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Edição 1 794 - 19 de março de 2003
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O nome da encrenca
é Chávez

Desemprego, inflação e pobreza atingem
recordes históricos na Venezuela. Em lugar
de governar, o presidente só quer briga

Raul Juste Lores, de Caracas

Reuters
Chávez: povo dividido entre a oposição, que quer eleições, e as milícias que o defendem


O dia-a-dia dos venezuelanos lembra os piores momentos do Plano Cruzado, nos anos 80. O congelamento de preços decretado pelo presidente Hugo Chávez fez sumir das prateleiras o leite, a manteiga, o óleo de cozinha e os remédios. Os mesmos produtos reaparecem, pelo dobro do preço, nos milhares de barraquinhas que tomam as principais ruas e avenidas de Caracas. As semelhanças param por aí, porque os venezuelanos estão sendo submetidos a provações econômicas e políticas muito piores que qualquer coisa que já ocorreu por aqui. Ao contrário do Brasil, que é um campeão de produção agrícola e tem um formidável parque industrial, a Venezuela importa boa parte dos alimentos e quase todos os remédios que consome. Há dois meses, numa tentativa desesperada de interromper a desvalorização da moeda nacional e a fuga de divisas, Chávez proibiu a venda de dólares no país. Sem a moeda americana, o desabastecimento tornou-se tão agudo que os pacientes em hospitais agora precisam comprar as próprias seringas e antibióticos.

Por onde se olhe, a economia definha. O Estado quebrou. Até o salário dos diplomatas venezuelanos no exterior está atrasado. O produto interno bruto encolheu 9% no ano passado e se prevê que, na melhor das hipóteses, cairá mais 20% neste ano – será o pior resultado da história da América Latina. Como a Venezuela, que é o quinto maior produtor mundial de petróleo, chegou a uma situação tão calamitosa? De acordo com as últimas pesquisas, sete em cada dez venezuelanos atribuem total responsabilidade a Hugo Chávez e acham que ele deve pegar sua boina vermelha e deixar o Palácio de Miraflores, a sede do governo. O que agrava a encrenca é o fato de os outros três venezuelanos estarem dispostos a dar o sangue em defesa da "revolução bolivariana", como Chávez apelidou pomposamente seu governo, iniciado há quatro anos. É justo lembrar que o presidente pegou um país já em má situação, em 1999. A Venezuela está na enfermaria desde meados dos anos 80, quando começou a cair sua participação no mercado global de petróleo. O produto é praticamente sua única fonte de renda. Coube a Chávez dar o pontapé final no castelo de cartas criado pela prosperidade do passado.

Nos anos de bonança, a Venezuela desperdiçou o dinheiro ganho com a venda de petróleo em obras faraônicas, estatais deficitárias e paternalismo populista. As sucessivas crises econômicas e a corrupção desenfreada terminaram por desmoralizar os partidos tradicionais. Em 1998, Hugo Chávez foi eleito presidente como a única novidade disponível. Coronel pára-quedista sem partido nem programa político, o que tinha a oferecer como currículo era a fracassada tentativa de golpe de Estado que liderou em 1992. Convenceu o eleitorado de que sua quartelada fora motivada pela indignação moral com a corrupção generalizada e se elegeu com 56% dos votos. Sua popularidade alcançou, um ano depois, estratosféricos 90%. Encantados com as promessas messiânicas, os venezuelanos deram-lhe carta branca para fazer o que julgasse necessário para tirar o país da decadência. Chávez venceu seis plebiscitos e duas eleições, reformou a Constituição, interveio no Judiciário, prolongou o próprio mandato e fez maioria no Congresso. Na hora de usar isso em benefício do país, revelou-se um desastre.

Reuters
Pedro Ruiz
Prateleiras vazias em supermercado de Caracas e manifestação chavista com homenagem a Cuba: governo não sabe o que fazer com a economia

Diferentemente de Lula, que se cercou de petistas pragmáticos e até de gente de fora de seu partido para poder governar, Chávez formou o ministério com companheiros fardados e velhos militantes comunistas, gente sem experiência administrativa. A falta de competência da equipe, mais que qualquer veleidade ideológica de copiar a Cuba dos anos 60, enterrou a esperança que milhões de venezuelanos depositaram nele. Cheio de vontade política, mas totalmente ignorante em assuntos econômicos, o presidente cometeu erros básicos. "Pôs-se a mudar constantemente as regras do jogo econômico, o que afugentou novos investimentos externos," diz Gustavo García, do Instituto de Estudos Superiores de Administração, em Caracas. Chávez ajudou a criar o clima de intranqüilidade ao incentivar desde invasões de terra até a depredação das instalações dos meios de comunicação que o criticavam. A instabilidade provocou uma enorme fuga de divisas. O desemprego chegou a 22%, quase o dobro do registrado em 1998, e a economia informal emprega mais de metade da mão-de-obra ativa. O presidente tentou resolver as mazelas sociais com o assistencialismo mais elementar. Colocou um orçamento milionário nas mãos do Exército, para que os militares distribuíssem cestas básicas e até dinheiro vivo à população. Filas se formavam diante do Palácio de Miraflores – onde eram entregues donativos – até esvaziar o Tesouro Nacional.

Chávez sustenta que a Venezuela é rica, mas uma elite perversa fica com todo o dinheiro. A teoria simplista funcionou porque os venezuelanos, boa parte composta de imigrantes ansiosos por fazer a América, foram criados sob o sonho de que a riqueza petrolífera dava para todos. Não dava. A classe média, que 25 anos atrás representava 65% da população, hoje não passa de 21%. A decepção e o ressentimento crônicos viraram combustível para o ódio entre as classes sociais, que o presidente alimenta. Nos últimos dois anos, ficou evidente para a maioria dos venezuelanos que a revolução bolivariana também não oferece a fórmula mágica capaz de melhorar sua vida numa economia em recessão. Entre dezembro e janeiro, os setores organizados, de empresários a sindicatos, sustentaram durante sessenta dias uma greve geral cuja exigência era a convocação de um plebiscito para encurtar o mandato de Chávez e convocar novas eleições. O governo sobreviveu à crise, mas os ânimos continuam exaltados. O estilo birrento do presidente, mais apropriado para tempos de guerra do que para alguém que tem de governar a todos, contaminou a Venezuela. "Mais que a crise econômica ou política, o pior pecado cometido por Chávez foi incentivar uma enorme intolerância de venezuelanos contra venezuelanos", diz monsenhor Luis Ugalde, reitor da Universidade Católica Andrés Bello, em Caracas.

Pedro Ruiz
Troca de socos entre oposicionista e simpatizante do governo: violência estimulada de cima

Os brasileiros que o festejaram no Fórum Social de Porto Alegre, em janeiro passado, talvez não saibam que os partidos de esquerda foram os primeiros a abandonar Chávez. Quase trinta deputados mudaram de lado. Hoje, o presidente tem 83 votos a favor e 78 contra no Congresso. "Ele não faz um governo de esquerda", diz o deputado socialista Alejandro Armas, atualmente na oposição, que esteve junto com o governo até dezembro de 2001. "Os pobres estão mais pobres, e, quanto mais sua gestão fracassou, mais ele endureceu o discurso, à procura de culpados externos." Em suas aparições na televisão, Chávez mais parece um líder de torcida organizada. Só em 2003, o governo já convocou 41 cadeias nacionais de rádio e televisão. Chávez falou quase quarenta horas em 25 dessas cadeias. De modo arbitrário, ele interrompe novelas e noticiários para mostrar cerimônias militares ou entregas de títulos de terra feitas pelo governo. Seu programa dominical na TV estatal, o Alô, Presidente, dura de quatro a cinco horas. O presidente conta piadas, canta e, principalmente, xinga seus adversários. "Não vejo nenhum problema em que ele provoque o confronto, nem na sua linguagem", justificou a VEJA o vice-presidente venezuelano, José Vicente Rangel. "Chávez é autêntico e responde na mesma moeda com que é atacado. Ele usa a linguagem do povo."


Governistas e oposicionistas já perderam a compostura. O centro e muitos bairros pobres de Caracas são controlados pelos círculos bolivarianos, a truculenta tropa de choque dos partidários de Chávez. Há três semanas, uma professora da Universidade Católica que criticava Chávez em palestras em favelas foi seqüestrada por três homens encapuzados e ameaçada de morte se continuasse a pregar contra o governo. No início de fevereiro, vizinhos da igreja em que se realizava o casamento da filha de um tenente-coronel amigo de Chávez organizaram um panelaço ensurdecedor na hora da cerimônia. Constrangidos, os noivos tiveram de fugir escoltados por cinco viaturas policiais. Um vôo entre Caracas e Santo Domingo teve de ser interrompido, meia hora depois da decolagem, diante da bagunça promovida por dezenas de passageiros que "descobriram" ali um general próximo a Chávez. As lanchonetes McDonald's de vários bairros de Caracas parecem bunkers em tempo de guerra, protegidas com cercas de arame farpado e guardas armados. Isso porque, como era de esperar, a rede de fast food foi o bode expiatório de muitos militantes chavistas em seus ataques ao "imperialismo".


AFP
O estilo Chávez: um chefe de Estado que canta e conta piadas em programa de TV


Chávez sentiu-se fortalecido com a vitória na greve geral e não demonstra interesse em pacificar a nação. Por iniciativa do Brasil, foi criado um grupo de países amigos da Venezuela – que inclui os Estados Unidos, que compram 65% das exportações venezuelanas de petróleo – com o objetivo de mediar um diálogo entre governo e oposição. O presidente venezuelano boicotou o esforço com a exigência de que o grupo fosse reforçado com alguns países mui amigos, como Cuba (Chávez fala diariamente por telefone com Fidel Castro, a quem considera um mentor). Também partiu para uma caça às bruxas. Pediu na TV que juízes "corajosos" prendessem os líderes da greve. Logo foram emitidas ordens de prisão para o principal líder dos empresários, para o presidente da maior central sindical, que pediu asilo à Costa Rica, e para sete diretores da PDVSA, a estatal do petróleo. Depois da greve, a empresa não pôde voltar a funcionar normalmente porque o governo puniu 16.000 funcionários, quase metade do quadro, com demissão sumária. Foi o mesmo que pôr a nocaute a galinha dos ovos de ouro, pois a PDVSA é responsável por 60% da arrecadação de impostos na Venezuela. A oposição ainda é desarticulada e não tem líderes capazes de transformar o descontentamento geral em força partidária. Após o fracasso de uma tentativa de golpe no ano passado e da greve geral, o próximo passo é um abaixo-assinado, que já tem mais de 4 milhões de signatários, exigindo eleições antecipadas. "Fui contra o golpe e contra a greve geral, mas é preciso demonstrar que Chávez só aceitava ir às urnas quando tinha certeza de que ganhava", diz o economista Alejandro Plas, que tirou um ano sabático para organizar o que ele chama de "resistência democrática".


Quem realmente mudou de vida nesses quatro anos de populismo foi o próprio Chávez. O presidente engordou e, apesar de se exibir publicamente com boina vermelha e farda, adora relógios e ternos italianos. Também comprou para uso da Presidência um avião de 70 milhões de dólares. Sua filha mais velha foi estudar francês em Paris. Por pouco o casamento da primeira-filha não se realiza no Palácio de Miraflores. A repercussão foi tão negativa, até dentro do governo, que, em um raro momento de bom senso, o presidente decidiu adiar a cerimônia e escolher um local mais reservado. Chávez também está solteiro. Durante a campanha eleitoral de 1998, ele abandonou a primeira mulher, com quem tem três filhos, e também uma amante de vários anos. Tudo isso para se casar com a loira Marisabel, que era locutora de rádio. Ela deixou o palácio há alguns meses. Dizendo-se abandonada pelo presidente, abriu um salão de beleza numa cidade do interior. Como a maioria dos venezuelanos, ela se decepcionou com Chávez.

 
 
   
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