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Edição 1 794 - 19 de março de 2003
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Um olhar de vida e morte

Três novos livros contam detalhes
da epopéia de Elisa Lynch, a poderosa
amante irlandesa do ditador paraguaio
Solano López, a quem ela sugeriu povoar
o Paraguai com crianças européias


Reprodução
Reprodução
Elisa Lynch: sua ambição ajudou a detonar a Guerra do Paraguai. À direita, quadro da Batalha do Riachuelo, em que a Marinha de López foi aniquilada

Os ossos da bela e poderosa Elisa Lynch descansam esquecidos no cemitério da Recoleta, em Assunção. Estão lá desde que o então ditador do Paraguai Alfredo Stroessner, nos anos 60, mandou-os buscar em Paris, onde ela morreu aos 45 anos em 1886. Nada mais longe do gosto atual do que ditadores e heroínas militares. Mas, subitamente, a atenção de um grupo de historiadores europeus foi atraída pela vida dessa irlandesa que durante quinze anos, entre eles os cinco da sangrenta Guerra do Paraguai, influenciou a vida política e social de seu país e da América Latina. Três novos livros sobre madame Lynch foram publicados na Inglaterra só no mês passado. Dois deles são biografias (A Imperatriz da América do Sul, de Nigel Cawthorne, e As Sombras de Elisa Lynch, de Siân Rees). Um terceiro é ficção histórica (Os Prazeres de Elisa Lynch, de Anne Enright). Os autores das biografias recentes sobre a cortesã irlandesa que conquistou o ditador paraguaio Francisco Solano López ajudam a esclarecer detalhes de sua vida privada e de sua real influência sobre o governante que decidiu no fim de 1864 declarar guerra ao Brasil, e depois também à Argentina e ao Uruguai. Os livros também enriquecem a mitologia sobre Elisa Lynch.

Os autores pesquisaram em fontes primárias em Assunção e em Paris. Embora não contenham revelações sensacionais, as obras ajudam a popularizar uma história de poder e ambições desmedidas. As conseqüências da aventura bélica de Solano López são conhecidas. Ele começou a guerra com um formidável exército de 50.000 homens, o mais poderoso da América Latina. Cinco anos depois, suas forças armadas não passavam de uma legião de adolescentes e crianças famintos e maltrapilhos, retalhados com facilidade pela artilharia do inimigo. No início da guerra, o Paraguai tinha uma população de 525.000 almas. Quando os canhões silenciaram, sobravam 221.000 pessoas. Apenas 28.000 eram homens. O país precisou de três gerações para recompor sua população. A causa da Guerra do Paraguai já foi atribuída aos interesses coloniais na região, dos quais Brasil e Paraguai, principalmente, teriam sido apenas joguetes. Mesmo fazendo algum sentido, essa tese é desqualificada pelos historiadores. Os países da América eram mesmo quintais das potências européias. Naquele mesmo período da história, o México chegou a ter um imperador, Maximiliano I, da casa européia Habsburgo. Ele foi morto a tiros em 1867 pelas tropas do mestiço Benito Juárez. E o que a rica história da senhora Lynch tem a ver com isso tudo? Ela tem muito a ver, especialmente porque a hipótese mais aceita pelos historiadores atuais é a de que a Guerra do Paraguai foi detonada pela ambição pessoal e pela loucura expansionista do marechal López. Como não há dúvida de que Elisa Lynch incendiou o coração do militar com idéias ambiciosas, o interesse sobre ela aumentou muito.

Reprodução/Sergio Sade
O ditador Solano López: a amante ficava com as jóias pilhadas dos soldados inimigos mortos em combate


Solano López conheceu Elisa numa "casa de encontros" de Paris, freqüentada por nobres e potentados estrangeiros. Apaixonou-se e levou-a com ele para Assunção, já grávida de seu primeiro filho. Logo, ele se tornaria marechal-presidente casado e ela, a todo-poderosa cortesã da capital. A "prostituta irlandesa", como era chamada pelos inimigos, dominou a sociedade local. Construiu palácios, impôs os gostos parisienses na corte de Solano López, incitou o amante a degolar adversários políticos e foi uma das vozes a apoiar a guerra. "Os generais eram obrigados a entregar a ela pessoalmente os objetos de valor roubados dos soldados inimigos mortos", relata o historiador Nigel Cawthorne em seu novo livro. O inglês conta que Elisa costumava acompanhar o amante nas primeiras e vitoriosas campanhas da guerra, quando fazia discursos inflamados aos soldados. Cawthorne diz ter encontrado provas documentais das histórias de crueldades praticadas pela amante de López. Ela saía pelas ruas jogando moedas aos pobres e mandava açoitar os que as deixavam cair. Elisa sugeriu ao marechal o que teria sido a primeira experiência de eugenia da história. "Ela queria que López mandasse matar todas as recém-nascidas, de modo a substituir a população feminina do Paraguai por meninas trazidas da Escócia", diz Cawthorne. A escritora Siân Rees deixa-se levar pelo outro lado da lenda, o da hagiologia. Sua Elisa Lynch tem veia de estadista. Ela via López como o grande modernizador e pacificador das Américas e todas as suas maldades visavam a fazer de Assunção uma Paris tropical irradiadora de cultura e justiça. De verdade, sabe-se que Solano López e a amante foram figuras típicas dos regimes totalitários que praticavam o assassinato como arma política e se refestelavam em luxos e banquetes enquanto o povo passava fome. López foi morto em batalha. Elisa Lynch morreu miserável no exílio parisiense.


   
 
   
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