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Edição 1 794 - 19 de março de 2003
Internacional Guerra

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Potência isolada

BUSH CONTRA TODOS
A cruzada do presidente americano: visão fundamentalista do mundo e prova da esmagadora supremacia dos Estados Unidos



Veja também
  Nesta edição
As armas dos EUA para fritar Saddam

Site especial:
EUA contra Iraque


Há várias razões certas para investir na derrubada da ditadura de Saddam Hussein, no Iraque. O presidente americano George W. Bush escolheu a errada: ele resolveu fazer uma guerra contra um país inteiro, o Iraque, sob o pretexto de que está conduzindo uma cruzada do bem contra o mal, da democracia contra a ditadura, de Deus contra Satã. Sem se constranger pela falta de apoio que está tendo na Organização das Nações Unidas para sua guerra santa nem pelo repúdio internacional à guerra, o presidente Bush apela para o incontrastável poderio bélico dos Estados Unidos, que pode varrer o Iraque do mapa em poucos dias, sob o pretexto de que estará realizando um trabalho em benefício da civilização contra a figura sanguinária de um homem, Saddam Hussein, e de seu círculo de asseclas instalados no poder há três décadas. Guerra é um assunto sério e, quando se mostram inevitáveis, as guerras precisam ser travadas. Nesta, pronta para ser
desfechada contra o Iraque, o governo Bush está movendo o Estado americano para o conflito armado que deixará vítimas e poderá ter reflexos dramáticos em toda a região do Oriente Médio. Esta guerra é pelo menos adiável – mas os caubóis do governo dos EUA resolveram tomar a iniciativa de partir para o duelo sangrento a qualquer custo. A natureza de uma democracia verdadeira é a de não ser jamais a parte agressora. Caso contrário, ela estaria descendo ao patamar do inimigo, o que de certa forma está acontecendo com os EUA.

Saddam Hussein não é apenas um ditador a mais no Oriente Médio, região do mundo que tem a extraordinária peculiaridade de não ostentar um único regime democrático, fora Israel. Saddam, além de presidir uma ditadura familiar e tribal que se mantém no poder à custa de tortura dos opositores, do assassinato e até mesmo do genocídio, é também psicopata e sádico. Segundo um levantamento, o regime de Saddam Hussein torturou e matou cerca de 200.000 iraquianos. Os porões de tortura no Iraque põem em prática métodos de extorsão de confissões que incluem açoite de crianças em frente às mães, corte de membros do corpo e encerramento dos opositores do regime em recipientes que lembram as gavetas para guardar mortos em necrotérios. Citam-se também estupros, feitos com o objetivo de desonrar as vítimas. Saddam assassinou os genros porque eles o traíram, arrependeram-se e acreditaram ter sido perdoados. Governa com o auxílio dos filhos, tão cruéis quanto ele, de membros de seu clã rural e, por fim, de um círculo externo do poder, com a proteção de integrantes de sua tribo. Ele centraliza todo esse sistema de terror, incentiva a tortura. Há registros de que assistiu a sessões de martírio e guarda vídeos de algumas. Seu regime é um dos mais brutais de que se tem notícia. No entanto, o erro do governo Bush está na promoção de uma guerra contra um homem mau. Guerras não devem ser feitas por esse motivo, ainda mais quando a ONU tem representantes vasculhando o Iraque à procura de armas químicas, biológicas e traços de bombas atômicas. A atenção do mundo está voltada para o Iraque, e não há chance de o ditador fazer neste instante nenhum movimento agressivo contra seus vizinhos – ou contra alvos americanos ou ocidentais.


AFP

A FRANÇA DIZ NÃO
Chirac: o verdadeiro debate é sobre a falta de limites da potência hegemônica


Inicialmente, os Estados Unidos e seus poucos aliados, entre os quais a Inglaterra, alegaram que uma guerra preventiva contra o Iraque se fazia necessária para extirpar o risco de um ataque de Saddam contra países do Ocidente ou de atentados terroristas realizados por fanáticos islâmicos instrumentados por dinheiro e artefatos de destruição em massa fornecidos por ele. Inspetores da ONU foram enviados ao Iraque, que os recebeu de má vontade, mas permitiu que passassem a vasculhar palácios, prédios públicos e porões em busca de armas químicas, biológicas e instalações para futura produção de bombas nucleares. Até agora, meses depois de iniciadas essas buscas, eles nada encontraram. Não significa que as armas não existam. Significa que a procura ainda não terminou e não produziu um resultado que justifique guerra imediata.

Os Estados Unidos querem naturalmente maior controle sobre os vastos campos petrolíferos do Iraque, mas essa não é a razão primordial ou mesmo um dos motivos relevantes para a invasão do país. Há duas outras, talvez três. A primeira, de ordem religiosa e moral, funda-se no ambiente da Casa Branca, alimentado por uma visão fundamentalista, na qual impera o mais renitente conservadorismo cristão, praticado e endossado pelo presidente americano e por alguns de seus principais assessores. Em seus discursos, Bush cita Deus como estando do lado americano nesta disputa terrena contra os iraquianos. É claro que ocorre aos neoconservadores dos EUA que os fanáticos islâmicos jogam bombas em recintos públicos ou lançam jatos contra prédios em Nova York e Washington por acreditar também que cumprem uma missão do bem (o ditame radical islâmico) contra o mal (a suposta perversão do Ocidente). Afinal, o terrorista Osama bin Laden, responsável pelos atentados contra as torres do World Trade Center, em Nova York, e o Pentágono, em Washington, é antes de tudo um pregador dos mandamentos mais radicais do islamismo. Sua ação sanguinária decorre de suas crenças religiosas e morais.

Mas, nesse ponto, entram as outras razões para a guerra contra o Iraque. Bush, segundo declarou, pretende usar a invasão do país para instalar ali um regime democrático que sirva de inspiração de liberdade para outras nações da região. Sem contar o fato de que é fácil para os EUA ganhar uma guerra contra os iraquianos mas é difícil mudar o regime e manter em seu lugar um governo democrático estável, há o risco de produzir mais instabilidade ainda no Oriente Médio. O antiamericanismo e o islamismo radical já são fenômenos plenamente instalados naquela área. Um ataque ocidental ao país de Saddam Hussein pode eventualmente despertar mais radicalismo nas populações vizinhas, com risco especial para Israel, onde palestinos e judeus já travam um combate sangrento que dificilmente se aplacaria depois de um ataque americano a uma nação árabe. Por fim, uma razão hipotética mas bastante provável para a guerra está no desejo dos americanos de impor ao mundo sua mastodôntica superioridade bélica e cultural. O império americano chegou a um estágio em que não acredita mais na distribuição do poder entre as nações conforme ele está organizado na atualidade.

 
AP

DRAMA NA ONU
Conselho de Segurança: em busca de "vitória moral", os Estados Unidos pressionavam países sem nenhuma relevância
– e nem assim conseguiam os votos necessários

A ONU é uma criação decorrente da II Guerra Mundial e resistiu enquanto o mundo era regido pelas divisões resultantes desse conflito. Alemães e japoneses, que perderam a guerra, não têm direito a veto no Conselho de Segurança da ONU, o órgão encarregado de deliberar a respeito de conflitos armados entre países. Russos, americanos, franceses e ingleses, no lado vencedor, são membros permanentes do Conselho de Segurança. Essa organização sobreviveu durante a Guerra Fria, em que americanos e soviéticos viviam a um passo de destruir o mundo numa fogueira nuclear de proporções bíblicas. A guerra de todas as guerras foi evitada, mas enfrentamentos localizados se espalharam por toda parte envolvendo as duas superpotências em conflitos armados no Vietnã, no Afeganistão, no Oriente Médio e em países da África. O mundo não está hoje nem de longe às vésperas de um risco tão grande e visível quanto esteve na segunda metade do século XX. A própria evolução do estado de equilíbrio da Guerra Fria para o trincamento das alianças a que se assiste agora entre os países ocidentais pró e contra a guerra imediata ao Iraque é resultado da mudança dos perigos potenciais. Na fase da Guerra Fria, o risco era absoluto, global, não permitia dúvidas nem hesitações. Ou se estava no bloco ocidental ou no bloco soviético – e, nessa equação, o mundo poderia virar cinzas com uma guerra nuclear total. Hoje, os EUA são a única superpotência que restou, num sistema de poder e de alianças que não retrata mais a situação real do mundo como ele é agora.

 
AFP

TIRANIA AMEAÇADA
Militares em Bagdá: o caráter hediondo do regime de Saddam não pode ser ignorado

Na semana passada, a ONU, que com todos os seus defeitos ainda parece ser o instrumento por excelência para solucionar conflitos internacionais, era dada como morta e enterrada. Ainda com esperança de ter a maioria dos votos do Conselho de Segurança da ONU como escudo moral para sua guerra, os EUA mendigavam o apoio de alguns dos mais assustados e impotentes anões do Conselho, como Angola, Camarões ou Guiné. Mais espantoso ainda, não estavam conseguindo dobrá-los. Pior, o presidente francês Jacques Chirac virou uma espécie de comandante mundial da posição antiguerra, prometendo um veto ao ataque americano em quaisquer circunstâncias. Os alemães, que integram o Conselho no sistema rotatório, também estão contra Bush. A favor dele, contavam-se o apoio diplomático-militar do governo inglês e a solidariedade moral de italianos, espanhóis e portugueses. É compreensível que o mundo se debatesse, na semana passada, num estado de alta ansiedade. Se os precedentes valerem, muito disso estará esvaziado quando as bombas começarem a explodir no céu de Bagdá. Uma vitória rápida e uma população iraquiana mais satisfeita com a queda do ditador que se vai do que hostil ao protetorado americano lançariam no esquecimento os aspectos mais estridentes do debate travado durante os seis meses transcorridos entre a promessa de guerra e sua execução. Incapazes de arrancar um apoio confortável da ONU, contra a oposição de aliados do porte da França e da Alemanha, e por cima da opinião de milhões de pessoas em todo o mundo, os EUA se declararam prontos a entrar em ação sem o respaldo da organização.

Bush poderia esperar uma conjuntura mais favorável para atacar. Resolveu, ao contrário, ir até o fim, num exemplo do comportamento prepotente e imperial que tantos países enxergam e denunciam nos EUA. O debate internacional sobre a ameaça representada por Saddam Hussein transformou-se numa discussão sobre a falta de limites da hegemonia americana. Isso é ruim porque, em todo o mundo, inocentes e maliciosos participam de uma pressão contra os EUA na qual se tende implicitamente a dar como fato que o sanguinário Saddam Hussein é apenas uma vítima – quando na verdade ele é um tirano perigoso. Se Saddam cair rápido e os iraquianos sofrerem um mínimo aceitável nas circunstâncias, os americanos desfrutarão um enorme trunfo político, mais saboroso ainda pelo gosto de revanche, pelo ar de "viram só como estávamos certos?". A parte do mundo que condenou a guerra os aplaudirá, finalmente, ou ficará com mais raiva ainda?

 
 
   
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