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Potência
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BUSH
CONTRA TODOS
A cruzada do presidente americano: visão fundamentalista
do mundo e prova da esmagadora supremacia dos Estados Unidos
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Há várias razões certas para investir na derrubada
da ditadura de Saddam Hussein, no Iraque. O presidente americano George
W. Bush escolheu a errada: ele resolveu fazer uma guerra contra um país
inteiro, o Iraque, sob o pretexto de que está conduzindo uma cruzada
do bem contra o mal, da democracia contra a ditadura, de Deus contra Satã.
Sem se constranger pela falta de apoio que está tendo na Organização
das Nações Unidas para sua guerra santa nem pelo repúdio
internacional à guerra, o presidente Bush apela para o incontrastável
poderio bélico dos Estados Unidos, que pode varrer o Iraque do
mapa em poucos dias, sob o pretexto de que estará realizando um
trabalho em benefício da civilização contra a figura
sanguinária de um homem, Saddam Hussein, e de seu círculo
de asseclas instalados no poder há três décadas. Guerra
é um assunto sério e, quando se mostram inevitáveis,
as guerras precisam ser travadas. Nesta, pronta para ser desfechada
contra o Iraque, o governo Bush está movendo o Estado americano
para o conflito armado que deixará vítimas e poderá
ter reflexos dramáticos em toda a região do Oriente Médio.
Esta guerra é pelo menos adiável mas os caubóis
do governo dos EUA resolveram tomar a iniciativa de partir para o duelo
sangrento a qualquer custo. A natureza de uma democracia verdadeira é
a de não ser jamais a parte agressora. Caso contrário, ela
estaria descendo ao patamar do inimigo, o que de certa forma está
acontecendo com os EUA.
Saddam Hussein não é apenas um ditador a mais no Oriente
Médio, região do mundo que tem a extraordinária peculiaridade
de não ostentar um único regime democrático, fora
Israel. Saddam, além de presidir uma ditadura familiar e tribal
que se mantém no poder à custa de tortura dos opositores,
do assassinato e até mesmo do genocídio, é também
psicopata e sádico. Segundo um levantamento, o regime de Saddam
Hussein torturou e matou cerca de 200.000 iraquianos. Os porões
de tortura no Iraque põem em prática métodos de extorsão
de confissões que incluem açoite de crianças em frente
às mães, corte de membros do corpo e encerramento dos opositores
do regime em recipientes que lembram as gavetas para guardar mortos em
necrotérios. Citam-se também estupros, feitos com o objetivo
de desonrar as vítimas. Saddam assassinou os genros porque eles
o traíram, arrependeram-se e acreditaram ter sido perdoados. Governa
com o auxílio dos filhos, tão cruéis quanto ele,
de membros de seu clã rural e, por fim, de um círculo externo
do poder, com a proteção de integrantes de sua tribo. Ele
centraliza todo esse sistema de terror, incentiva a tortura. Há
registros de que assistiu a sessões de martírio e guarda
vídeos de algumas. Seu regime é um dos mais brutais de que
se tem notícia. No entanto, o erro do governo Bush está
na promoção de uma guerra contra um homem mau. Guerras não
devem ser feitas por esse motivo, ainda mais quando a ONU tem representantes
vasculhando o Iraque à procura de armas químicas, biológicas
e traços de bombas atômicas. A atenção do mundo
está voltada para o Iraque, e não há chance de o
ditador fazer neste instante nenhum movimento agressivo contra seus vizinhos
ou contra alvos americanos ou ocidentais.
AFP
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A
FRANÇA DIZ NÃO
Chirac: o verdadeiro debate é sobre a falta de limites da
potência hegemônica
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Inicialmente, os Estados Unidos e seus poucos aliados, entre os quais
a Inglaterra, alegaram que uma guerra preventiva contra o Iraque se fazia
necessária para extirpar o risco de um ataque de Saddam contra
países do Ocidente ou de atentados terroristas realizados por fanáticos
islâmicos instrumentados por dinheiro e artefatos de destruição
em massa fornecidos por ele. Inspetores da ONU foram enviados ao Iraque,
que os recebeu de má vontade, mas permitiu que passassem a vasculhar
palácios, prédios públicos e porões em busca
de armas químicas, biológicas e instalações
para futura produção de bombas nucleares. Até agora,
meses depois de iniciadas essas buscas, eles nada encontraram. Não
significa que as armas não existam. Significa que a procura ainda
não terminou e não produziu um resultado que justifique
guerra imediata.
Os Estados Unidos querem naturalmente maior controle sobre os vastos campos
petrolíferos do Iraque, mas essa não é a razão
primordial ou mesmo um dos motivos relevantes para a invasão do
país. Há duas outras, talvez três. A primeira, de
ordem religiosa e moral, funda-se no ambiente da Casa Branca, alimentado
por uma visão fundamentalista, na qual impera o mais renitente
conservadorismo cristão, praticado e endossado pelo presidente
americano e por alguns de seus principais assessores. Em seus discursos,
Bush cita Deus como estando do lado americano nesta disputa terrena contra
os iraquianos. É claro que ocorre aos neoconservadores dos EUA
que os fanáticos islâmicos jogam bombas em recintos públicos
ou lançam jatos contra prédios em Nova York e Washington
por acreditar também que cumprem uma missão do bem (o ditame
radical islâmico) contra o mal (a suposta perversão do Ocidente).
Afinal, o terrorista Osama bin Laden, responsável pelos atentados
contra as torres do World Trade Center, em Nova York, e o Pentágono,
em Washington, é antes de tudo um pregador dos mandamentos mais
radicais do islamismo. Sua ação sanguinária decorre
de suas crenças religiosas e morais.
Mas, nesse ponto, entram as outras razões para a guerra contra
o Iraque. Bush, segundo declarou, pretende usar a invasão do país
para instalar ali um regime democrático que sirva de inspiração
de liberdade para outras nações da região. Sem contar
o fato de que é fácil para os EUA ganhar uma guerra contra
os iraquianos mas é difícil mudar o regime e manter em seu
lugar um governo democrático estável, há o risco
de produzir mais instabilidade ainda no Oriente Médio. O antiamericanismo
e o islamismo radical já são fenômenos plenamente
instalados naquela área. Um ataque ocidental ao país de
Saddam Hussein pode eventualmente despertar mais radicalismo nas populações
vizinhas, com risco especial para Israel, onde palestinos e judeus já
travam um combate sangrento que dificilmente se aplacaria depois de um
ataque americano a uma nação árabe. Por fim, uma
razão hipotética mas bastante provável para a guerra
está no desejo dos americanos de impor ao mundo sua mastodôntica
superioridade bélica e cultural. O império americano chegou
a um estágio em que não acredita mais na distribuição
do poder entre as nações conforme ele está organizado
na atualidade.
AP
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DRAMA
NA ONU
Conselho de Segurança: em busca de "vitória moral",
os Estados Unidos pressionavam países sem nenhuma relevância
e nem assim conseguiam os votos necessários
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A
ONU é uma criação decorrente da II Guerra Mundial
e resistiu enquanto o mundo era regido pelas divisões resultantes
desse conflito. Alemães e japoneses, que perderam a guerra, não
têm direito a veto no Conselho de Segurança da ONU, o órgão
encarregado de deliberar a respeito de conflitos armados entre países.
Russos, americanos, franceses e ingleses, no lado vencedor, são
membros permanentes do Conselho de Segurança. Essa organização
sobreviveu durante a Guerra Fria, em que americanos e soviéticos
viviam a um passo de destruir o mundo numa fogueira nuclear de proporções
bíblicas. A guerra de todas as guerras foi evitada, mas enfrentamentos
localizados se espalharam por toda parte envolvendo as duas superpotências
em conflitos armados no Vietnã, no Afeganistão, no Oriente
Médio e em países da África. O mundo não está
hoje nem de longe às vésperas de um risco tão grande
e visível quanto esteve na segunda metade do século XX.
A própria evolução do estado de equilíbrio
da Guerra Fria para o trincamento das alianças a que se assiste
agora entre os países ocidentais pró e contra a guerra imediata
ao Iraque é resultado da mudança dos perigos potenciais.
Na fase da Guerra Fria, o risco era absoluto, global, não permitia
dúvidas nem hesitações. Ou se estava no bloco ocidental
ou no bloco soviético e, nessa equação, o
mundo poderia virar cinzas com uma guerra nuclear total. Hoje, os EUA
são a única superpotência que restou, num sistema
de poder e de alianças que não retrata mais a situação
real do mundo como ele é agora.
AFP
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TIRANIA
AMEAÇADA
Militares
em Bagdá: o caráter hediondo do regime de Saddam não pode ser ignorado
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Na
semana passada, a ONU, que com todos os seus defeitos ainda parece ser
o instrumento por excelência para solucionar conflitos internacionais,
era dada como morta e enterrada. Ainda com esperança de ter a maioria
dos votos do Conselho de Segurança da ONU como escudo moral para
sua guerra, os EUA mendigavam o apoio de alguns dos mais assustados e
impotentes anões do Conselho, como Angola, Camarões ou Guiné.
Mais espantoso ainda, não estavam conseguindo dobrá-los.
Pior, o presidente francês Jacques Chirac virou uma espécie
de comandante mundial da posição antiguerra, prometendo
um veto ao ataque americano em quaisquer circunstâncias. Os alemães,
que integram o Conselho no sistema rotatório, também estão
contra Bush. A favor dele, contavam-se o apoio diplomático-militar
do governo inglês e a solidariedade moral de italianos, espanhóis
e portugueses. É compreensível que o mundo se debatesse,
na semana passada, num estado de alta ansiedade. Se os precedentes valerem,
muito disso estará esvaziado quando as bombas começarem
a explodir no céu de Bagdá. Uma vitória rápida
e uma população iraquiana mais satisfeita com a queda do
ditador que se vai do que hostil ao protetorado americano lançariam
no esquecimento os aspectos mais estridentes do debate travado durante
os seis meses transcorridos entre a promessa de guerra e sua execução.
Incapazes de arrancar um apoio confortável da ONU, contra a oposição
de aliados do porte da França e da Alemanha, e por cima da opinião
de milhões de pessoas em todo o mundo, os EUA se declararam prontos
a entrar em ação sem o respaldo da organização.
Bush poderia esperar uma conjuntura mais favorável para atacar.
Resolveu, ao contrário, ir até o fim, num exemplo do comportamento
prepotente e imperial que tantos países enxergam e denunciam nos
EUA. O debate internacional sobre a ameaça representada por Saddam
Hussein transformou-se numa discussão sobre a falta de limites
da hegemonia americana. Isso é ruim porque, em todo o mundo, inocentes
e maliciosos participam de uma pressão contra os EUA na qual se
tende implicitamente a dar como fato que o sanguinário Saddam Hussein
é apenas uma vítima quando na verdade ele é
um tirano perigoso. Se Saddam cair rápido e os iraquianos sofrerem
um mínimo aceitável nas circunstâncias, os americanos
desfrutarão um enorme trunfo político, mais saboroso ainda
pelo gosto de revanche, pelo ar de "viram só como estávamos
certos?". A parte do mundo que condenou a guerra os aplaudirá,
finalmente, ou ficará com mais raiva ainda?
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