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Edição 1 794 - 19 de março de 2003
Entrevista: Fernando Henrique Cardoso

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Semanas decisivas

O ex-presidente diz que o desenlace
da crise do Iraque, seja qual for, terá
impacto profundo e duradouro no mundo

Eurípedes Alcântara

 
Alan Marques/Folha Imagem
"O momento atual não tem a dramaticidade de uma guerra nuclear, mas é decisivo para o futuro do mundo"


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Os Anos FHC

Nos seus dois meses de descanso em Paris, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, 71 anos, nadou muito em um clube com piscina coberta, andou de metrô, foi ao cinema e a todas as exposições de arte que ele e Ruth Cardoso tiveram fôlego para visitar. Leu muitos livros, entre eles a biografia do primeiro-ministro inglês Winston Churchill feita pelo lorde inglês Roy Jenkins. "Ler sempre é muito bom, mas o melhor foi poder andar nas ruas como um cidadão comum, sem batalhões de repórteres atrás nem esquemas de segurança", diz o ex-presidente. Ele planeja ficar pouco tempo no Brasil neste ano. Vai passar temporadas como professor visitante e palestrante na London School of Economics, na Inglaterra, na Brown University e na Biblioteca do Congresso, nos Estados Unidos. Além disso, trabalhará em três livros. O mais esperado é o seu diário, gravado em um aparelho portátil nos oito anos de governo. As fitas com dezenas de horas de gravação enchem diversas caixas em seu apartamento e já estão sendo transcritas. "Nelas faço mais observações e críticas sobre meus aliados do que sobre os adversários", conta o ex-presidente. FHC falou a VEJA em seu apartamento em São Paulo.

Veja – Como o senhor se sente vendo que a política econômica de seu governo, que seus adversários descreviam como neoliberal, está em pleno vigor agora?
FHC – O que chamavam de neoliberalismo nunca existiu. O mercado nunca definiu as regras de funcionamento da sociedade durante meus oito anos na Presidência. Longe disso. Os gastos sociais nunca foram tão altos quanto no meu governo. Como proporção do PIB, os gastos sociais passaram de 11% a 14%. O que nós fizemos foi justamente o contrário do proposto pelo que se costumou chamar de neoliberalismo. O que fizemos foi recompor o Estado, que tentamos fazer mais ágil e mais apto a responder aos desafios do mundo atual. O que se está vendo no governo Lula também não é neoliberalismo. É apenas a prova de que a margem financeira de manobra no mundo atual é muito pequena para os governantes. Qual o presidente que fica feliz em aumentar a taxa de juros? Nem os banqueiros vêem isso com satisfação, porque quando os juros sobem isso provoca inadimplência e todos perdem. Subir juros é uma coisa que o governo faz apenas quando é obrigado.

Veja – O senhor não se sentiu constrangido por não ter tido uma idéia tão sonora do ponto de vista da propaganda quanto o Fome Zero?
FHC – Essa idéia é antiga. É do tempo do Betinho (sociólogo Herbert de Souza, morto em 1997) e foi de certa forma implantada no governo Itamar Franco através do Conselho de Segurança Alimentar. Nós acabamos com esse conselho, não porque ele não tivesse bons propósitos, mas porque era ineficaz. Distribuir alimento requer uma logística cara que tende à ineficiência. É complexo estocar e distribuir alimentos sem desperdícios. Aí alguém sugere usar as Forças Armadas, mas, quando se fazem as contas, sai mais caro ainda. Por isso demos ênfase, no meu governo, à redistribuição da renda, a repassar dinheiro para os mais pobres de modo que eles pudessem comprar alimentos em sua própria região.

Veja – Que resultado deu?
FHC – O conjunto dos programas que chamei de Rede de Proteção Social redistribui em forma de dinheiro tudo o que o governo federal recebe do imposto de renda da pessoa física e jurídica. São cerca de 27 bilhões de reais por ano. Isso tudo era transferido, e por enquanto ainda está sendo, por programas como o Bolsa-Escola, o Bolsa-Alimentação, o Bolsa-Renda, a aposentadoria rural e o programa de salário dos idosos. São transferências diretas de renda, sem armazéns, sem transporte, sem desperdício. Tudo feito mecanicamente pela Caixa Econômica Federal, sem interferência política nem intermediação de partido.

Veja – Mas e o resultado?
FHC – Para melhorar significativamente a vida da população é preciso trabalhar por dez, quinze anos. São necessários ainda crescimento econômico e aumento da produtividade por muitos anos seguidos. Não se tem resultado nessa área da noite para o dia. O Brasil não tem fome no sentido africano ou mesmo asiático. Temos subnutrição. E a subnutrição se combate atendendo primeiro a mãe. Tem de haver programas continuados. Isso não se faz com ruptura. O mundo contemporâneo funciona por acumulação gradativa. Ruptura não soma. As coisas não funcionam por vontade pessoal, por força de um gesto, uma palavra ou um slogan.

Veja – A globalização funcionou para o Brasil como o senhor esperava?
FHC – Um lado é claramente negativo. A parte financeira mundial ficou muito ágil e poderosa. Acho que o FMI e o Banco Mundial não cresceram na proporção necessária para regular as relações financeiras entre os países. O poder dessas instituições é pequeno para os desafios que se propõem a enfrentar. A palavra de ordem não é abaixo o FMI, mas mudar o FMI, dar-lhe mais força para conter as crises. A carteira de empréstimos do Banco Mundial é igual à do BNDES. Essas instituições têm de dar liquidez e solvibilidade aos títulos dos países em dificuldade. Isso acabaria com as crises. Mas, sinceramente, acho que estamos a 100 anos disso.

Veja – O senhor não teme ser mal interpretado ao dizer que está pronto a ajudar o governo, como fez logo após retornar ao Brasil, na semana passada?
FHC – Não disse ajudar o governo. Disse ajudar o Estado, atuar em nome do Estado, como faz o ex-presidente Jimmy Carter pelos Estados Unidos. Agora, não serei mais candidato a nada.

Veja – Talvez só a presidente da República?
FHC – Não. Nada. Isso não está no meu horizonte. Uma pessoa na minha posição, que foi eleita duas vezes, governou oito anos, não pode entrar na briga de estilingue da política, não deve ficar se oferecendo de enxerido para nada. Se, no entanto, o Estado acha que há uma tarefa para alguém com minha experiência, devo estar pronto para ajudar.

Veja – Que recomendação o senhor faria a seu partido, o PSDB?
FHC – Acho que é hora de reflexão. Reunir dez, doze cabeças, analisar o Brasil e produzir uma concepção nova de sociedade, de futuro para o país. Obviamente, isso não pode ser fabricado intelectualmente. Tem de ser uma experiência e tem de ser fruto do que está acontecendo aqui. Tem de dar tempo ao tempo. Agora, neste momento, não devemos estar falando nada, nem sobre o governo do Lula. Ele está apenas começando. É cedo para ficar criticando. O Lula foi muito amistoso comigo e tem sido correto. Acho isso bom. Eu também fui com ele. A transição que foi feita do meu governo para o dele teve lá fora uma repercussão extraordinária. Mostrou que o Brasil é democrático. Acho que dei minha contribuição para isso.

Veja – O que significa para o mundo uma invasão americana ao Iraque sem o aval da ONU?
FHC – Uma conseqüência é que os americanos se arriscam a ficar parecidos com os inimigos que eles querem combater. O problema é que quando se fica na discussão do bem e do mal alguém tem de se outorgar o poder de dizer qual é um e qual é o outro. Nesse plano, não existe direito positivo. Isso é um retrocesso. Se os americanos atropelarem a ONU em nome do bem, a invasão do Iraque resultará em prejuízo para o mundo. Com essa guerra, os americanos estarão usando o conceito do bem e do mal apenas como legitimação para o uso da força.

Veja – Qual será o peso da opinião pública contrária à guerra?
FHC – No grau com que se manifestou nesse caso, a opinião pública é um elemento novo. A questão principal é até que ponto ela terá força para pôr freio nas ações dos governos. Em havendo força suficiente vinda das multidões, outra questão vital se coloca: quem assegurará a ordem daqui para a frente? As ruas não podem ter a palavra final. Se Saddam Hussein ganhar a guerra da propaganda e a opinião pública conseguir barrar uma ação americana, o problema tende a ser ainda maior, pois as multidões não podem substituir a regra positiva, o direito. A discussão, portanto, é saber se, para barrar Saddam, não se está ao mesmo tempo arrebentando o mundo.

Veja – Mas o Conselho de Segurança da ONU parece não estar preparado para resolver a crise atual.
FHC – É melhor existir o Conselho de Segurança do que não existir. É preciso regulação. Até a eclosão da crise atual, o mundo vinha aprimorando esses mecanismos de arbitramento das relações entre os povos. Estávamos produzindo regras universais com o surgimento da União Européia, do Mercosul, de organizações regionais novas na história da civilização. Seria bom preservar esses avanços. Não podem sobrar apenas Estados Unidos e China como poderes bipolares no mundo. Portanto, penso que tem muita coisa em jogo agora. O momento atual não tem a dramaticidade de uma guerra nuclear, mas esta e as próximas semanas são decisivas para o futuro do mundo.

Veja – Se o senhor estivesse na Presidência, qual seria a posição brasileira na ONU no momento atual?
FHC – O Brasil não apoiaria nenhuma decisão que passasse por cima do Conselho de Segurança.

Veja – Os americanos costumam pressionar muito quando querem alguma coisa?
FHC – Eles fazem pressões, mas conosco nunca fizeram. Em primeiro lugar, durante quase todo o meu governo, Bill Clinton estava em Washington. Depois, a posição multilateral do Brasil é antiga e respeitada. O Brasil é reconhecido na diplomacia mundial como um país facilitador. O Brasil nunca quis ser protagonista mundial, e isso foi uma atitude correta. Não podemos ser protagonistas se não temos o cabedal para isso.

Veja – Mas, agora, o Brasil parece estar querendo ser protagonista de questões mundiais. O que o senhor acha disso?
FHC – Não sei o que vai acontecer. Nossa posição sempre foi manter boa relação com os vizinhos, evitando parecer que somos contra os Estados Unidos. Quando os americanos percebem que um país é contra, eles atrapalham sua ação. Nosso interesse não deve ser disputar com os Estados Unidos. Nem a China entra na briga mundial como fazem a França e a Inglaterra, por exemplo. A China sabe que só vai poder entrar nessa queda-de-braço daqui a trinta anos. Não entrar na briga não significa abrir mão de princípios. Mas não acho que seja do interesse nacional nos arriscarmos além do que podemos. Não nos serve ir para o cenário internacional cheios de vontades e verdades, mas sem o poder de fazer. O presidente francês, Jacques Chirac, pode chegar lá e dizer: "Eu veto". Nós não temos esse poder. Isso dá uma confusão danada. Mas acho que o Brasil está certo no que vem fazendo. Somos contra quebrar as regras do Conselho de Segurança da ONU e defendemos a paz até onde for possível.

Veja – Não seria mais realista aceitar o fato de que é preciso contrariar os poderosos, mesmo que sejam os Estados Unidos, para defender os interesses nacionais?
FHC – Ter uma atitude permanente de hostilidade aos Estados Unidos é um erro. Se tivermos de ser contra em determinadas questões, então que sejamos contra. Mas cultivar a imagem de um país antiamericano é uma bobagem. Temos de lutar pelo mercado do aço e lutar pelo suco de laranja. Mas não devemos nunca transformar conflito comercial em conflito entre nações. Nunca brigamos tanto com os países ricos por questões comerciais quanto no meu governo. Mas nunca fiz nem permiti que se fizesse bazófia. Espero que o governo brasileiro não se afaste dessa visão. Não devemos abusar de palavras quando não podemos dar conseqüências práticas a elas, caso contrário você paga o preço e não tem as vantagens decorrentes de sua tomada de posição. Os Estados não podem ser marionetes de impulsos retóricos dos governantes. Na América Latina sempre apoiei as relações concretas com nossos vizinhos. Fomos construindo essa relação verdadeira durante meu governo. Compramos gás da Bolívia e eletricidade da Argentina. Ajudamos economicamente a Venezuela, do presidente Hugo Chávez, e até financiamos o metrô de Caracas. Foi assim que a União Européia ficou forte, com esse tipo de relacionamento. A bússola é o interesse nacional. Temos de procurar tipos de relações que nos ajudem a crescer, ser respeitados e ter nossos princípios admirados.

Veja – Com relação às Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), agora que o diálogo entre elas e o governo colombiano foi encerrado, qual seria a atitude do senhor?
FHC – Temos de ser contra as Farc. Elas são um perigo real para nós. O terrorismo é assunto sério. Não é coisa americana. Se as Farc estão fazendo terrorismo, elas têm de ser tratadas como terroristas. Somos democratas ou não somos? Essa é a questão. Não podemos cometer o erro de ficar em cima do muro nessa questão. Durante o meu governo, o Hugo Chávez agiu na Venezuela demonstrando respeito às instituições. Ele fez as mudanças referendando-as por meio de plebiscitos. Agora ele mudou seu modo de ação. Acho que o Brasil tem o dever de não deixar o Chávez desgarrar para o absolutismo e para o isolamento.

 
 
   
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