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Edição 1 790 - 19 de fevereiro de 2003
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Use, baby, use

O vírus da Aids infecta mais moças
do que rapazes. Kelly Key vem para
alertá-las dos riscos do sexo inseguro

Paula Neiva


Divulgação
Kelly Key: a campanha estrelada pela cantora vai ao ar sob protestos


Depois de muita polêmica, a nova campanha de prevenção contra a Aids entrará no ar neste domingo, dia 16. Estrelada pela cantora carioca Kelly Key, de 19 anos, a propaganda é destinada primordialmente aos adolescentes. A notícia de que a protagonista das peças publicitárias seria a jovem que entoa versos como "Baba, olha o que perdeu / Baba, criança cresceu / Bem feito pra você" ou "Vem aqui / Que agora eu tô mandando / Vem, meu cachorrinho, a sua dona tá chamando" atiçou as feministas e representantes de algumas ONGs de combate à doença. Para eles, a imagem de Kelly Key não respeita "uma visão política do mundo e suas relações de gênero" e defende "uma pseudoliberdade sexual, em que o homem é o oprimido e a mulher é a opressora". Tudo bobagem. Para funcionar, uma campanha tem de se valer de instrumentos com os quais o público-alvo se identifique. Não se trata aqui de discutir a qualidade das músicas de Kelly Key. Elas não são ruins, são péssimas – mas é inegável o sucesso que a cantora faz com a garotada. Ela já vendeu mais de meio milhão de discos. Kelly Key chama a atenção de meninos e meninas de todo o Brasil, e é isso que importa. Neste Carnaval, no jingle inspirado na música Baba, ela decreta: "Sem camisinha não vai dar".

A escolha de Kelly Key pelo Ministério da Saúde justifica-se pela preocupação com o crescente número de adolescentes infectados pelo HIV, especialmente as meninas. Ao longo dos 22 anos de história da Aids, o perfil da epidemia mudou. Em 1985, para cada 25 homens contaminados havia uma mulher na mesma situação. Hoje, as relações heterossexuais são a principal forma de transmissão do vírus, e a proporção de infectados é de dois homens para uma mulher. A única faixa etária em que o sexo feminino ultrapassou o masculino em número de soropositivos é dos 13 aos 19 anos. Para cada menino portador do HIV, duas meninas estão com o vírus. Em 1991, por exemplo, a relação de contaminados era de quatro garotos para uma garota. O fenômeno se explica pelo fato de a idade da primeira relação sexual das brasileiras ser cada vez mais baixa. Elas perdem a virgindade, em média, aos 14 anos – na década de 60, era aos 17 –, com rapazes mais velhos e com uma vida sexual ativa há muito mais tempo. "Com pouca ou nenhuma experiência, elas não se sentem à vontade para impor o uso do preservativo", diz Paulo Teixeira, coordenador nacional do Programa DST/Aids, do Ministério da Saúde. Apenas 44% dos jovens brasileiros usam camisinha no primeiro encontro sexual. Além disso, os cuidados preventivos tendem a arrefecer conforme a relação do casal se estabiliza – como se compromisso protegesse contra a Aids.

A campanha com Kelly Key revela uma evolução na linguagem das propagandas anti-Aids feitas no Brasil. As peças publicitárias estão cada vez mais objetivas e direcionadas a um público específico. Só para lembrar: a primeira campanha do governo sobre o tema é de 1987. Nela, um grupo de jovens gritava, como numa passeata: "Camisinha! Camisinha!" Mais vago impossível. Kelly Key é bem mais direta: sexo sem camisinha? Só olhe e babe, baby.

 

JINGLE DA CAMPANHA

Você não acreditou, achou que ia rolar
Achou que eu ia relaxar e esquecer
Mas, agora decidi, sem camisinha não vai dar

Não vou acreditar nesse blá, blá, blá
E pra não dizer que eu sou ruim vou ajudar você a usar
Vai usar, tem que usar, baby, usa camisinha, baby, usa camisinha...



   
 
   
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