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Um olhar de vida
e morte
Três
novos livros contam detalhes
da epopéia de Elisa Lynch, a poderosa
amante irlandesa do ditador paraguaio
Solano López, a quem ela sugeriu povoar
o Paraguai com crianças européias
Reprodução
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Reprodução
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| Elisa
Lynch: sua ambição ajudou a detonar a Guerra do Paraguai. À direita,
quadro da Batalha do Riachuelo, em que a Marinha de López foi aniquilada
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Os ossos
da bela e poderosa Elisa Lynch descansam esquecidos no cemitério
da Recoleta, em Assunção. Estão lá desde que
o então ditador do Paraguai Alfredo Stroessner, nos anos 60, mandou-os
buscar em Paris, onde ela morreu aos 45 anos em 1886. Nada mais longe
do gosto atual do que ditadores e heroínas militares. Mas, subitamente,
a atenção de um grupo de historiadores europeus foi atraída
pela vida dessa irlandesa que durante quinze anos, entre eles os cinco
da sangrenta Guerra do Paraguai, influenciou a vida política e
social de seu país e da América Latina. Três novos
livros sobre madame Lynch foram publicados na Inglaterra só no
mês passado. Dois deles são biografias (A Imperatriz da
América do Sul, de Nigel Cawthorne, e As Sombras de Elisa
Lynch, de Siân Rees). Um terceiro é ficção
histórica (Os Prazeres de Elisa Lynch, de Anne Enright).
Os autores das biografias recentes sobre a cortesã irlandesa que
conquistou o ditador paraguaio Francisco Solano López ajudam a
esclarecer detalhes de sua vida privada e de sua real influência
sobre o governante que decidiu no fim de 1864 declarar guerra ao Brasil,
e depois também à Argentina e ao Uruguai. Os livros também
enriquecem a mitologia sobre Elisa Lynch.
Os autores
pesquisaram em fontes primárias em Assunção e em
Paris. Embora não contenham revelações sensacionais,
as obras ajudam a popularizar uma história de poder e ambições
desmedidas. As conseqüências da aventura bélica de Solano
López são conhecidas. Ele começou a guerra com um
formidável exército de 50.000
homens, o mais poderoso da América Latina. Cinco anos depois, suas
forças armadas não passavam de uma legião de adolescentes
e crianças famintos e maltrapilhos, retalhados com facilidade pela
artilharia do inimigo. No início da guerra, o Paraguai tinha uma
população de 525.000 almas. Quando
os canhões silenciaram, sobravam 221.000
pessoas. Apenas 28.000 eram homens. O país
precisou de três gerações para recompor sua população.
A causa da Guerra do Paraguai já foi atribuída aos interesses
coloniais na região, dos quais Brasil e Paraguai, principalmente,
teriam sido apenas joguetes. Mesmo fazendo algum sentido, essa tese é
desqualificada pelos historiadores. Os países da América
eram mesmo quintais das potências européias. Naquele mesmo
período da história, o México chegou a ter um imperador,
Maximiliano I, da casa européia Habsburgo. Ele foi morto a tiros
em 1867 pelas tropas do mestiço Benito Juárez. E o que a
rica história da senhora Lynch tem a ver com isso tudo? Ela tem
muito a ver, especialmente porque a hipótese mais aceita pelos
historiadores atuais é a de que a Guerra do Paraguai foi detonada
pela ambição pessoal e pela loucura expansionista do marechal
López. Como não há dúvida de que Elisa Lynch
incendiou o coração do militar com idéias ambiciosas,
o interesse sobre ela aumentou muito.
Reprodução/Sergio Sade
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| O
ditador Solano López: a amante ficava com as jóias pilhadas dos soldados
inimigos mortos em combate |
Solano López conheceu Elisa numa "casa de encontros" de Paris,
freqüentada por nobres e potentados estrangeiros. Apaixonou-se e
levou-a com ele para Assunção, já grávida
de seu primeiro filho. Logo, ele se tornaria marechal-presidente casado
e ela, a todo-poderosa cortesã da capital. A "prostituta irlandesa",
como era chamada pelos inimigos, dominou a sociedade local. Construiu
palácios, impôs os gostos parisienses na corte de Solano
López, incitou o amante a degolar adversários políticos
e foi uma das vozes a apoiar a guerra. "Os generais eram obrigados a entregar
a ela pessoalmente os objetos de valor roubados dos soldados inimigos
mortos", relata o historiador Nigel Cawthorne em seu novo livro. O inglês
conta que Elisa costumava acompanhar o amante nas primeiras e vitoriosas
campanhas da guerra, quando fazia discursos inflamados aos soldados. Cawthorne
diz ter encontrado provas documentais das histórias de crueldades
praticadas pela amante de López. Ela saía pelas ruas jogando
moedas aos pobres e mandava açoitar os que as deixavam cair. Elisa
sugeriu ao marechal o que teria sido a primeira experiência de eugenia
da história. "Ela queria que López mandasse matar todas
as recém-nascidas, de modo a substituir a população
feminina do Paraguai por meninas trazidas da Escócia", diz Cawthorne.
A escritora Siân Rees deixa-se levar pelo outro lado da lenda, o
da hagiologia. Sua Elisa Lynch tem veia de estadista. Ela via López
como o grande modernizador e pacificador das Américas e todas as
suas maldades visavam a fazer de Assunção uma Paris tropical
irradiadora de cultura e justiça. De verdade, sabe-se que Solano
López e a amante foram figuras típicas dos regimes totalitários
que praticavam o assassinato como arma política e se refestelavam
em luxos e banquetes enquanto o povo passava fome. López foi morto
em batalha. Elisa Lynch morreu miserável no exílio parisiense.
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