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Achado
ou roubado?
Governos
tentam barrar nos
tribunais os caçadores de riquezas
perdidas em grandes naufrágios
Leonardo Coutinho
De
uma hora para outra, achar um tesouro tornou-se péssimo negócio.
Depois de gastar 2 milhões de dólares para localizar as
carcaças dos navios espanhóis La Galga e Juno,
na costa dos Estados Unidos, o empresário Ben Benson, dono da Sea
Hunt, especializada nesse serviço, foi torpedeado com uma sentença
proibindo-o de explorar as riquezas guardadas a bordo. Num outro episódio,
bem recente, os descobridores dos destroços do galeão francês
Notre Dame de Deliverance, naufragado em 1755, foram impedidos
de garimpar uma fortuna estimada em 3,2 bilhões de dólares.
O governo da França e o da Espanha obtiveram esses bloqueios em
tribunais americanos, alegando questões de soberania. "Cada grama
de prata e ouro existente nesses navios foi roubado", esperneou em entrevista
ao The New York Times o caçador de tesouros Barry Clifford,
que localizou as embarcações espanholas. "Escravizaram índios
para colocar as mãos nessa riqueza." Clifford não defende
a devolução das peças às ex-colônias
de onde elas foram tiradas, evidentemente. Prefere a lógica do
ditado "achado não é roubado".
Por enquanto, porém, pelo menos para os navios afundados em águas
americanas, os aventureiros estão mais distantes dos tesouros agora
do que quando as embarcações estavam desaparecidas. Com
o direito garantido sobre um patrimônio que já era considerado
perdido, a Espanha pode decidir quando e como concluir o resgate. Há
pelo menos 65.000 navios submersos na costa dos Estados Unidos, e muitos
ninguém sabe quantos podem conter obras de arte,
dinheiro, metais, jóias e variados objetos de valor. Outros países
de longa tradição marítima e colonial, como Inglaterra
e Portugal, também estão fechando o cerco judicial aos aventureiros,
considerados saqueadores ou uma espécie de piratas submarinos.
Tidos pelos antropólogos e historiadores como importante reserva
de informação sobre o período das grandes navegações,
esses naufrágios não são protegidos do mesmo modo
em outras regiões do planeta.
Na costa brasileira, na da África, na da Europa ou no Caribe sobram
grupos de exploradores tentando localizar fortunas nas profundezas do
oceano. Em Cuba, por exemplo, o governo encontrou um jeito de ganhar algum
dinheiro com essa atividade. Como as pesquisas para a localização
de uma embarcação submersa demandam tecnologia e dinheiro,
Fidel Castro baixou uma norma que permite a atividade desde que os caçadores
dividam o butim, meio a meio, com seu governo. A principal parceira da
estatal cubana que cuida da pesquisa de naufrágios é a canadense
Visa Gold Explorations. Os resultados do trabalho ainda não foram
divulgados, mas as duas empresas já trabalham em destroços.
A avaliação dos especialistas é de que pelo menos
600 embarcações perdidas naquela área têm grandes
riquezas esperando que algum sortudo as encontre. O Brasil, assim como
Cuba, não ratificou em 2001 a Convenção de Proteção
ao Patrimônio Cultural Subaquático. Por isso, a legislação
brasileira permite que exploradores avancem sobre os 1 500 naufrágios
existentes na costa do país. Quem acha algo deve entregar a descoberta
ao Tesouro e, em troca, recebe uma indenização equivalente
a 40% do valor estimado da mercadoria. Para a Unesco, esse comportamento
favorece danos a importantes patrimônios históricos. Mas
ele pode ser o único meio de salvar alguma coisa. Quando o governo
turco resolveu investir na exploração oficial de naufrágios,
em 1975, já era tarde. Todas as embarcações encontradas
tinham sido saqueadas muito antes disso.
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