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Dilma:
com saudade
do Brasil
estatal?
Ministra
critica agências
criadas
para
fiscalizar as
prestadoras
de serviços
públicos
Alexandre
Secco

Veja também |
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No
Brasil do regime militar, o governo distribuía energia elétrica,
petróleo, gás e telefone. Fazia isso por meio das empresas
estatais, que operavam sem fiscalização independente. Afinal,
cabia ao próprio governo, por intermédio dos ministérios,
monitorar o trabalho das companhias. O saldo da operação
no Brasil estatal é conhecido: ineficiência, inflação,
dívida pública monstruosa e diversos casos de enriquecimento
súbito. Até hoje, o contribuinte paga o preço de
algumas aventuras daquele tempo. As estatais eram comandadas por apaniguados
dos ministros e vigiadas segundo critérios políticos, não
técnicos. A privatização serviu como um poderoso
detergente nesse processo. A iniciativa privada assumiu atividades que
nada têm a ver com o governo, que pôde se concentrar em temas
como educação e saúde. O governo também abandonou
o papel de fiscalizar o bom funcionamento das companhias. A vigilância
passou a ser feita pelas agências reguladoras. Atualmente, são
mais de vinte delas, sendo oito federais. Entre elas estão a Anatel,
que cuida da telefonia, a Aneel, responsável pela energia elétrica,
e a ANP, que trata de petróleo. Desde a posse de Lula, as agências
se tornaram alvo de críticas por parte de integrantes da alta esfera
do governo, em especial da ministra das Minas e Energia, Dilma Housseff.
Ela dá sinais claros de que deseja a volta do modelo anterior,
aquele dos generais.
 |
| O
presidente Emílio Médici inaugura usina no Piauí:
poder total sobre os preços |
Na
semana passada, Dilma voltou seus canhões contra a ANP. O motivo
alegado foi o anúncio feito pela agência da descoberta de
um grande campo petrolífero em Sergipe. A lei é clara sobre
como informações desse tipo devem ser tratadas. A Petrobras
avisa a ANP da descoberta, que deve dar ciência à opinião
pública por meio de uma nota escrita para evitar especulações
em bolsa. Às vésperas de uma guerra no Oriente Médio
e no momento em que o Brasil caminha para a auto-suficiência em
combustível, a nova jazida poderia estar sendo festejada em Brasília.
Mas não. Dilma e sua turma preferiram apedrejar o diretor-geral
da Agência Nacional do Petróleo, Sebastião do Rego
Barros. Ela disse que a divulgação foi precipitada. A Petrobras
entrou no tom da ministra distribuindo nota crítica sobre a forma
"confusa e incorreta" do anúncio. O líder do PT na Câmara,
Nelson Pellegrino, chegou ao cúmulo de, sem nenhuma evidência,
sugerir que a comunicação da descoberta do campo petrolífero
pode ter sido feita com interesses comerciais escusos. E o governo usou
o caso como uma evidência de que o modelo das agências fracassou.
É uma lógica perigosa. Pode até ser que tenha havido
algum erro no processo de divulgação do novo campo. Mas
discutir a necessidade das agências a partir dessa história
é o mesmo que questionar a necessidade do Congresso Nacional quando
um deputado ou senador faz alguma coisa errada. A verdade é que,
embora finjam que se trata de um debate técnico, os petistas estão
injuriados porque, semana após semana, fica cada vez mais claro
que as agências concentram o verdadeiro poder em suas mãos.
E que os ministérios mandam muito pouco se comparados aos dos tempos
do general Emílio Garrastazu Médici.
Tome-se o caso do Ministério das Comunicações. No
passado, o ministro indicava nomes para dezenas de postos importantes,
comandava um orçamento bilionário, influenciava nas tarifas
telefônicas e ainda distribuía concessões de rádio
e TV. Essa realidade acabou. O atual ministro, Miro Teixeira, dedica sua
agenda a temas significativos, como a definição do novo
padrão para a TV digital, mas de menor valor de troca no universo
de Brasília. Miro é um dos que mais reclamam das agências
e já propôs que fossem anexadas aos ministérios. Até
Lula se manifestou a respeito do tema. "As agências terceirizaram
o poder político", disse. No passado, o anúncio da jazida
de petróleo poderia ser feito pelo presidente e apresentado como
uma conquista do governo. Pelo sistema atual, a ANP informa a opinião
pública de forma fria, sem que ninguém possa faturar nada
politicamente. Antes de divulgar a nota, Rego Barros fez a gentileza de
ligar para a ministra, para José Dirceu, da Casa Civil, e para
o presidente da Petrobras. Só que ninguém atendeu a seu
chamado. Como não lhes deve satisfação, divulgou
a informação.
José Paulo Lacerda/AE
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Dida Sampaio/AE
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| Miro
Teixeira, das Comunicações, e Humberto Costa,
da Saúde: sem as agências, ministérios esvaziados
|
As
agências possuem diversas atribuições. Uma das mais
importantes é monitorar as tarifas praticadas pelas concessionárias
e autorizar correções. Também definem parâmetros
de qualidade para os serviços prestados. A Aneel multa as empresas
de energia que deixam faltar luz por mais tempo que o limite definido.
A Anatel fiscaliza, por exemplo, se as empresas instalaram um telefone
público para cada grupo de 300 pessoas. Checar a pureza dos combustíveis
é obrigação da ANP. Os presidentes das agências
são escolhidos pelo governo, têm o nome aprovado no Senado
e um mandato. Essa arquitetura é a garantia de que os governantes
não poderão fazer o que bem entendem, pressionando as empresas
privadas.
Em apenas cinco anos de atividades, as agências já deram
bons resultados. O modelo foi copiado da Europa e dos Estados Unidos,
onde elas funcionam bem há mais de 100 anos. Como todo serviço
público, sofrem de um mal comum na administração
pública. Faltam pessoal e dinheiro, pois o governo contingenciou
metade do orçamento. Ainda existem falhas em seu funcionamento.
A mais grave é que elas não são obrigadas a prestar
contas a nenhuma estrutura de poder. Nos Estados Unidos e na Europa, as
agências reguladoras estão subordinadas ao Parlamento. Há
um projeto de lei nesse sentido tramitando no Congresso. Apesar de todas
as críticas, ninguém é capaz de apontar um modelo
melhor para fiscalizar concessionárias de serviços públicos
em nome dos contribuintes.
O novo governo fala a todo instante em "rever o papel das agências",
mas o PT já percebeu que a batalha para reverter o poder dessas
entidades vai ser dura demais. De acordo com um interlocutor graduado
do presidente, a estratégia agora é criar um clima irrespirável
para os atuais ocupantes do cargo. Como os chefes das agências não
podem ser demitidos, a solução é fazer uma pressão
continuada que leve à renúncia. Assim, o PT alcançaria
o poder real sobre o setor produtivo da economia. De acordo com esse interlocutor
do presidente, é por isso que se está testemunhando um ataque
generalizado contra todas as agências. Nesse processo, a ordem é
falar qualquer coisa desde que seja negativa. O ministro Humberto
Costa, da Saúde, reclama, por exemplo, que elas assumiram tarefas
exclusivas do governo. No seu campo de atuação existem duas
agências: a Anvisa, que fiscaliza remédios, e a ANS, que
cuida dos planos de saúde. VEJA pediu-lhe para citar exemplos.
Sua resposta: "Não me lembro especificamente. Foram tantas coisas".
| A
POLÊMICA DAS AGÊNCIAS |
| O
que fazem as agências reguladoras |
| São
departamentos autônomos que criam regras e fiscalizam o funcionamento
das concessionárias de serviços públicos |
| Quantas
são |
| Oito
federais e mais treze nos Estados e municípios |
| O
que o governo petista critica nas agências |
| Diz
que elas têm autonomia demais, que são ineficientes e
que extrapolam sua função, definindo caminhos a seguir
para setores que deveriam apenas supervisionar |
| O
que o governo quer |
| Recuperar
o controle sobre as agências para interferir nas tarifas dos
serviços públicos |
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