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Edição 1 790 - 19 de fevereiro de 2003
Economia e Negócios Alca

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O Brasil imperialista

A estratégia das empresas brasileiras
para liderar mercados na América
Latina combina agressividade e
criação de empregos

Gabriela Carelli

Filme comercial das sandálias Havaianas na Colômbia: a marca "Made in Brazil" tem prestígio em todos os países da América Latina

Será em julho a primeira rodada de negociação da Alca, o Acordo de Livre Comércio das Américas. Os 34 países que integram o grupo deverão apresentar suas propostas de funcionamento do que poderá vir a ser um bloco econômico cuja riqueza anual somada chega a 12 trilhões de dólares. Enquanto se prepara para as grandes negociações, a diplomacia brasileira poderia aprender muito com a experiência das empresas brasileiras que estão dominando mercados na América Latina. As exportações brasileiras para os vizinhos de língua espanhola somam 10 bilhões de dólares. É apenas uma amostra diante do potencial importador do mercado dos Estados Unidos, que, anualmente, faz compras de 1 trilhão de dólares no exterior. Mas o sucesso das empresas brasileiras instaladas nos países vizinhos ou que simplesmente exportam para a região é um indicador seguro de que elas podem enfrentar com êxito o enorme desafio da Alca. "Começar nossa expansão pelos países vizinhos do Brasil funcionou como uma alavanca que nos ajudou a dar saltos maiores", diz Jorge Gerdau Johannpeter, presidente do grupo Gerdau, um colosso da siderurgia mundial com usinas nos Estados Unidos e líder de mercado no Uruguai, na Argentina e no Chile.


Edison Vara
Carrocerias de ônibus Marcopolo são embarcadas para a Venezuela: liderança continental


De um desbravador tímido dos mercados vizinhos, de quem se considerava isolado pela barreira do idioma, o Brasil se tornou um pequeno tigre no fim dos anos 90. O sinal de largada definitivo para a corrida de conquista foi a desvalorização do real em janeiro de 1999. As empresas brasileiras viram-se, de repente, com vento a favor. Quem tinha custo em real e receita em dólar viu sua produtividade instantaneamente aumentada. Em quatro anos, o Brasil passou a exercer um imperialismo cordial na América Latina, com companhias nacionais assumindo o controle de segmentos da economia dos vizinhos. Atualmente, quase metade das cervejas que os uruguaios bebem é fabricada pela multinacional brasileira AmBev, que já é dona de 70% do mercado argentino. Na Colômbia das guerrilhas e do narcotráfico, as sandálias Havaianas brasileiras tornaram-se megassucesso de vendas e são donas de 60% do mercado. Coloridas e modernas, elas também são a moda do verão em Cartagena e em outras cidades mais distantes da influência da guerra civil. Os mesmos produtos caíram no gosto dos venezuelanos. Na conflagrada Venezuela do presidente Hugo Chávez, as greves não afetaram o comércio das Havaianas. Há 76 postos de gasolina na Bolívia com a bandeira da Petrobras, líder na produção de gás e óleo e detentora de 98% do refino do país. A empresa, que despertou para a necessidade de competir globalmente depois da quebra do monopólio do petróleo, em 1997, avança sobre a Argentina. Com a compra da Perez Companc no ano passado, a Petrobras tornou-se líder de distribuição de energia no país vizinho. Mais recentemente, o Brasil passou a ser um eficiente exportador de serviços. Em quatro anos de expansão pela América Latina, o publicitário Eduardo Fischer, dono de uma das maiores agências, estabeleceu-se na Venezuela, na Argentina e no México. Diante da possibilidade de se fundir com um sócio estrangeiro, Fischer preferiu criar uma multinacional de propaganda destinada ao mercado latino. "As facilidades na América Latina são maiores. No fundo, somos povos muito parecidos", diz Fischer. Sua agência mexicana já está entre as três melhores do país. De suas diversas conquistas, Fischer se orgulha de ter feito amizade com um cliente ilustre, o escritor Gabriel García Márquez, a quem faz visitas periódicas.


Editorial Perfil
Posto da Petrobras em Buenos Aires: a estatal brasileira lidera em quase todos os setores energéticos

As vendas externas do Brasil para os países latino-americanos cresceram 9%, sem contar o Mercosul, no ano passado. "É um crescimento e tanto se levarmos em conta a fragilidade da região, a crise argentina e os conflitos da Venezuela", diz o economista Roberto Giannetti da Fonseca, especialista em comércio exterior. Não há um ranking formal sobre quantas companhias brasileiras são líderes ou segundas colocadas nos países vizinhos. A estimativa mais confiável informa que pelo menos trinta grandes grupos brasileiros são líderes de mercado na América Latina. Um estudo recente feito pela Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex) consultou 280 empresas brasileiras que têm sedes no exterior. Mais de 50% delas, cerca de 150, estão fincadas em países latino-americanos. O imperialismo brasileiro é exercido sem muito alarde e sem despertar a ira dos nacionalistas vizinhos. Existem duas razões principais para explicar essa paz aparente. A primeira vem do fato de que as companhias brasileiras vendem prioritariamente produtos manufaturados e, assim, não competem com os empresários locais. As montadoras brasileiras dominam 20% do mercado de veículos chileno sem que isso impacte negativamente a economia do Chile, que não tem fábricas de automóveis ou caminhões. A segunda razão a garantir a "pax brasileira" na economia do continente é a tendência de as empresas do Brasil contratarem prioritariamente mão-de-obra local em todos os níveis, mesmo os mais altos.

Arquivo pessoal
Fischer (à dir.) com o escritor García Márquez: uma multinacional brasileira de propaganda

"Os brasileiros são agressivos apenas na largada, ao entrar no mercado com investimentos pesados", diz Carla Coelho, gerente de comunicação corporativa e marketing institucional da AmBev. Um exemplo é a Tigre. Maior fabricante nacional de tubos e conexões, a companhia soube explorar a delicada questão da mão-de-obra no mercado dos outros. Menos de 10% dos funcionários de alto escalão de suas fábricas no Chile, Bolívia e Argentina são brasileiros, situação difícil de encontrar em muitas multinacionais americanas no continente. "Trabalhar com profissionais locais nos dá vantagem estratégica", explica Cícero dos Santos, responsável pelas operações internacionais da Tigre. O Brasil tem sobre os vizinhos ascendências de outros tipos. O gigantismo relativo da economia e do território brasileiros é fator relevante. Até mesmo na trajetória histórica da economia o Brasil leva vantagem. Nos anos 40 e 50, tanto o Brasil quanto vizinhos como Argentina e Chile receberam enormes volumes de empréstimos externos. Enquanto o Brasil usou os dólares para construir infra-estrutura, como hidrelétricas e siderúrgicas, que foram a base de seu parque industrial, os vizinhos utilizaram a moeda forte para saciar a fome de bens de consumo importados da classe média. Foi um processo lento de destruição que durou trinta anos e teve seu ápice na década de 70", diz Alberto Ferrari Etcheberry, diretor do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade Nacional de San Martín, em Buenos Aires.

O empuxo histórico se somou à necessidade de fugir da competição com os produtos estrangeiros no próprio mercado nos anos 90. A conjunção de fatores forçou a conquista da América. "Com o Mercosul e a necessidade de expansão das empresas para compensar a chegada dos produtos estrangeiros, os países latinos deixam de ser encarados como um quintal", explica o economista Fábio Silveira, da MB Associados. A Tigre tirou da gaveta o empoeirado projeto Tigre Multilatina justamente naquele período e comprou de uma só vez três fábricas no Chile. Em seguida, adquiriu outra na Bolívia. De lá para cá, aumentou em sete vezes seu faturamento externo. A AmBev, que herdou duas fábricas que a Brahma adquiriu em 1994 na Argentina e na Venezuela, consolidou-se em janeiro, com a aquisição da Quinsa, a maior cervejaria argentina. "O Brasil se tornou também uma plataforma de exportação para as multinacionais instaladas aqui", diz Giannetti da Fonseca. O sucesso do Gol, fabricado e desenhado no Brasil pela Volkswagen, resume bem essa reviravolta. O Gol virou líder no concorrido mercado do México. Se repetir na Alca seu desempenho na América Latina, a economia brasileira não terá motivos para preocupação.

 

SE CORRER A ALCA PEGA. SE FICAR...

Na semana passada, os Estados Unidos divulgaram sua oferta inicial, o documento com que abrem as negociações da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) com os demais 33 participantes. O documento do governo americano acena com abertura generosa de mercado para os países do Caribe, tradicionais parceiros dos Estados Unidos. O Brasil não recebeu nenhuma concessão. Ficou até em situação pior. Atualmente, 63% do volume de exportações brasileiras para os Estados Unidos entra no mercado americano com taxação zero. Pelo novo desenho proposto pelos Estados Unidos, esse número cairia para 58%. Ou seja, ficaremos em desvantagem caso a Alca seja implementada de acordo com o primeiro esboço da diplomacia americana. "Vamos ter um trabalho mais árduo daqui para a frente para reverter a desvantagem na largada", diz Lia Valls Pereira, professora da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro.

A professora Lia fez uma simulação do impacto da entrada do Brasil na Alca assumindo que em 2005, quando o acordo deve estar concluído, as tarifas de importação americanas estejam mais baixas que hoje. Ela comparou os efeitos de entrar para a Alca com aqueles que seriam produzidos em acordo semelhante com a União Européia. O estudo da professora da FGV mostra que, de modo geral, um acordo com a Alca aumentaria as exportações brasileiras para os Estados Unidos em 6,7%. Um acordo com a União Européia aumentaria o volume de transações brasileiras com os países europeus, que passariam a comprar 5% a mais de mercadorias. Os fabricantes nacionais de bens manufaturados seriam os maiores beneficiados no acordo com os Estados Unidos, que hoje importam a totalidade de seus televisores e quase todos os videocassetes e aparelhos de DVD. Segundo o estudo da professora Lia, o volume de exportação de manufaturados brasileiros para os Estados Unidos aumentaria em 8% nos primeiros anos de funcionamento da Alca. "Nossos países precisam desesperadamente de um acordo de livre-comércio com os Estados Unidos", diz o economista argentino Jorge Avila, da Universidad del Cema, que também estudou o impacto da Alca. "Tanto Brasil quanto Argentina exportam apenas 8% de seu PIB. Uma miséria." Segundo Avila, Brasil e Argentina precisam de 42 meses de exportações para zerar a dívida externa. O Chile necessita de apenas oito meses e a Coréia do Sul, de quatro. Portanto, ao incrementarem o comércio exterior, os países estarão também assegurando a solidez de suas finanças e a estabilidade da economia.



 
 

   
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