
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
Roberto
Pompeu de Toledo
Do
revólver fumegante à
boca na botija
Uma
investida
nas manias e
compulsões
dos
povos, segundo
suas
expressões
idiomáticas
"Smoking
gun", literalmente "revólver fumegante", em inglês, é
o revólver que acaba de ser usado. Foi acionado há tão
pouco que seus mecanismos não tiveram tempo de entrar em descanso,
e a fumaça ainda escapa do cano. Achar o "revólver fumegante",
ou surpreender alguém com o revólver fumegante, é
uma expressão que, nos Estados Unidos, significa pegar alguém
em flagrante. A metáfora é apropriada. Nada mais incriminador
do que encontrar o revólver ainda soltando fumaça na mão
do assassino, a vítima estatelada ao lado, o cenário a revelar
a vítima, o autor e o instrumento do crime com clareza solar.
Nestes dias, a propósito das inspeções realizadas
por agentes da ONU nos arsenais militares do Iraque e das tentativas dos
Estados Unidos de incriminar o regime de Saddam Hussein como portador
de armas de destruição de armas, tem-se falado muito em
"smoking gun". Especulou-se, às vésperas da apresentação
do secretário de Estado Colin Powell perante o Conselho de Segurança
da ONU, no começo do mês, que ele finalmente apresentaria
o revólver fumegante a prova cabal de que o Iraque possui
as armas proibidas. Para conter expectativas exageradas, na mesma ocasião,
a Casa Branca avançou a versão de que neste caso não
se precisa chegar ao revólver fumegante os indícios
já seriam suficientes para dispensar o flagrante, tal qual o marido
que, já tendo a carta do amante, o retrato esquecido na gaveta
e a conta telefônica com as ligações para a casa dele,
dispensasse flagrar a mulher no sofá para ter certeza do adultério.
A expressão "smoking gun" tem se mostrado presença tão
assídua, em diversas bocas, na atual crise, quanto os advérbios
de modo. O próprio chefe da comissão de inspetores uma vez
recorreu a ela disse que "revólver fumegante" ainda não
fora encontrado no Iraque.
Na verdade, revólver em puro estado de fumegar, nesta história
toda, até agora, só houve um: o flagrante de plágio
em que foi apanhado o primeiro-ministro britânico Tony Blair. O
relatório em que ele juntava supostas provas contra Saddam Hussein,
por sinal elogiado por Colin Powell, na apresentação perante
o Conselho de Segurança, revelou-se copiado em sua maior parte
de um trabalho acadêmico e um trabalho de doze anos atrás,
sem pé na realidade atual do Iraque. Foi um vexame a mais para
o pobre Blair, rebaixado ultimamente de dinâmico renovador da política
inglesa e apóstolo da "terceira via" à condição
de, como diz a imprensa inglesa, cachorrinho poodle do presidente W. Bush.
Não é isso, no entanto, que aqui nos interessa. Não
é a questão de fundo, mas o revólver fumegante em
si. Quer dizer: a própria expressão. Ela é usada
não só em casos de guerra ou de crimes de sangue. No caso
Watergate, no qual não havia violência física, a expressão
também foi fartamente utilizada. E assim também nas numerosas
vezes em que, nos oito anos da era Clinton, se tentou envolver o presidente
em algum escândalo. Não é mais do que dizer o óbvio
lembrar que a imagem casa bem com um país de cowboys. Ou um país
em que comprar uma arma é quase mais fácil que comprar antibióticos
afinal, antibióticos precisam de receita. O revólver
é algo tão presente quanto a Bíblia, na formação
americana, daí não causar espanto que esteja em todas as
bocas. Também não espanta que seja tão invocado num
país que não consegue ficar sossegado, precisa sempre arrumar
um inimigo e, como um viciado, sofre crise de abstinência se não
se engaja de tempos em tempos numa guerra.
No Brasil não se usa a expressão revólver fumegante.
Não é corrente, nem fica bem, em português, em matéria
de sonoridade. Nosso equivalente seria... Procuremos. Ah, sim, há
uma expressão, em nossa língua, que tem o exato significado
do "smoking gun" do inglês: apanhar alguém "com a boca na
botija". Pronto, diriam os mais apressados. Estamos vingados. Enquanto
eles revelam a propensão para as soluções violentas,
na escolha de uma expressão que evoca sangue, nós, para
dizer a mesma coisa, adotamos uma pacífica imagem de cozinha.
Não. Não sejamos tão condescendentes conosco mesmos,
nem patriotas pelas razões erradas. Admitamos humildemente que
talvez não sejamos menos violentos. Apenas, a violência,
por aqui, assume outras formas. De mais a mais, se as expressões
idiomáticas revelam as características de um povo, a "boca
na botija" diz algo não muito lisonjeiro do povo brasileiro. Quem
é apanhado com a boca na botija é porque está roubando
comida de outrem. E se está roubando comida é porque está
com fome. A expressão inscreve-se na tradição dos
contos, ditos e anedotas populares que enfatizam a malandragem dos fracos
contra os fortes, na luta da sobrevivência. É uma tradição
comum aos ambientes de penúria e de desigualdade.
Que fazer com essa conclusão? À falta de outra utilidade,
vá lá, ela fica como oferta ao governo Lula. O pessoal do
revólver fumegante que vá fazer sua guerrinha, já
que eles não se agüentam mesmo. O pessoal da boca na botija
precisa é de fome zero.
|
|
 |