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A
serviço do czar
As aventuras do detetive Fandórin
fazem
sucesso na Rússia atual. Sob
o regime comunista, seriam sacrilégio
Marcelo
Marthe

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Enquanto
durou o comunismo na Rússia, o filólogo Grigori Tchkartchvili
sobreviveu como tradutor de textos científicos japoneses. "Era
um serviço chato, mas não envolvia nenhum risco de censura
ideológica", lembra-se ele. Nos anos 90, depois da abertura política,
Tchkartchvili enveredou por uma atividade mais empolgante: a de escritor
de livros policiais, um gênero que o velho regime considerava excessivamente
"burguês". Nos últimos cinco anos, sob o pseudônimo
de Boris Akunin, ele lançou treze romances, que, juntos, venderam
8 milhões de exemplares. É um dos escritores mais populares
de seu país e colocou no mapa da literatura policial um tipo impagável,
espécie de versão russa do detetive Sherlock Holmes: o investigador
Erast Pietróvitch Fandórin. Suas duas primeiras aventuras
chegam agora ao Brasil. São histórias ambientadas na segunda
metade do século XIX, época de ouro da Rússia czarista.
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Fandórin
é um jovem de família abastada que, após ficar órfão,
se emprega na polícia de Moscou. A origem do personagem é
contada em Rainha do Inverno (tradução de
Paulo Bezerra; Objetiva; 286 páginas; 36,90 reais), no qual ele
investiga um suicídio que é a ponta do iceberg de uma conspiração.
No segundo livro, A Jogada Turca (tradução
de Véra Lucia dos Reis; Objetiva; 278 páginas; 35,90 reais),
o pano de fundo é um evento histórico: a guerra que, em
1877, opôs russos e turcos. Fandórin vai ao front à
caça de um sabotador. O cenário do livro é o acampamento
onde se abriga a elite militar, mais ocupada com bebedeiras, jogatina
e flertes do que com a guerra em si. As aventuras são narradas
em tom mordaz, com referências constantes a autores clássicos
como Dostoiévski e Tolstoi. Um dos expedientes prediletos de Akunin
é satirizar a obsessão de seu país com a hierarquia
e a burocracia ele fala dos funcionários públicos
do século XIX, mas se trata evidentemente de uma crítica
que se estende para além daquele momento.
O sucesso de Akunin representou um sopro de renovação no
mercado literário russo. Nos anos que se seguiram à queda
do comunismo, os leitores do país só tinham como opções
os clássicos e uma ficção popular de péssima
qualidade. Akunin preencheu uma lacuna no campo da ficção
de entretenimento a única crítica que se pode fazer
a ele é o abuso, em algumas passagens, dos lugares-comuns. Aos
47 anos, o autor se diverte ao constatar que seus romances seriam impensáveis
na Rússia de apenas doze anos atrás. "Fandórin é
um burguês esnobe a serviço do czar. O perfeito inimigo dos
comunistas", diz ele.
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SHERLOCK
À MODA RUSSA
"Fandórin
tinha um estranho modo de procurar o verdadeiro culpado. Todas
as manhãs, usando uma roupa listrada, fazia ginástica
inglesa demoradamente. Depois, passava a maior parte do dia
na cama, limitando-se, no mais das vezes, a fazer uma rápida
visita ao Estado-Maior. À noite, ficava no clube dos
jornalistas, fumando charutos, lendo um livro, bebendo vinho
e participando de má vontade das conversas. Uma desordem
indescritível reinava em sua tenda: livros, mapas,
garrafas vazias de vinho búlgaro, roupas e halteres
amontoavam-se indistintamente. Um dia, sem querer, Vária
tinha sentado num prato de plov frio que estava numa cadeira.
Esse incidente enfureceu-a, e a moça nunca mais pôde
tirar a mancha de gordura de seu único vestido decente."
Trecho
de A Jogada Turca
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