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Para voltar a crescer
Troca
de CEO, reuniões e novidades
no cardápio. O McDonald's luta
para escapar da crise
Gabriela
Carelli
Sérgio Dutti
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| Loja
do McDonald's no Recife (foto) e na Argentina: a rede planeja
uma mudança de imagem |
O mercado
se agita quando uma grande empresa passa por um mau momento, mas vai à
loucura quando a adversidade atinge um monumento do capitalismo como o
McDonald's. Em dezembro, a direção mundial da companhia
havia anunciado um prejuízo de 344 milhões de dólares
referente ao último trimestre de 2002. Comparado ao faturamento
colossal do grupo, da ordem de 40 bilhões de dólares, a
notícia nem é tão ruim assim. Acontece que a perda
é a primeira desde que a firma abriu seu capital, 37 anos atrás.
Mais do que isso, na opinião de especialistas do setor, o indicador
ruim está relacionado com problemas estruturais que precisam ser
contornados. Um deles é a canibalização. A maioria
dos americanos mora a quatro minutos de uma loja do grupo, mas ainda assim
a empresa gosta de se expandir. Um estudo do banco Morgan Stanley propõe
o fechamento de pontos-de-venda. Outro problema é a queda na qualidade
dos serviços, reclamação número 1 dos consumidores
americanos, segundo análise feita pelo Citigroup. Há ainda
um tema mais delicado, que tem a ver com a natureza dos produtos oferecidos.
Hambúrguer e batata frita não são uma combinação
exatamente saudável para uma população que vem envelhecendo
e engordando. O revés contribuiu para uma troca no comando da casa,
ocorrida em dezembro. Jack Greenberg, CEO do McDonald's, foi substituído
por Jim Cantalupo, encarregado de implementar mudanças. Enquanto
elas não vêm, o mercado continua a reagir negativamente.
Há pouco mais de dez dias, as ações da rede sofreram
a maior desvalorização na Bolsa de Nova York desde 1994.
Uma das
primeiras áreas a ser mexidas é a de marketing, já
que as notícias ruins assolam um grupo que gasta mais de 600 milhões
de dólares por ano com anúncios. Depois de três dias
trancafiados na sede mundial de Oak Brook, em Illinois, com representantes
das catorze mais influentes agências de publicidade do grupo, executivos
do McDonald's querem uma reviravolta conceitual. A idéia é
imprimir à marca um perfil mais jovem, capaz de atender uma geração
preocupada com a qualidade, e não apenas com a quantidade e o preço
do que come. Os próximos passos atingirão outros segmentos
da organização. Fala-se em fechamento de lojas, alterações
no cardápio e reforço no treinamento de pessoal para melhorar
a qualidade do serviço. Segundo os dados da matriz, uma das poucas
divisões que não dão aborrecimento é o McDonald's
do Brasil. Por aqui, o faturamento alcançou a marca histórica
de 1,7 bilhão de reais, 6,25% a mais que o registrado em 2001.
O McDonald's
é um ícone do empreendedorismo. A presença do palhaço
Ronald McDonald em 30.000 restaurantes espalhados
por 119 países é a prova acabada de que uma boa idéia,
por mais simples que pareça no caso, vender um lanche rápido
a preço acessível , pode valer muito dinheiro. Atualmente,
a maior rede de lanchonetes do mundo emprega 1,5 milhão de pessoas,
atende mais de 46 milhões de clientes por dia e se tornou uma das
dez marcas mais valiosas do planeta. A expansão da rede foi tão
marcante que o carro-chefe de sua cozinha, o Big Mac, se transformou em
índice econômico internacional. O fundador da companhia,
Ray Kroc, colocou seu nome na lista dos gênios dos negócios,
ao lado de figuras como Alfred Sloan Jr., o homem que construiu a General
Motors, Akio Morita, da Sony, e Henry Ford, que dispensa apresentações.
Ele é autor de uma das frases mais duras já proferidas por
um empresário. Perguntado certa vez sobre a visão que tinha
do mercado e da concorrência, deu a seguinte declaração:
"O que se deve fazer quando um concorrente está se afogando? Pegar
uma mangueira e jogar água em sua boca".
A força
da marca, no entanto, acabou fazendo com que o McDonald's tomasse da Coca-Cola
o posto de símbolo máximo do imperialismo americano. É
uma discussão que se trava em várias frentes. Uma delas
se dá no campo do ódio à globalização.
Há dois meses, o grupo viu uma de suas franquias despedaçar-se
pelos ares na Indonésia após um atentado a bomba praticado
por um grupo terrorista. Outra frente de combate ao McDonald's acontece
no campo da saúde, exatamente como ocorria com a Coca-Cola até
o surgimento da versão light. O McDonald's enfrenta uma discussão
mundial sobre os efeitos malévolos de seu cardápio. Tome-se
o caso de uma criança de 7 anos, cuja necessidade diária
de energia é da ordem de 1 300 calorias. Se ela vai ao McDonald's
e come um hambúrguer simples, uma porção pequena
de batatas fritas e toma um refrigerante de 300 ml, estará ingerindo
606 calorias, ou 47% de suas necessidades diárias. A direção
da companha se assusta com a idéia de ficar com a pecha de vilã
da epidemia de obesidade que assola os Estados Unidos. Em janeiro, a lanchonete
safou-se de um processo aberto contra a empresa por causa do teor calórico
de suas refeições. Os pais de dois adolescentes obesos,
que volta e meia se refestelavam com Big Mac e batata frita, acusaram
a companhia de não informar o quão engordativas eram as
guloseimas. Se a história se repetir e outros clientes começarem
a procurar a Justiça em busca de indenizações, é
possível que a rede enfrente os dissabores da indústria
de cigarros, alvo de processos milionários movidos por ex-fumantes
ou parentes de fumantes acometidos pelas doenças causadas pelo
tabagismo.
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