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Edição 1 794 - 19 de março de 2003
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Caça aos travestis

A Suíça pede ajuda ao Brasil para
identificar homossexuais que se
casaram com documento falso

 
Antonio Milena
O transformista Claudia Wonder: cidadania e casamento em vista

O Consulado do Brasil em Zurique registra uma média diária de quatro casamentos entre brasileiras e suíços. O que está chamando a atenção das autoridades daquele país é outro tipo de união: a de suíços com transexuais brasileiros. Há duas semanas, o governo da Suíça pediu ajuda ao Itamaraty para descobrir a real identidade de 150 pessoas que se casaram com suíços e agora querem obter a nacionalidade do marido. Nos passaportes emitidos no Brasil, todas aparecem como mulheres, mas são na verdade travestis. Apesar da tolerância da Suíça em relação ao homossexualismo, o fato de apresentarem documentação falsa é motivo suficiente para que tenham o casamento anulado e sejam deportados do país.

A Polícia Federal sabe que muitos transexuais saem do Brasil com passaporte emitido originalmente para uma mulher, que tem a foto trocada. O documento é comprado de quadrilhas especializadas por 3 000 dólares. "Dezenas de grupos internacionais fazem esse serviço", diz o delegado Murilo Almeida Gimenes, da Polícia Federal do Aeroporto Internacional de São Paulo. Outra estratégia é obter um registro de nascimento falsificado, com nome e sexo femininos. Com essa certidão em mãos, consegue-se tirar a documentação necessária para sair do país. O Grupo Gay da Bahia (GGB) estima em 10 000 os travestis brasileiros, dos quais metade mora na Europa. Em Paris, 10% das 7 000 pessoas que vivem de sexo e prostituição são travestis brasileiros. Os cálculos são da brasileira Camille Cabral, a primeira transexual eleita vereadora na capital francesa.

A Suíça é a mais importante porta de entrada para prostitutas e travestis brasileiros. "Aqui a prostituição é exclusivamente brasileira", conta o transformista Claudia Wonder, que mora há onze anos em Lausanne. Com situação regular, Claudia batalha agora para ganhar a cidadania local. "Pretendo me casar com um suíço em breve", diz. "Como eu tenho passaporte masculino, não terei nenhum problema jurídico." Cada cantão da Suíça possui legislação própria. Alguns, como Zurique e Genebra, permitem a cirurgia de troca de sexo e o casamento homossexual, conhecido como pacto de solidariedade. Em outros, esses procedimentos são terminantemente proibidos. "O país está bastante avançado no assunto", explica Mariane Schweizer, presidente da Astasie, uma associação que reúne profissionais do sexo de Genebra, muitos deles brasileiros.

 
Eraldo Platz
Roberta Close e o marido: mulher só na Suíça

O caso mais conhecido de um transexual brasileiro que se casou com um suíço é o da ex-atriz Roberta Close, que trocou de sexo em 1989. Ela vive em Zurique com o empresário Roland Gränacher, com quem está casada há dez anos. Em 1997, foi reconhecida como mulher pela Justiça da Suíça e adotou o nome de Luiza Gambine. Mas no Brasil Roberta não consegue apagar as marcas de Luís Roberto Gambine, seu nome na certidão de nascimento. O Supremo Tribunal Federal negou-lhe o direito de mudar de sexo nos documentos, alegando que o organismo de Roberta produz hormônios masculinos. Indignada com a decisão, ela deixou de vir ao Brasil.

   
 
   
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