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O Brasil imperialista
A estratégia
das empresas brasileiras
para liderar mercados na América
Latina combina agressividade e
criação de empregos

Gabriela
Carelli
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| Filme
comercial das sandálias Havaianas na Colômbia: a marca "Made in Brazil"
tem prestígio em todos os países da América Latina |
Será
em julho a primeira rodada de negociação da Alca, o Acordo
de Livre Comércio das Américas. Os 34 países que
integram o grupo deverão apresentar suas propostas de funcionamento
do que poderá vir a ser um bloco econômico cuja riqueza anual
somada chega a 12 trilhões de dólares. Enquanto se prepara
para as grandes negociações, a diplomacia brasileira poderia
aprender muito com a experiência das empresas brasileiras que estão
dominando mercados na América Latina. As exportações
brasileiras para os vizinhos de língua espanhola somam 10 bilhões
de dólares. É apenas uma amostra diante do potencial importador
do mercado dos Estados Unidos, que, anualmente, faz compras de 1 trilhão
de dólares no exterior. Mas o sucesso das empresas brasileiras
instaladas nos países vizinhos ou que simplesmente exportam para
a região é um indicador seguro de que elas podem enfrentar
com êxito o enorme desafio da Alca. "Começar nossa expansão
pelos países vizinhos do Brasil funcionou como uma alavanca que
nos ajudou a dar saltos maiores", diz Jorge Gerdau Johannpeter, presidente
do grupo Gerdau, um colosso da siderurgia mundial com usinas nos Estados
Unidos e líder de mercado no Uruguai, na Argentina e no Chile.
Edison Vara
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| Carrocerias
de ônibus Marcopolo são embarcadas para a Venezuela: liderança continental
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De um desbravador tímido dos mercados vizinhos, de quem se considerava
isolado pela barreira do idioma, o Brasil se tornou um pequeno tigre no
fim dos anos 90. O sinal de largada definitivo para a corrida de conquista
foi a desvalorização do real em janeiro de 1999. As empresas
brasileiras viram-se, de repente, com vento a favor. Quem tinha custo
em real e receita em dólar viu sua produtividade instantaneamente
aumentada. Em quatro anos, o Brasil passou a exercer um imperialismo cordial
na América Latina, com companhias nacionais assumindo o controle
de segmentos da economia dos vizinhos. Atualmente, quase metade das cervejas
que os uruguaios bebem é fabricada pela multinacional brasileira
AmBev, que já é dona de 70% do mercado argentino. Na Colômbia
das guerrilhas e do narcotráfico, as sandálias Havaianas
brasileiras tornaram-se megassucesso de vendas e são donas de 60%
do mercado. Coloridas e modernas, elas também são a moda
do verão em Cartagena e em outras cidades mais distantes da influência
da guerra civil. Os mesmos produtos caíram no gosto dos venezuelanos.
Na conflagrada Venezuela do presidente Hugo Chávez, as greves não
afetaram o comércio das Havaianas. Há 76 postos de gasolina
na Bolívia com a bandeira da Petrobras, líder na produção
de gás e óleo e detentora de 98% do refino do país.
A empresa, que despertou para a necessidade de competir globalmente depois
da quebra do monopólio do petróleo, em 1997, avança
sobre a Argentina. Com a compra da Perez Companc no ano passado, a Petrobras
tornou-se líder de distribuição de energia no país
vizinho. Mais recentemente, o Brasil passou a ser um eficiente exportador
de serviços. Em quatro anos de expansão pela América
Latina, o publicitário Eduardo Fischer, dono de uma das maiores
agências, estabeleceu-se na Venezuela, na Argentina e no México.
Diante da possibilidade de se fundir com um sócio estrangeiro,
Fischer preferiu criar uma multinacional de propaganda destinada ao mercado
latino. "As facilidades na América Latina são maiores. No
fundo, somos povos muito parecidos", diz Fischer. Sua agência mexicana
já está entre as três melhores do país. De
suas diversas conquistas, Fischer se orgulha de ter feito amizade com
um cliente ilustre, o escritor Gabriel García Márquez, a
quem faz visitas periódicas.
Editorial Perfil
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| Posto
da Petrobras em Buenos Aires: a estatal brasileira lidera em quase
todos os setores energéticos |
As vendas
externas do Brasil para os países latino-americanos cresceram 9%,
sem contar o Mercosul, no ano passado. "É um crescimento e tanto
se levarmos em conta a fragilidade da região, a crise argentina
e os conflitos da Venezuela", diz o economista Roberto Giannetti da Fonseca,
especialista em comércio exterior. Não há um ranking
formal sobre quantas companhias brasileiras são líderes
ou segundas colocadas nos países vizinhos. A estimativa mais confiável
informa que pelo menos trinta grandes grupos brasileiros são líderes
de mercado na América Latina. Um estudo recente feito pela Fundação
Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex) consultou 280 empresas
brasileiras que têm sedes no exterior. Mais de 50% delas, cerca
de 150, estão fincadas em países latino-americanos. O imperialismo
brasileiro é exercido sem muito alarde e sem despertar a ira dos
nacionalistas vizinhos. Existem duas razões principais para explicar
essa paz aparente. A primeira vem do fato de que as companhias brasileiras
vendem prioritariamente produtos manufaturados e, assim, não competem
com os empresários locais. As montadoras brasileiras dominam 20%
do mercado de veículos chileno sem que isso impacte negativamente
a economia do Chile, que não tem fábricas de automóveis
ou caminhões. A segunda razão a garantir a "pax brasileira"
na economia do continente é a tendência de as empresas do
Brasil contratarem prioritariamente mão-de-obra local em todos
os níveis, mesmo os mais altos.
Arquivo pessoal
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| Fischer
(à dir.) com o escritor García Márquez: uma multinacional brasileira
de propaganda |
"Os brasileiros
são agressivos apenas na largada, ao entrar no mercado com investimentos
pesados", diz Carla Coelho, gerente de comunicação corporativa
e marketing institucional da AmBev. Um exemplo é a Tigre. Maior
fabricante nacional de tubos e conexões, a companhia soube explorar
a delicada questão da mão-de-obra no mercado dos outros.
Menos de 10% dos funcionários de alto escalão de suas fábricas
no Chile, Bolívia e Argentina são brasileiros, situação
difícil de encontrar em muitas multinacionais americanas no continente.
"Trabalhar com profissionais locais nos dá vantagem estratégica",
explica Cícero dos Santos, responsável pelas operações
internacionais da Tigre. O Brasil tem sobre os vizinhos ascendências
de outros tipos. O gigantismo relativo da economia e do território
brasileiros é fator relevante. Até mesmo na trajetória
histórica da economia o Brasil leva vantagem. Nos anos 40 e 50,
tanto o Brasil quanto vizinhos como Argentina e Chile receberam enormes
volumes de empréstimos externos. Enquanto o Brasil usou os dólares
para construir infra-estrutura, como hidrelétricas e siderúrgicas,
que foram a base de seu parque industrial, os vizinhos utilizaram a moeda
forte para saciar a fome de bens de consumo importados da classe média.
Foi um processo lento de destruição que durou trinta anos
e teve seu ápice na década de 70", diz Alberto Ferrari Etcheberry,
diretor do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade Nacional de
San Martín, em Buenos Aires.
O empuxo
histórico se somou à necessidade de fugir da competição
com os produtos estrangeiros no próprio mercado nos anos 90. A
conjunção de fatores forçou a conquista da América.
"Com o Mercosul e a necessidade de expansão das empresas para compensar
a chegada dos produtos estrangeiros, os países latinos deixam de
ser encarados como um quintal", explica o economista Fábio Silveira,
da MB Associados. A Tigre tirou da gaveta o empoeirado projeto Tigre Multilatina
justamente naquele período e comprou de uma só vez três
fábricas no Chile. Em seguida, adquiriu outra na Bolívia.
De lá para cá, aumentou em sete vezes seu faturamento externo.
A AmBev, que herdou duas fábricas que a Brahma adquiriu em 1994
na Argentina e na Venezuela, consolidou-se em janeiro, com a aquisição
da Quinsa, a maior cervejaria argentina. "O Brasil se tornou também
uma plataforma de exportação para as multinacionais instaladas
aqui", diz Giannetti da Fonseca. O sucesso do Gol, fabricado e desenhado
no Brasil pela Volkswagen, resume bem essa reviravolta. O Gol virou líder
no concorrido mercado do México. Se repetir na Alca seu desempenho
na América Latina, a economia brasileira não terá
motivos para preocupação.
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SE
CORRER A ALCA PEGA. SE FICAR...
Na
semana passada, os Estados Unidos divulgaram sua oferta inicial,
o documento com que abrem as negociações da Área
de Livre Comércio das Américas (Alca) com os demais
33 participantes. O documento do governo americano acena com abertura
generosa de mercado para os países do Caribe, tradicionais
parceiros dos Estados Unidos. O Brasil não recebeu nenhuma
concessão. Ficou até em situação pior.
Atualmente, 63% do volume de exportações brasileiras
para os Estados Unidos entra no mercado americano com taxação
zero. Pelo novo desenho proposto pelos Estados Unidos, esse número
cairia para 58%. Ou seja, ficaremos em desvantagem caso a Alca seja
implementada de acordo com o primeiro esboço da diplomacia
americana. "Vamos ter um trabalho mais árduo daqui para a
frente para reverter a desvantagem na largada", diz Lia Valls Pereira,
professora da Fundação Getúlio Vargas do Rio
de Janeiro.
A
professora Lia fez uma simulação do impacto da entrada
do Brasil na Alca assumindo que em 2005, quando o acordo deve estar
concluído, as tarifas de importação americanas
estejam mais baixas que hoje. Ela comparou os efeitos de entrar
para a Alca com aqueles que seriam produzidos em acordo semelhante
com a União Européia. O estudo da professora da FGV
mostra que, de modo geral, um acordo com a Alca aumentaria as exportações
brasileiras para os Estados Unidos em 6,7%. Um acordo com a União
Européia aumentaria o volume de transações
brasileiras com os países europeus, que passariam a comprar
5% a mais de mercadorias. Os fabricantes nacionais de bens manufaturados
seriam os maiores beneficiados no acordo com os Estados Unidos,
que hoje importam a totalidade de seus televisores e quase todos
os videocassetes e aparelhos de DVD. Segundo o estudo da professora
Lia, o volume de exportação de manufaturados brasileiros
para os Estados Unidos aumentaria em 8% nos primeiros anos de funcionamento
da Alca. "Nossos países precisam desesperadamente de um acordo
de livre-comércio com os Estados Unidos", diz o economista
argentino Jorge Avila, da Universidad del Cema, que também
estudou o impacto da Alca. "Tanto Brasil quanto Argentina exportam
apenas 8% de seu PIB. Uma miséria." Segundo Avila, Brasil
e Argentina precisam de 42 meses de exportações para
zerar a dívida externa. O Chile necessita de apenas oito
meses e a Coréia do Sul, de quatro. Portanto, ao incrementarem
o comércio exterior, os países estarão também
assegurando a solidez de suas finanças e a estabilidade da
economia.
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