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O nome da encrenca
é Chávez
Desemprego,
inflação e pobreza atingem
recordes históricos na Venezuela. Em lugar
de governar, o presidente só quer briga
Raul Juste
Lores, de Caracas
Reuters
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| Chávez:
povo dividido entre a oposição, que quer eleições, e as milícias que
o defendem |
O dia-a-dia dos venezuelanos lembra os piores momentos do Plano Cruzado,
nos anos 80. O congelamento de preços decretado pelo presidente
Hugo Chávez fez sumir das prateleiras o leite, a manteiga, o óleo
de cozinha e os remédios. Os mesmos produtos reaparecem, pelo dobro
do preço, nos milhares de barraquinhas que tomam as principais
ruas e avenidas de Caracas. As semelhanças param por aí,
porque os venezuelanos estão sendo submetidos a provações
econômicas e políticas muito piores que qualquer coisa que
já ocorreu por aqui. Ao contrário do Brasil, que é
um campeão de produção agrícola e tem um formidável
parque industrial, a Venezuela importa boa parte dos alimentos e quase
todos os remédios que consome. Há dois meses, numa tentativa
desesperada de interromper a desvalorização da moeda nacional
e a fuga de divisas, Chávez proibiu a venda de dólares no
país. Sem a moeda americana, o desabastecimento tornou-se tão
agudo que os pacientes em hospitais agora precisam comprar as próprias
seringas e antibióticos.
Por onde
se olhe, a economia definha. O Estado quebrou. Até o salário
dos diplomatas venezuelanos no exterior está atrasado. O produto
interno bruto encolheu 9% no ano passado e se prevê que, na melhor
das hipóteses, cairá mais 20% neste ano será
o pior resultado da história da América Latina. Como a Venezuela,
que é o quinto maior produtor mundial de petróleo, chegou
a uma situação tão calamitosa? De acordo com as últimas
pesquisas, sete em cada dez venezuelanos atribuem total responsabilidade
a Hugo Chávez e acham que ele deve pegar sua boina vermelha e deixar
o Palácio de Miraflores, a sede do governo. O que agrava a encrenca
é o fato de os outros três venezuelanos estarem dispostos
a dar o sangue em defesa da "revolução bolivariana", como
Chávez apelidou pomposamente seu governo, iniciado há quatro
anos. É justo lembrar que o presidente pegou um país já
em má situação, em 1999. A Venezuela está
na enfermaria desde meados dos anos 80, quando começou a cair sua
participação no mercado global de petróleo. O produto
é praticamente sua única fonte de renda. Coube a Chávez
dar o pontapé final no castelo de cartas criado pela prosperidade
do passado.
Nos anos
de bonança, a Venezuela desperdiçou o dinheiro ganho com
a venda de petróleo em obras faraônicas, estatais deficitárias
e paternalismo populista. As sucessivas crises econômicas e a corrupção
desenfreada terminaram por desmoralizar os partidos tradicionais. Em 1998,
Hugo Chávez foi eleito presidente como a única novidade
disponível. Coronel pára-quedista sem partido nem programa
político, o que tinha a oferecer como currículo era a fracassada
tentativa de golpe de Estado que liderou em 1992. Convenceu o eleitorado
de que sua quartelada fora motivada pela indignação moral
com a corrupção generalizada e se elegeu com 56% dos votos.
Sua popularidade alcançou, um ano depois, estratosféricos
90%. Encantados com as promessas messiânicas, os venezuelanos deram-lhe
carta branca para fazer o que julgasse necessário para tirar o
país da decadência. Chávez venceu seis plebiscitos
e duas eleições, reformou a Constituição,
interveio no Judiciário, prolongou o próprio mandato e fez
maioria no Congresso. Na hora de usar isso em benefício do país,
revelou-se um desastre.
Reuters
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Pedro Ruiz
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| Prateleiras
vazias em supermercado de Caracas e manifestação chavista com homenagem
a Cuba: governo não sabe o que fazer com a economia |
Diferentemente
de Lula, que se cercou de petistas pragmáticos e até de
gente de fora de seu partido para poder governar, Chávez formou
o ministério com companheiros fardados e velhos militantes comunistas,
gente sem experiência administrativa. A falta de competência
da equipe, mais que qualquer veleidade ideológica de copiar a Cuba
dos anos 60, enterrou a esperança que milhões de venezuelanos
depositaram nele. Cheio de vontade política, mas totalmente ignorante
em assuntos econômicos, o presidente cometeu erros básicos.
"Pôs-se a mudar constantemente as regras do jogo econômico,
o que afugentou novos investimentos externos," diz Gustavo García,
do Instituto de Estudos Superiores de Administração, em
Caracas. Chávez ajudou a criar o clima de intranqüilidade
ao incentivar desde invasões de terra até a depredação
das instalações dos meios de comunicação que
o criticavam. A instabilidade provocou uma enorme fuga de divisas. O desemprego
chegou a 22%, quase o dobro do registrado em 1998, e a economia informal
emprega mais de metade da mão-de-obra ativa. O presidente tentou
resolver as mazelas sociais com o assistencialismo mais elementar. Colocou
um orçamento milionário nas mãos do Exército,
para que os militares distribuíssem cestas básicas e até
dinheiro vivo à população. Filas se formavam diante
do Palácio de Miraflores onde eram entregues donativos
até esvaziar o Tesouro Nacional.
Chávez
sustenta que a Venezuela é rica, mas uma elite perversa fica com
todo o dinheiro. A teoria simplista funcionou porque os venezuelanos,
boa parte composta de imigrantes ansiosos por fazer a América,
foram criados sob o sonho de que a riqueza petrolífera dava para
todos. Não dava. A classe média, que 25 anos atrás
representava 65% da população, hoje não passa de
21%. A decepção e o ressentimento crônicos viraram
combustível para o ódio entre as classes sociais, que o
presidente alimenta. Nos últimos dois anos, ficou evidente para
a maioria dos venezuelanos que a revolução bolivariana também
não oferece a fórmula mágica capaz de melhorar sua
vida numa economia em recessão. Entre dezembro e janeiro, os setores
organizados, de empresários a sindicatos, sustentaram durante sessenta
dias uma greve geral cuja exigência era a convocação
de um plebiscito para encurtar o mandato de Chávez e convocar novas
eleições. O governo sobreviveu à crise, mas os ânimos
continuam exaltados. O estilo birrento do presidente, mais apropriado
para tempos de guerra do que para alguém que tem de governar a
todos, contaminou a Venezuela. "Mais que a crise econômica ou política,
o pior pecado cometido por Chávez foi incentivar uma enorme intolerância
de venezuelanos contra venezuelanos", diz monsenhor Luis Ugalde, reitor
da Universidade Católica Andrés Bello, em Caracas.
Pedro Ruiz
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| Troca
de socos entre oposicionista e simpatizante do governo: violência
estimulada de cima |
Os brasileiros
que o festejaram no Fórum Social de Porto Alegre, em janeiro passado,
talvez não saibam que os partidos de esquerda foram os primeiros
a abandonar Chávez. Quase trinta deputados mudaram de lado. Hoje,
o presidente tem 83 votos a favor e 78 contra no Congresso. "Ele não
faz um governo de esquerda", diz o deputado socialista Alejandro Armas,
atualmente na oposição, que esteve junto com o governo até
dezembro de 2001. "Os pobres estão mais pobres, e, quanto mais
sua gestão fracassou, mais ele endureceu o discurso, à procura
de culpados externos." Em suas aparições na televisão,
Chávez mais parece um líder de torcida organizada. Só
em 2003, o governo já convocou 41 cadeias nacionais de rádio
e televisão. Chávez falou quase quarenta horas em 25 dessas
cadeias. De modo arbitrário, ele interrompe novelas e noticiários
para mostrar cerimônias militares ou entregas de títulos
de terra feitas pelo governo. Seu programa dominical na TV estatal, o
Alô, Presidente, dura de quatro a cinco horas. O presidente
conta piadas, canta e, principalmente, xinga seus adversários.
"Não vejo nenhum problema em que ele provoque o confronto, nem
na sua linguagem", justificou a VEJA o vice-presidente venezuelano, José
Vicente Rangel. "Chávez é autêntico e responde na
mesma moeda com que é atacado. Ele usa a linguagem do povo."
Governistas
e oposicionistas já perderam a compostura. O centro e muitos bairros
pobres de Caracas são controlados pelos círculos bolivarianos,
a truculenta tropa de choque dos partidários de Chávez.
Há três semanas, uma professora da Universidade Católica
que criticava Chávez em palestras em favelas foi seqüestrada
por três homens encapuzados e ameaçada de morte se continuasse
a pregar contra o governo. No início de fevereiro, vizinhos da
igreja em que se realizava o casamento da filha de um tenente-coronel
amigo de Chávez organizaram um panelaço ensurdecedor na
hora da cerimônia. Constrangidos, os noivos tiveram de fugir escoltados
por cinco viaturas policiais. Um vôo entre Caracas e Santo Domingo
teve de ser interrompido, meia hora depois da decolagem, diante da bagunça
promovida por dezenas de passageiros que "descobriram" ali um general
próximo a Chávez. As lanchonetes McDonald's de vários
bairros de Caracas parecem bunkers em tempo de guerra, protegidas com
cercas de arame farpado e guardas armados. Isso porque, como era de esperar,
a rede de fast food foi o bode expiatório de muitos militantes
chavistas em seus ataques ao "imperialismo".
AFP
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| O
estilo Chávez: um chefe de Estado que canta e conta piadas em programa
de TV |
Chávez sentiu-se fortalecido com a vitória na greve geral
e não demonstra interesse em pacificar a nação. Por
iniciativa do Brasil, foi criado um grupo de países amigos da Venezuela
que inclui os Estados Unidos, que compram 65% das exportações
venezuelanas de petróleo com o objetivo de mediar um diálogo
entre governo e oposição. O presidente venezuelano boicotou
o esforço com a exigência de que o grupo fosse reforçado
com alguns países mui amigos, como Cuba (Chávez fala diariamente
por telefone com Fidel Castro, a quem considera um mentor). Também
partiu para uma caça às bruxas. Pediu na TV que juízes
"corajosos" prendessem os líderes da greve. Logo foram emitidas
ordens de prisão para o principal líder dos empresários,
para o presidente da maior central sindical, que pediu asilo à
Costa Rica, e para sete diretores da PDVSA, a estatal do petróleo.
Depois da greve, a empresa não pôde voltar a funcionar normalmente
porque o governo puniu 16.000 funcionários,
quase metade do quadro, com demissão sumária. Foi o mesmo
que pôr a nocaute a galinha dos ovos de ouro, pois a PDVSA é
responsável por 60% da arrecadação de impostos na
Venezuela. A oposição ainda é desarticulada e não
tem líderes capazes de transformar o descontentamento geral em
força partidária. Após o fracasso de uma tentativa
de golpe no ano passado e da greve geral, o próximo passo é
um abaixo-assinado, que já tem mais de 4 milhões de signatários,
exigindo eleições antecipadas. "Fui contra o golpe e contra
a greve geral, mas é preciso demonstrar que Chávez só
aceitava ir às urnas quando tinha certeza de que ganhava", diz
o economista Alejandro Plas, que tirou um ano sabático para organizar
o que ele chama de "resistência democrática".

Quem realmente mudou de vida nesses quatro anos de populismo foi o próprio
Chávez. O presidente engordou e, apesar de se exibir publicamente
com boina vermelha e farda, adora relógios e ternos italianos.
Também comprou para uso da Presidência um avião de
70 milhões de dólares. Sua filha mais velha foi estudar
francês em Paris. Por pouco o casamento da primeira-filha não
se realiza no Palácio de Miraflores. A repercussão foi tão
negativa, até dentro do governo, que, em um raro momento de bom
senso, o presidente decidiu adiar a cerimônia e escolher um local
mais reservado. Chávez também está solteiro. Durante
a campanha eleitoral de 1998, ele abandonou a primeira mulher, com quem
tem três filhos, e também uma amante de vários anos.
Tudo isso para se casar com a loira Marisabel, que era locutora de rádio.
Ela deixou o palácio há alguns meses. Dizendo-se abandonada
pelo presidente, abriu um salão de beleza numa cidade do interior.
Como a maioria dos venezuelanos, ela se decepcionou com Chávez.
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