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Ele esteve no Brasil

Policarpo
Junior, de Foz do Iguaçu
Reuters
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PASSEANDO
EM FOZ
Em 1995, Osama bin Laden passou três dias em Foz do Iguaçu
e fez reunião numa mesquita |

Veja também |
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Quem
diria: Osama bin Laden, o terrorista mais procurado do mundo, andou perambulando
pelo Brasil no ano de 1995. Vindo da Argentina, entrou clandestinamente
no país, passou três dias agradáveis em Foz do Iguaçu
e reuniu-se com alguns membros da comunidade árabe na mesquita
sunita da cidade, um imponente prédio erguido há vinte anos.
Na mesquita, Bin Laden contou a seus companheiros de fé as agruras
que enfrentou no Afeganistão quando lutava contra a ocupação
soviética, conflito que durou dez anos e se encerrou no fim da
década de 80. Na época de sua passagem pelo Brasil,
Bin
Laden ainda não era a estrela mundial do terrorismo, mas recebia
as honras de um festejado líder islâmico. Seu encontro com
os muçulmanos de Foz do Iguaçu, em nome da posteridade,
chegou a ser filmado. O vídeo, preservado até hoje, tem
28 minutos de duração. Quem viu as imagens conta que Osama
bin Laden aparece com um discreto cavanhaque, contrastando com a caudalosa
barba que o celebrizou depois dos atentados a Washington e Nova York.
Está trajando um cafetã branco, a túnica típica
da vestimenta árabe, e uma gutra vermelha, o lenço com que
os árabes cobrem a cabeça.
Na
semana passada, um alto funcionário da Agência Brasileira
de Inteligência (Abin) relatou a VEJA alguns detalhes das aventuras
brasileiras de Bin Laden, sob a condição de manter-se no
anonimato. Outras duas fontes um superintendente da Polícia
Federal e um delegado aposentado da PF, que trabalhou em Foz do Iguaçu
confirmaram a VEJA que o serviço secreto brasileiro esteve
investigando as conexões terroristas islâmicas naquela região
da tríplice fronteira, entre Brasil, Argentina e Paraguai. A história,
detalhada pelo alto funcionário da Abin, mistura ingredientes em
que a sorte é sucedida pela inépcia e desemboca num desfecho
que só não é engraçado dado o fato de que
o terrorista Osama bin Laden, anos depois, viria a mudar a história
do século XXI com os terríveis atentados nos Estados Unidos,
em setembro de 2001.
O
serviço secreto brasileiro andou às voltas com Bin Laden
por mero acidente de percurso. Em 1994, depois do atentado a uma entidade
judaica em Buenos Aires que deixou 96 mortos, a CIA pediu ao governo brasileiro
que vasculhasse a região de Foz do Iguaçu, na confluência
das fronteiras de Brasil, Argentina e Paraguai, em busca de células
terroristas. Encarregada da missão, a Secretaria de Assuntos
Estratégicos, que mais tarde seria substituída
pela Abin, montou a chamada Operação Piloto. Instalou um
quartel-general no prédio da Polícia Federal em Foz do Iguaçu.
Despachou para a região seis agentes secretos, que se juntaram
a dois delegados e outros quatro agentes do centro de inteligência
da PF. A operação durou alguns meses, levantou uma série
de intrigas e futricas, mas não resultou em nada de concreto. Sua
única relevância foi ter levado a Abin a fisgar um novo informante
um egípcio que vivia clandestinamente em Foz do Iguaçu.
Usava passaporte falso e era procurado pelas autoridades de seu país
devido às suspeitas de ser ligado a um grupo terrorista, o Gama
At Al Islamiya. A organização praticara vários atentados
no Egito, matando mais de 100 pessoas. Descoberto pelos agentes brasileiros,
o egípcio pediu clemência. Não podia voltar para o
Egito, sob pena de ser executado. Para ficar no Brasil, concordou em trabalhar
como informante. Em troca, passou a receber 2.000
dólares por mês metade paga pela Abin e a outra desembolsada
pela CIA. É informante até hoje.
Em suas
peripécias, o egípcio circulava com desenvoltura pela comunidade
árabe de Foz e freqüentava as mesquitas da cidade. Por fé
religiosa, esteve no encontro com Bin Laden na mesquita sunita, acreditando
tratar-se de um líder espiritual, e não de um terrorista.
Afinal, conhecia Osama bin Laden desde os tempos de sua juventude, quando
chegaram a estudar juntos. O egípcio ouviu a peroração
de Bin Laden sobre seu combate aos soviéticos no Afeganistão
e, para guardar a imagem do amigo, obteve o vídeo que registra
sua presença na região. Ninguém deu importância
ao fato nem o informante da Abin, que desconhecia as atividades
terroristas de Bin Laden, nem a própria Abin, que, à época,
era capaz de confundir Bin Laden com o nome de uma estação
de esqui austríaca. E assim se passaram três anos, até
que as bombas começaram a explodir. Em agosto de 1998, as embaixadas
dos Estados Unidos no Quênia e na Tanzânia foram alvo de sangrentos
atentados em que morreram mais de 200 pessoas. Os investigadores americanos
descobriram que, por trás da carnificina, havia um grupo terrorista
que se tornaria mundialmente conhecido: Al Qaeda.
AP
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NA
CÚPULA DA AL QAEDA
O kuwaitiano Khalid Shaikh Mohammed, que esteve no Brasil em 1995:
o terceiro homem |
No rastro
da investigação, o governo dos Estados Unidos apontou publicamente
o principal suspeito pelos atentados na África, Osama bin Laden,
e ofereceu uma recompensa de 5 milhões de dólares por sua
captura, vivo ou morto. Nessa época, a CIA pediu ao serviço
secreto brasileiro informações sobre um dos suspeitos de
envolvimento no ataque às embaixadas americanas, o terrorista kuwaitiano
Khalid Shaikh Mohammed o mesmo que foi preso há três
semanas, no Paquistão, e é considerado o terceiro homem
mais importante na hierarquia da Al Qaeda. O pedido de informações
da CIA, ao qual VEJA teve acesso, é datado de outubro de 1998,
dois meses depois das explosões das embaixadas americanas na África.
Atendendo à solicitação, a Abin acionou seu grupo
de agentes que já havia quatro anos estava instalado em Foz do
Iguaçu, na tríplice fronteira. Descobriu que Khalid Shaikh
Mohammed estivera no Brasil, em 1995. Entrou e saiu do país com
visto de turista. Chegou por São Paulo no início de dezembro
e, na véspera de Natal, embarcou no aeroporto do Rio de Janeiro
com destino à Holanda.
O informante
egípcio, porém, tinha dados mais interessantes. Lembrou
a seus superiores que Khalid Mohammed não era o único a
ter passado pelo Brasil. Lembrou que Osama bin Laden também estivera
em Foz do Iguaçu. Lembrou que havia até um vídeo
mostrando o terrorista numa mesquita da cidade e, é claro,
lembrou que sua cabeça passara a valer 5 milhões de dólares.
As informações sobre o terrorista kuwaitiano e Bin Laden
foram repassadas à CIA. Não se tem notícia do que
a agência de inteligência americana achou dos relatos nem
se pediu à Abin para que tomasse alguma providência. Procurada
por VEJA na semana passada, a embaixadora americana no Brasil, Donna Hrinak,
fez silêncio. "Não comentamos assuntos de inteligência",
mandou dizer.
O relato
do informante egípcio ganhou credibilidade dentro da Abin. Afinal,
tratava-se de um funcionário com serviços prestados em ocasiões
anteriores. Em 1997, por exemplo, ele conseguira decifrar a estranha figura
do xeque da mesquita de Foz de Iguaçu, o também egípcio
Mahmoud Badran Muhamad Husain, ao descobrir que, na verdade, se tratava
de um dublê de líder religioso e espião. O xeque chegara
ao Brasil em janeiro de 1996. Tinha a missão de conduzir a mesquita
sunita da cidade, a mesma onde Bin Laden fora filmado reunido com seus
parceiros do Islã. Vigiando os passos do xeque, descobriu-se que
ele falava com freqüência com o cônsul do Egito, Omar
Ali Abou-Eich. Meses depois, a residência do líder da mesquita
foi invadida por um grupo de desconhecidos. Até hoje, não
se sabe quem fez a invasão, mas o material encontrado na casa do
xeque apareceu misteriosamente na caixa de correspondência da Abin
em Foz do Iguaçu. O material incluía a agenda do xeque,
na qual constavam anotações sobre o papel de um serviço
de inteligência e dicas de como colher informações.
O Itamaraty foi informado da operação e, como resultado,
o xeque e o cônsul acabaram sendo chamados de volta ao Egito.
Com
o currículo de acertos do informante egípcio, a Abin, que
nem sequer sabia que entre seus informantes havia um que mantinha laços
com Bin Laden, achou que deveria explorar a informação.
Pediu a ele que tentasse retomar contato com o terrorista saudita. O informante
aceitou a missão, mas, segundo disse a VEJA o alto funcionário
da Abin, apresentou uma condição: caso ajudasse na captura
de Bin Laden, queria receber a recompensa de 5 milhões de dólares
oferecida pelo governo americano. A Abin aceitou, o egípcio embarcou
para um país africano, fez os contatos que julgou necessários
e voltou ao Brasil dizendo-se portador de uma boa notícia: era
possível, sim, com cuidado e tempo, alcançar Bin Laden.
Seus superiores imediatos, então, debruçaram-se na confecção
de um plano de trabalho. "O plano tinha apenas quatro páginas.
Era curto e grosso", contou a VEJA o graduado agente da Abin. Previa mandar
o informante para o Cairo, capital do Egito, devidamente disfarçado
para não ser capturado em seu país de origem e acabar com
a cabeça numa bandeja. Previa, ainda, que o prazo de execução
seria de seis meses, tempo suficiente para que o informante conseguisse
um contato com Bin Laden ou, ao menos, descobrisse seu paradeiro. A operação
custaria 10.000 dólares por mês aos cofres
da Abin. Uma pechincha.
Submetido
à cúpula da agência de inteligência, o plano
foi recebido com desprezo. O serviço secreto brasileiro achou que
tinha razões de sobra para não se meter na confusão.
Havia um dado prático: Osama bin Laden era um terrorista, sim,
mas, àquela altura, apenas um terrorista como tantos outros
e o tino da arapongagem brasileira nem de longe intuiu que poderia estar
diante de um peixe graúdo. Havia, também, uma razão
de política externa: não interessava ao governo brasileiro
envolver-se com questões do terrorismo internacional, o que só
reforçaria a surrada suspeita de que a região de Foz do
Iguaçu é uma meca para onde os terroristas costumam peregrinar.
E, por fim, havia um motivo prosaico, quase cômico: a Abin achou
que 10.000 dólares por mês era dinheiro
demais para gastar na tentativa de localizar um saudita maluco. Consultado
por VEJA sobre a operação, o ministro Jorge Armando Felix,
do Gabinete de Segurança Institucional, que coordena os trabalhos
da Abin, despachou uma nota em que se lê o seguinte: "Não
caberia, sob qualquer pretexto, a detenção de pessoa sem
que contra ela pesasse a infração da lei brasileira ou a
existência de mandado de prisão expedido por país
ou organismo internacional reconhecido pelo Brasil".
Além
dessas razões, a experiência profissional da Abin talvez
fosse suficiente para afastar os arapongas brasileiros do caso. Afinal,
seria um formidável entretenimento assistir à Abin, uma
agência que tem dificuldade de antecipar uma simples invasão
de prédio público por integrantes do Movimento dos Sem-Terra,
tentando capturar um terrorista árabe e, ainda por cima,
em território estrangeiro. E assim, sem merecer maiores atenções,
o plano foi parar na gaveta, onde repousa até hoje, o espião
egípcio continuou trabalhando para o serviço secreto brasileiro
em Foz do Iguaçu e, três anos depois, Osama bin Laden mandou
explodir as torres gêmeas em Nova York. Hoje, sua cabeça
vale 27 milhões de dólares 25 milhões oferecidos
pelo FBI e mais 2 milhões da associação americana
dos pilotos. É dinheiro suficiente para bancar 450 operações
de captura de terroristas, tendo por base o custo que a Abin achou alto
demais.
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