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Edição 1 790 - 19 de fevereiro de 2003
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Roberto Pompeu de Toledo

Do revólver fumegante à boca na botija

Uma investida nas manias e
compulsões dos povos, segundo
suas expressões idiomáticas

"Smoking gun", literalmente "revólver fumegante", em inglês, é o revólver que acaba de ser usado. Foi acionado há tão pouco que seus mecanismos não tiveram tempo de entrar em descanso, e a fumaça ainda escapa do cano. Achar o "revólver fumegante", ou surpreender alguém com o revólver fumegante, é uma expressão que, nos Estados Unidos, significa pegar alguém em flagrante. A metáfora é apropriada. Nada mais incriminador do que encontrar o revólver ainda soltando fumaça na mão do assassino, a vítima estatelada ao lado, o cenário a revelar a vítima, o autor e o instrumento do crime com clareza solar.

Nestes dias, a propósito das inspeções realizadas por agentes da ONU nos arsenais militares do Iraque e das tentativas dos Estados Unidos de incriminar o regime de Saddam Hussein como portador de armas de destruição de armas, tem-se falado muito em "smoking gun". Especulou-se, às vésperas da apresentação do secretário de Estado Colin Powell perante o Conselho de Segurança da ONU, no começo do mês, que ele finalmente apresentaria o revólver fumegante – a prova cabal de que o Iraque possui as armas proibidas. Para conter expectativas exageradas, na mesma ocasião, a Casa Branca avançou a versão de que neste caso não se precisa chegar ao revólver fumegante – os indícios já seriam suficientes para dispensar o flagrante, tal qual o marido que, já tendo a carta do amante, o retrato esquecido na gaveta e a conta telefônica com as ligações para a casa dele, dispensasse flagrar a mulher no sofá para ter certeza do adultério. A expressão "smoking gun" tem se mostrado presença tão assídua, em diversas bocas, na atual crise, quanto os advérbios de modo. O próprio chefe da comissão de inspetores uma vez recorreu a ela – disse que "revólver fumegante" ainda não fora encontrado no Iraque.

Na verdade, revólver em puro estado de fumegar, nesta história toda, até agora, só houve um: o flagrante de plágio em que foi apanhado o primeiro-ministro britânico Tony Blair. O relatório em que ele juntava supostas provas contra Saddam Hussein, por sinal elogiado por Colin Powell, na apresentação perante o Conselho de Segurança, revelou-se copiado em sua maior parte de um trabalho acadêmico – e um trabalho de doze anos atrás, sem pé na realidade atual do Iraque. Foi um vexame a mais para o pobre Blair, rebaixado ultimamente de dinâmico renovador da política inglesa e apóstolo da "terceira via" à condição de, como diz a imprensa inglesa, cachorrinho poodle do presidente W. Bush.

Não é isso, no entanto, que aqui nos interessa. Não é a questão de fundo, mas o revólver fumegante em si. Quer dizer: a própria expressão. Ela é usada não só em casos de guerra ou de crimes de sangue. No caso Watergate, no qual não havia violência física, a expressão também foi fartamente utilizada. E assim também nas numerosas vezes em que, nos oito anos da era Clinton, se tentou envolver o presidente em algum escândalo. Não é mais do que dizer o óbvio lembrar que a imagem casa bem com um país de cowboys. Ou um país em que comprar uma arma é quase mais fácil que comprar antibióticos – afinal, antibióticos precisam de receita. O revólver é algo tão presente quanto a Bíblia, na formação americana, daí não causar espanto que esteja em todas as bocas. Também não espanta que seja tão invocado num país que não consegue ficar sossegado, precisa sempre arrumar um inimigo e, como um viciado, sofre crise de abstinência se não se engaja de tempos em tempos numa guerra.

No Brasil não se usa a expressão revólver fumegante. Não é corrente, nem fica bem, em português, em matéria de sonoridade. Nosso equivalente seria... Procuremos. Ah, sim, há uma expressão, em nossa língua, que tem o exato significado do "smoking gun" do inglês: apanhar alguém "com a boca na botija". Pronto, diriam os mais apressados. Estamos vingados. Enquanto eles revelam a propensão para as soluções violentas, na escolha de uma expressão que evoca sangue, nós, para dizer a mesma coisa, adotamos uma pacífica imagem de cozinha.

Não. Não sejamos tão condescendentes conosco mesmos, nem patriotas pelas razões erradas. Admitamos humildemente que talvez não sejamos menos violentos. Apenas, a violência, por aqui, assume outras formas. De mais a mais, se as expressões idiomáticas revelam as características de um povo, a "boca na botija" diz algo não muito lisonjeiro do povo brasileiro. Quem é apanhado com a boca na botija é porque está roubando comida de outrem. E se está roubando comida é porque está com fome. A expressão inscreve-se na tradição dos contos, ditos e anedotas populares que enfatizam a malandragem dos fracos contra os fortes, na luta da sobrevivência. É uma tradição comum aos ambientes de penúria e de desigualdade.

Que fazer com essa conclusão? À falta de outra utilidade, vá lá, ela fica como oferta ao governo Lula. O pessoal do revólver fumegante que vá fazer sua guerrinha, já que eles não se agüentam mesmo. O pessoal da boca na botija precisa é de fome zero.

 
 
   
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