do Texas que ele saltou para a Presidência
dos EUA, não sem antes dar boa contribuição para
as estatísticas locais de execução, como governador
que não usou uma só vez o poder de anular uma condenação
à morte.
O caso de Banks destacou-se da rotina mortífera que caracteriza
a máquina judiciária texana por dois motivos: as fundadas
suspeitas de que o condenado seja inocente e as conotações
raciais do episódio. Banks, claro, é negro. E é acusado
de, em 1980, ter matado um branco. Ainda se fosse outro negro... Os dois
trabalhavam no mesmo restaurante e eram muito jovens: Banks tinha 21 anos
e o morto, apenas 16. No processo, Banks foi acusado por duas testemunhas
que, depois, confessaram ter mentido. Uma era um informante da polícia.
Outra, um acusado de incêndio criminoso que depôs direitinho
como os promotores recomendaram e depois, suspeitamente, se viu livre
da acusação de incendiário. Um e outro são
viciados em drogas. Ainda se um processo desses tivesse sido instruído
no Brasil... Foi nos EUA, país baluarte da democracia, cujo presidente
tem alegado como uma das razões para intervir no Iraque levar a
seu povo, e por tabela a todo o Oriente Médio, o bálsamo
dos valores democráticos americanos.
Há mais, em favor de Banks. Ele alega que estava em Dallas quando
o crime ocorreu, na pequena cidade de Texarcana, a 300 quilômetros
de distância. Ficou comprovado, ao menos, que estava em Dallas quatro
horas depois da hora que a autópsia apontou como a da morte da
vítima. Em 1988, ofereceu-se a Banks a comutação
da pena em prisão perpétua, se confessasse o crime. Ele
recusou. Continuou afirmando-se inocente. "Para a maioria das pessoas,
seria altamente perturbador ter no currículo a execução
de um inocente", escreveu, num artigo indignado, o colunista (negro) do
New York Times Bob Herbert. "Mas estamos falando do Texas, um Estado
que prefere atirar primeiro e não pergunta jamais. Equilíbrio
e justiça nunca encontraram um nicho confortável no sistema
criminal texano, e o fato de um acusado poder ser inocente não
é considerado razão suficiente para suspender-lhe a execução."
Banks, que durante o julgamento contou com uma defesa frouxa, ultimamente
teve seu caso assumido pela NAACP, a Associação Nacional
pelo Avanço das Pessoas de Cor, famosa e antiga entidade de luta
pelos direitos dos negros. George Kendall, um advogado da NAACP, conseguiu
mobilizar um grupo de juízes e promotores federais que foi bater
às portas da Suprema Corte e acabou obtendo a suspensão
de execução. A Corte decidirá agora se é o
caso de rever o processo. A condenação não foi suspensa,
só a execução. Caso decida que não é
o caso, a execução volta a ser programada.
A condenação de Banks foi decidida por um júri constituído
só de brancos. Bob Herbert, no artigo citado, lembra que, até
meados dos anos 70, os promotores do Texas tinham instruções
de não incluir judeus, negros, mexicanos ou membros de qualquer
outra minoria nos júris. A situação não melhorou
muito de lá para cá. Duas semanas atrás, a Suprema
Corte, a propósito de outro caso de pena de morte, fez uma advertência
à Justiça do Texas por não ter levado em conta evidências
de preconceito racial.
O caso de Banks, que por uma acusação talvez infundada já
passou 23 anos na prisão ou seja, mais viveu dentro do que
fora da prisão , é uma coisa, a política do
atual governo americano é outra. Ou será que tudo se confunde
e se integra, ao fim e ao cabo? "Um dos aspectos mais desanimadores dos
últimos dois anos é que George W. Bush está lutando
duramente para tornar todos os Estados Unidos parecidos com o Texas",
escreve Herbert. Talvez não só os Estados Unidos. Recriar
o mundo à imagem e semelhança do Texas talvez seja o secreto
sonho de W. Bush.
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