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Semanas
decisivas
O ex-presidente diz que
o desenlace
da crise do Iraque, seja qual for, terá
impacto profundo e duradouro no mundo
Eurípedes
Alcântara
Alan Marques/Folha Imagem
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"O
momento atual não tem
a dramaticidade de uma guerra nuclear, mas é
decisivo para o futuro do mundo"
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Veja também |
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Nos
seus dois meses de descanso em Paris, o ex-presidente Fernando Henrique
Cardoso, 71 anos, nadou muito em um clube com piscina coberta, andou de
metrô, foi ao cinema e a todas as exposições de arte
que ele e Ruth Cardoso tiveram fôlego para visitar. Leu muitos livros,
entre eles a biografia do primeiro-ministro inglês Winston Churchill
feita pelo lorde inglês Roy Jenkins. "Ler sempre é muito
bom, mas o melhor foi poder andar nas ruas como um cidadão comum,
sem batalhões de repórteres atrás nem esquemas de
segurança", diz o ex-presidente. Ele planeja ficar pouco tempo
no Brasil neste ano. Vai passar temporadas como professor visitante e
palestrante na London School of Economics, na Inglaterra, na Brown University
e na Biblioteca do Congresso, nos Estados Unidos. Além disso, trabalhará
em três livros. O mais esperado é o seu diário, gravado
em um aparelho portátil nos oito anos de governo. As fitas com
dezenas de horas de gravação enchem diversas caixas em seu
apartamento e já estão sendo transcritas. "Nelas faço
mais observações e críticas sobre meus aliados do
que sobre os adversários", conta o ex-presidente. FHC falou a VEJA
em seu apartamento em São Paulo.
Veja
Como o senhor se sente vendo que a política econômica
de seu governo, que seus adversários descreviam como neoliberal,
está em pleno vigor agora?
FHC O
que chamavam de neoliberalismo nunca existiu. O mercado nunca definiu
as regras de funcionamento da sociedade durante meus oito anos na Presidência.
Longe disso. Os gastos sociais nunca foram tão altos quanto no
meu governo. Como proporção do PIB, os gastos sociais passaram
de 11% a 14%. O que nós fizemos foi justamente o contrário
do proposto pelo que se costumou chamar de neoliberalismo. O que fizemos
foi recompor o Estado, que tentamos fazer mais ágil e mais apto
a responder aos desafios do mundo atual. O que se está vendo no
governo Lula também não é neoliberalismo. É
apenas a prova de que a margem financeira de manobra no mundo atual é
muito pequena para os governantes. Qual o presidente que fica feliz em
aumentar a taxa de juros? Nem os banqueiros vêem isso com satisfação,
porque quando os juros sobem isso provoca inadimplência e todos
perdem. Subir juros é uma coisa que o governo faz apenas quando
é obrigado.
Veja
O senhor não se sentiu constrangido por não ter
tido uma idéia tão sonora do ponto de vista da propaganda
quanto o Fome Zero?
FHC Essa
idéia é antiga. É do tempo do Betinho (sociólogo
Herbert de Souza, morto em 1997) e foi de certa forma implantada no
governo Itamar Franco através do Conselho de Segurança Alimentar.
Nós acabamos com esse conselho, não porque ele não
tivesse bons propósitos, mas porque era ineficaz. Distribuir alimento
requer uma logística cara que tende à ineficiência.
É complexo estocar e distribuir alimentos sem desperdícios.
Aí alguém sugere usar as Forças Armadas, mas, quando
se fazem as contas, sai mais caro ainda. Por isso demos ênfase,
no meu governo, à redistribuição da renda, a repassar
dinheiro para os mais pobres de modo que eles pudessem comprar alimentos
em sua própria região.
Veja
Que resultado deu?
FHC
O conjunto dos programas que chamei de Rede de Proteção
Social redistribui em forma de dinheiro tudo o que o governo federal recebe
do imposto de renda da pessoa física e jurídica. São
cerca de 27 bilhões de reais por ano. Isso tudo era transferido,
e por enquanto ainda está sendo, por programas como o Bolsa-Escola,
o Bolsa-Alimentação, o Bolsa-Renda, a aposentadoria rural
e o programa de salário dos idosos. São transferências
diretas de renda, sem armazéns, sem transporte, sem desperdício.
Tudo feito mecanicamente pela Caixa Econômica Federal, sem interferência
política nem intermediação de partido.
Veja Mas e o resultado?
FHC
Para
melhorar significativamente a vida da população é
preciso trabalhar por dez, quinze anos. São necessários
ainda crescimento econômico e aumento da produtividade por muitos
anos seguidos. Não se tem resultado nessa área da noite
para o dia. O Brasil não tem fome no sentido africano ou mesmo
asiático. Temos subnutrição. E a subnutrição
se combate atendendo primeiro a mãe. Tem de haver programas continuados.
Isso não se faz com ruptura. O mundo contemporâneo funciona
por acumulação gradativa. Ruptura não soma. As coisas
não funcionam por vontade pessoal, por força de um gesto,
uma palavra ou um slogan.
Veja A globalização funcionou para o Brasil
como o senhor esperava?
FHC
Um lado é claramente negativo. A parte financeira mundial ficou
muito ágil e poderosa. Acho que o FMI e o Banco Mundial não
cresceram na proporção necessária para regular as
relações financeiras entre os países. O poder dessas
instituições é pequeno para os desafios que se propõem
a enfrentar. A palavra de ordem não é abaixo o FMI, mas
mudar o FMI, dar-lhe mais força para conter as crises. A carteira
de empréstimos do Banco Mundial é igual à do BNDES.
Essas instituições têm de dar liquidez e solvibilidade
aos títulos dos países em dificuldade. Isso acabaria com
as crises. Mas, sinceramente, acho que estamos a 100 anos disso.
Veja
O senhor não teme ser mal interpretado ao dizer que está
pronto a ajudar o governo, como fez logo após retornar ao Brasil,
na semana passada?
FHC
Não disse ajudar o governo. Disse ajudar o Estado, atuar em nome
do Estado, como faz o ex-presidente Jimmy Carter pelos Estados Unidos.
Agora, não serei mais candidato a nada.
Veja
Talvez só a presidente da República?
FHC
Não.
Nada. Isso não está no meu horizonte. Uma pessoa na minha
posição, que foi eleita duas vezes, governou oito anos,
não pode entrar na briga de estilingue da política, não
deve ficar se oferecendo de enxerido para nada. Se, no entanto, o Estado
acha que há uma tarefa para alguém com minha experiência,
devo estar pronto para ajudar.
Veja Que recomendação o senhor faria a seu
partido, o PSDB?
FHC
Acho
que é hora de reflexão. Reunir dez, doze cabeças,
analisar o Brasil e produzir uma concepção nova de sociedade,
de futuro para o país. Obviamente, isso não pode ser fabricado
intelectualmente. Tem de ser uma experiência e tem de ser fruto
do que está acontecendo aqui. Tem de dar tempo ao tempo. Agora,
neste momento, não devemos estar falando nada, nem sobre o governo
do Lula. Ele está apenas começando. É cedo para ficar
criticando. O Lula foi muito amistoso comigo e tem sido correto. Acho
isso bom. Eu também fui com ele. A transição que
foi feita do meu governo para o dele teve lá fora uma repercussão
extraordinária. Mostrou que o Brasil é democrático.
Acho que dei minha contribuição para isso.
Veja
O que significa para o mundo uma invasão americana ao
Iraque sem o aval da ONU?
FHC
Uma conseqüência é que os americanos se arriscam a ficar
parecidos com os inimigos que eles querem combater. O problema é
que quando se fica na discussão do bem e do mal alguém tem
de se outorgar o poder de dizer qual é um e qual é o outro.
Nesse plano, não existe direito positivo. Isso é um retrocesso.
Se os americanos atropelarem a ONU em nome do bem, a invasão do
Iraque resultará em prejuízo para o mundo. Com essa guerra,
os americanos estarão usando o conceito do bem e do mal apenas
como legitimação para o uso da força.
Veja
Qual será o peso da opinião pública contrária
à guerra?
FHC
No grau com que se manifestou nesse caso, a opinião pública
é um elemento novo. A questão principal é até
que ponto ela terá força para pôr freio nas ações
dos governos. Em havendo força suficiente vinda das multidões,
outra questão vital se coloca: quem assegurará a ordem daqui
para a frente? As ruas não podem ter a palavra final. Se Saddam
Hussein ganhar a guerra da propaganda e a opinião pública
conseguir barrar uma ação americana, o problema tende a
ser ainda maior, pois as multidões não podem substituir
a regra positiva, o direito. A discussão, portanto, é saber
se, para barrar Saddam, não se está ao mesmo tempo arrebentando
o mundo.
Veja
Mas o Conselho de Segurança da ONU parece não
estar preparado para resolver a crise atual.
FHC
É melhor existir o Conselho de Segurança do que não
existir. É preciso regulação. Até a eclosão
da crise atual, o mundo vinha aprimorando esses mecanismos de arbitramento
das relações entre os povos. Estávamos produzindo
regras universais com o surgimento da União Européia, do
Mercosul, de organizações regionais novas na história
da civilização. Seria bom preservar esses avanços.
Não podem sobrar apenas Estados Unidos e China como poderes bipolares
no mundo. Portanto, penso que tem muita coisa em jogo agora. O momento
atual não tem a dramaticidade de uma guerra nuclear, mas esta e
as próximas semanas são decisivas para o futuro do mundo.
Veja Se o senhor estivesse na Presidência, qual seria
a posição brasileira na ONU no momento atual?
FHC
O
Brasil não apoiaria nenhuma decisão que passasse por cima
do Conselho de Segurança.
Veja
Os americanos costumam pressionar muito quando querem alguma
coisa?
FHC
Eles fazem pressões, mas conosco nunca fizeram. Em primeiro lugar,
durante quase todo o meu governo, Bill Clinton estava em Washington. Depois,
a posição multilateral do Brasil é antiga e respeitada.
O Brasil é reconhecido na diplomacia mundial como um país
facilitador. O Brasil nunca quis ser protagonista mundial, e isso foi
uma atitude correta. Não podemos ser protagonistas se não
temos o cabedal para isso.
Veja
Mas, agora, o Brasil parece estar querendo ser protagonista
de questões mundiais. O que o senhor acha disso?
FHC
Não sei o que vai acontecer. Nossa posição sempre
foi manter boa relação com os vizinhos, evitando parecer
que somos contra os Estados Unidos. Quando os americanos percebem que
um país é contra, eles atrapalham sua ação.
Nosso interesse não deve ser disputar com os Estados Unidos. Nem
a China entra na briga mundial como fazem a França e a Inglaterra,
por exemplo. A China sabe que só vai poder entrar nessa queda-de-braço
daqui a trinta anos. Não entrar na briga não significa abrir
mão de princípios. Mas não acho que seja do interesse
nacional nos arriscarmos além do que podemos. Não nos serve
ir para o cenário internacional cheios de vontades e verdades,
mas sem o poder de fazer. O presidente francês, Jacques Chirac,
pode chegar lá e dizer: "Eu veto". Nós não temos
esse poder. Isso dá uma confusão danada. Mas acho que o
Brasil está certo no que vem fazendo. Somos contra quebrar as regras
do Conselho de Segurança da ONU e defendemos a paz até onde
for possível.
Veja
Não seria mais realista aceitar o fato de que é
preciso contrariar os poderosos, mesmo que sejam os Estados Unidos, para
defender os interesses nacionais?
FHC
Ter uma atitude permanente de hostilidade aos Estados Unidos é
um erro. Se tivermos de ser contra em determinadas questões, então
que sejamos contra. Mas cultivar a imagem de um país antiamericano
é uma bobagem. Temos de lutar pelo mercado do aço e lutar
pelo suco de laranja. Mas não devemos nunca transformar conflito
comercial em conflito entre nações. Nunca brigamos tanto
com os países ricos por questões comerciais quanto no meu
governo. Mas nunca fiz nem permiti que se fizesse bazófia. Espero
que o governo brasileiro não se afaste dessa visão. Não
devemos abusar de palavras quando não podemos dar conseqüências
práticas a elas, caso contrário você paga o preço
e não tem as vantagens decorrentes de sua tomada de posição.
Os Estados não podem ser marionetes de impulsos retóricos
dos governantes. Na América Latina sempre apoiei as relações
concretas com nossos vizinhos. Fomos construindo essa relação
verdadeira durante meu governo. Compramos gás da Bolívia
e eletricidade da Argentina. Ajudamos economicamente a Venezuela, do presidente
Hugo Chávez, e até financiamos o metrô de Caracas.
Foi assim que a União Européia ficou forte, com esse tipo
de relacionamento. A bússola é o interesse nacional. Temos
de procurar tipos de relações que nos ajudem a crescer,
ser respeitados e ter nossos princípios admirados.
Veja
Com relação às Farc (Forças Armadas
Revolucionárias da Colômbia), agora que o diálogo
entre elas e o governo colombiano foi encerrado, qual seria a atitude
do senhor?
FHC
Temos de ser contra as Farc. Elas são um perigo real para nós.
O terrorismo é assunto sério. Não é coisa
americana. Se as Farc estão fazendo terrorismo, elas têm
de ser tratadas como terroristas. Somos democratas ou não somos?
Essa é a questão. Não podemos cometer o erro de ficar
em cima do muro nessa questão. Durante o meu governo, o Hugo Chávez
agiu na Venezuela demonstrando respeito às instituições.
Ele fez as mudanças referendando-as por meio de plebiscitos. Agora
ele mudou seu modo de ação. Acho que o Brasil tem o dever
de não deixar o Chávez desgarrar para o absolutismo e para
o isolamento.
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