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Mulheres
descerebradas
Mulheres
Apaixonadas
abusa
dos diálogos que saem do nada
e chegam a lugar nenhum
Ricardo Valladares
| Os
empregados Jeremias e Maria: não é, assim, uma Brastemp
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Edwiges
e Ana, na missa de sétimo dia: e o defunto nem estava frio |
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Doris,
Flora e Leopoldo: ai, minha Nossa Senhora! |
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Helena:
e na janta, dá para filar uma canja? |
O
noveleiro Manoel Carlos é obcecado pelo realismo. Cada vez que
assina uma trama para a Rede Globo, ele a pontua com situações
do dia-a-dia. Seus personagens vez por outra estão às voltas
com enroscos do cotidiano. Isso serve para emoldurar o enredo e criar
uma empatia maior com o público. O espectador gosta. Sempre que
a Globo faz pesquisas qualitativas sobre as novelas de Manoel Carlos,
o realismo é mencionado como um ponto forte. Mas em Mulheres
Apaixonadas, a atual novela das 8, a dose pode estar exagerada. Numa
missa de sétimo dia, por exemplo, três personagens foram
focalizados no meio de uma discussão. A conversa nada tinha a ver
com a missa. Seu tema era: será que um deles havia esquecido o
feijão no fogo? Nem mesmo a heroína da história,
Helena (Christiane Torloni), é poupada desse tipo de lengalenga.
Sua personagem já apareceu recomendando ao filho que levantasse
a tampa do vaso sanitário. Num capítulo cuja exibição
estava prevista para esta semana, ela deverá protagonizar o seguinte
diálogo com a empregada: "Dona Helena, o Lucas está aqui
querendo que eu frite batata pra ele!". Resposta: "Mas eu não falei
que batata frita é só na hora do almoço?".
Há duas outras modalidades de blablablá em que Mulheres
Apaixonadas é pródiga: as referências a discos
ou livros e os comentários sobre notícias de jornal. O núcleo
de adolescentes que se reúne em torno de Raquel (Helena Ranaldi)
está sempre pronto para embarcar num papo-cabeça sobre os
melhores cantores da MPB ou o filme mais bacana em cartaz. É mais
uma tentativa de incutir "curtura" na patuléia. E todos os personagens
estão sujeitos a receber falas como aquelas dos personagens Doris
(Regiane Alves), Flora (Carmem Silva) e Leopoldo (Louzadinha), num capítulo
da semana passada, ensejadas pela instalação de escadas
rolantes no Cristo Redentor. Cenas assim saem do nada e chegam a lugar
nenhum. Na época do realismo e do naturalismo na literatura, muitos
escritores eram criticados por ir longe demais nas descrições,
acrescentando, por puro preciosismo, detalhes que não serviam em
nada para adiantar a trama. Manoel Carlos precisa tomar cuidado para não
inventar o equivalente desse cacoete na era da televisão. Se a
coisa continuar nesse pé, recomenda-se que a novela mude de nome.
Passe a se chamar Mulheres Descerebradas.
Divulgação
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| Raquel
e Fred: nadador ou peixe morto? |
Não é por falta de temas fortes, porém, que Mulheres
Apaixonadas vai derrapar. Há uma série de complicações
engatilhadas: homossexualismo feminino, padre largando a batina e balzaquiana
apaixonada por um molecote que mal saiu dos cueiros. As personagens lésbicas
Clara (Aline Moraes) e Rafaela (Paula Picarelli) deverão trocar
carinhos mais ousados assim como o padre Pedro (Nicola Siri) e
a espevitada Estela (Lavínia Vlasak). Para compor o romance entre
Raquel e o nadador Fred (Pedro Furtado), o molecote, Manoel Carlos baseou-se
na história verídica de uma professora americana que engravidou
de um aluno. Em sua estréia na televisão, o jovem Pedro
Furtado, de 18 anos, está feliz da vida com seu personagem. "Imagina
só, beijar a Helena Ranaldi logo de cara", diz ele. Mas, por enquanto,
o príncipe Namor da novela das 8 só consegue fazer cara
de peixe morto. Talvez seja por respeito. Helena é mulher de Ricardo
Waddington, o diretor da novela.
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