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Edição 1 790 - 19 de fevereiro de 2003
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Visões da China

Uma mostra em São Paulo reúne
preciosidades da Cidade Proibida
e alguns dos célebres guerreiros
de terracota

Marcelo Marthe

 
Os guerreiros de Xi'an: a maior estátua de terracota da exposição
representa um general (ao centro) e tem
1,95 metro de altura
e 290 quilos

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Galeria de fotos: peças da exposição

Instaurado em 1949, o regime comunista chinês manteve-se ortodoxo até os anos 80. Depois disso, começou a abrandar-se no campo econômico, num movimento que ainda está ganhando força. Um dos efeitos colaterais da abertura foi tornar os tesouros artísticos do país mais acessíveis aos olhos do mundo. O governo percebeu que esse patrimônio inestimável é um excelente cartão de visita. Em cartaz a partir desta quinta-feira na Oca, no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, a mostra Os Guerreiros de Xi'an e os Tesouros da Cidade Proibida é reflexo dessa nova postura. Orçada em 8,5 milhões de reais, a exposição reúne cerca de 300 peças pertencentes a dezenove museus e divididas em dois núcleos. Um deles é dedicado aos achados arqueológicos da região de Xi'an, no sudoeste da China, e tem como destaque treze estátuas do célebre exército de guerreiros de terracota descoberto naquela área nos anos 70. No outro núcleo estão preciosidades da Cidade Proibida, o complexo de palácios de Pequim onde viveram os imperadores das duas últimas dinastias que governaram a China. Em seu conjunto, a mostra cobre um período de quase 8.000 anos, do Neolítico ao começo do século XX.

O sítio arqueológico de Xi'an compõe-se de uma sucessão de tumbas que se estendem ao longo de 50 quilômetros e das quais se explorou uma ínfima parte até agora. A descoberta dos guerreiros de terracota (que é como se chama a argila modelada e cozida) foi o que deu fama ao local. Em 1974, camponeses toparam com fragmentos de estátuas enquanto escavavam um poço. A partir da pista, achou-se uma câmara contendo 6.000 imagens de guerreiros, perfilados como um exército. Eles ostentam feições e vestimentas distintas conforme sua graduação militar. Na mostra há onze guerreiros e dois cavalos de terracota – o máximo dessas peças que os chineses já permitiram que deixasse o país. O maior dos guerreiros representa um general, com 1,95 metro de altura e 290 quilos. Um dos cavalos tem mais de 2 metros de comprimento e 350 quilos. A origem dessas figuras é curiosa. Elas foram fabricadas para ser colocadas na tumba de Qin Shi Huangdi, o imperador que unificou a China, por volta do ano 220 a.C. Qin se valeu de 700.000 servos que levaram quase quarenta anos para concluir a construção de seu túmulo – ele acreditava que os soldados o protegeriam na eternidade. As escavações nas imediações trouxeram à tona mais peças funerárias, várias delas presentes na exposição. São objetos que ilustram como as técnicas de manufatura em cerâmica e bronze, embora tenham aportado na China depois de outras civilizações, ali atingiram um nível de refinamento nunca antes visto.

Esse refinamento chegaria a seu apogeu entre os séculos XVI e XIX, época em que a fama da seda e da porcelana produzidas na China já estava consolidada em todo o mundo. É na seção relativa à Cidade Proibida que se encontram as peças daquele tempo. Localizada na área central de Pequim, a Cidade Proibida é um conjunto de palácios cuja arquitetura em vermelho e dourado busca transmitir harmonia e equilíbrio – e simbolizar a autoridade sem limites do imperador. Ele vivia dentro de seus muros cercado por suas muitas esposas e concubinas, além de centenas de serviçais eunucos. Os utensílios ilustram a rotina da corte imperial, que era regida por uma etiqueta rígida. Foram trazidos um dos tronos e os móveis e objetos da sala de estudos do imperador – a tradição exigia que o governante fosse um homem culto, amante da poesia e da filosofia. Em momentos conturbados da história chinesa, os palácios da Cidade Proibida foram pilhados. Mas, como o acervo era enorme, restaram milhares de objetos. Sorte da China. Sorte do mundo.

 
Fotos divulgação
Objetos da Cidade Proibida: duas pinturas em seda com cenas do imperador (no alto), uma armadura de sua guarda (à esq.) e vaso de porcelana



   
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