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Edição 1 794 - 19 de março de 2003
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A praga dos gorilas

Epidemia de Ebola está dizimando os grandes macacos da África Central


AP
Fêmea com filhote: doença é fatal para macacos e seres humanos

Uma catástrofe ameaça uma das últimas colônias de gorilas da África. Uma epidemia de Ebola já matou mais de 300 desses grandes macacos no santuário de Lossi, no noroeste do Congo. Trata-se de uma perda devastadora, pois representa o desaparecimento de um quarto da população de gorilas da reserva. As primeiras mortes foram observadas em novembro pelos cientistas que monitoram as andanças dos bandos pela floresta. No mês seguinte, foram recolhidas as carcaças de quatro gorilas e dois chimpanzés – todos eles estavam contaminados pelo vírus Ebola. A doença é extremamente contagiosa e não tem cura ou vacina conhecidas. Provoca violenta hemorragia interna, mata nove em cada dez contaminados e atinge igualmente o homem e os grandes macacos, seus primos na árvore da evolução. O Parque Nacional de Odzala, 15 quilômetros ao norte, ainda não registrou nenhum caso de Ebola entre seus gorilas, mas foi fechado aos turistas como medida de precaução. O pior é que há indícios de que a epidemia tenha proporções ainda mais devastadoras nas florestas da África Central, a região mais densamente povoada pelo chamado gorila da planície, uma das duas raças da espécie.

Um levantamento do Fundo Mundial para a Natureza (WWF) no vizinho Gabão mostrou que gorilas e chimpanzés desapareceram de uma área de 20.000 quilômetros quadrados do Parque Nacional de Minkebe entre 1990 e 2000. "Sumiram 10.000 animais naquela área", disse a VEJA o americano William Karesh, chefe do departamento de veterinária de campo da Sociedade de Conservação Mundial. "Poderíamos pensar em migração, mas os gorilas não são nômades. Acho que parte deles foi vítima da caça. Os outros foram mortos pelo Ebola." O Congo vive atualmente um surto da doença entre os seres humanos, com 88 mortes registradas até a semana passada. O principal foco da doença está localizado, não por acaso, a 30 quilômetros da reserva de Lossi. O vírus Ebola foi descoberto em 1976 nas margens do Rio Ebola, no Congo, e ainda não se descobriu se a doença teve origem no homem ou em algum animal. O que se sabe é que ela é transmitida pelo contato com saliva ou sangue do doente. Uma hipótese é que tenha sido espalhada entre os seres humanos por caçadores que tiveram contato com gorilas ou chimpanzés contaminados.

Ninguém sabe como a epidemia começou entre os grandes macacos. Uma das suposições é que, para evitar a internação hospitalar, alguns doentes tenham se escondido na mata, onde morreram. Chimpanzés e gorilas podem muito bem ter se alimentado de seus restos. "Quando as pessoas são infectadas, nós podemos educá-las sobre o risco de tocar ou consumir animais mortos ou doentes. Se adoecem, podemos tratá-las no hospital", afirma Karesh. "Mas com os animais só podemos deixar a natureza seguir seu curso na floresta." A epidemia de Ebola é mais uma má notícia para o futuro dos primatas. Um estudo da ONU previu que dentro de trinta anos o habitat dos grandes macacos africanos estará reduzido a 10% do tamanho atual. Uma em cada três espécies de macacos existentes no mundo está ameaçada de extinção. Na lista de maior risco estão o orangotango, que vive nas florestas da Indonésia, o brasileiro muriqui e o gorila da África.



   
 
   
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