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Ela
fez uma família destruindo outras
DNA
confirma que seqüestradora
de Pedrinho criou também uma
menina roubada de outra mulher
José
Edward
Com o DNA
extraído da ponta de uma bituca de cigarro, a polícia de
Goiânia pôde confirmar na semana passada uma suspeita que
se generalizou desde o encerramento do caso Pedrinho, há três
meses. Vilma Martins Costa, de 48 anos, a mulher que em 1986 roubou um
bebê numa maternidade de Brasília e conseguiu criá-lo
como se fosse seu filho , já havia feito a mesma coisa algum
tempo antes. Em 1979, ela retirou de outro hospital uma criança
de 2 dias que tinha recebido o nome de Aparecida Fernanda Ribeiro da Silva.
A mãe da menina, Francisca Maria Ribeiro da Silva, que agora tem
63 anos, só voltaria a vê-la na última quinta-feira,
pouco depois de saber, por policiais, que Roberta Jamilly Martins Borges,
tida como outra filha de Vilma, é o bebê que lhe foi roubado.
"Espero que ela possa me dar um abraço", teria dito Francisca ao
ser informada da novidade. Roberta foi até ela para atender a esse
pedido, mas adiantou que não haverá muitas mudanças
em sua vida, indicando que pretende, como Pedrinho, continuar vivendo
com a mulher que a criou, apesar da descoberta sobre o comportamento criminoso
de Vilma no passado.
A história
de Vilma, de sua família e da investigação dos roubos
de bebês tem vários capítulos de romance policial.
O mais recente foi a iniciativa dos policiais de coletar no lixo as pontas
de cigarros fumados por Roberta durante uma passagem dela pela Delegacia
Estadual de Investigações Criminais, em janeiro. Seguindo
as instruções de um perito, por telefone, eles enveloparam
esse material e o enviaram à Perícia Técnica de Brasília,
que comparou as amostras de DNA com as fornecidas pela verdadeira mãe
da garota. O delegado Antônio Gonçalves conta que já
havia até um mandado de busca pronto para que fossem colher elementos
de comparação genética na casa onde Vilma vive com
Roberta e outros filhos, mas não foi necessário usá-lo.
Esperto, o método é também polêmico. Muitos
especialistas aprovam a idéia de recolher amostras de DNA em cenas
de crime em fios de cabelo, por exemplo quando se busca
um criminoso, mas há controvérsia sobre fazer o mesmo quando
o examinado é uma vítima, principalmente se essa pessoa
é contra a realização dos exames. Roberta negava-se
havia muito tempo a se submeter a qualquer análise genética.
"O fato de a técnica e a legislação permitirem esse
exame acaba legitimando a exposição de informações
que deveriam ser consideradas íntimas, como a suscetibilidade a
uma doença qualquer, por exemplo", diz o geneticista Sérgio
Danilo Pena.
Pelo ponto
de vista de Roberta e de Pedrinho criado com o nome de Osvaldo
Martins Borges Júnior , o caso torna-se ainda mais complexo.
Eles sabem agora que a mulher que os criou causou grande sofrimento a
suas famílias verdadeiras. Os pais naturais de Pedrinho, Maria
Auxiliadora e Jairo Tapajós Pinto, nunca desistiram de procurar
pelo filho. Francisca, mãe de Roberta, lamenta que o marido tenha
morrido, há doze anos, sem ver o fim da busca angustiante da menina
seqüestrada. Vilma, a seqüestradora, também enganou o
segundo marido, já falecido, que se acreditava pai de fato. Tentava
ainda extorquir um empresário que dizia ser seu amante e a quem
acusava de ser o pai da menina Roberta. Mas, para as crianças seqüestradas,
é difícil que Vilma não seja vista por outros ângulos.
Ela os alimentou, mandou para a escola, consolou nos dias ruins. Pelo
comportamento que ambos tiveram enquanto a mulher ia se tornando alvo
das mais fundadas suspeitas, fica claro que, mesmo que se achem traídos,
eles se sentem seus filhos. "Os novos pais, por mais carinho que tenham
a oferecer, são estranhos", diz o psicoterapeuta paulista Içami
Tiba.
Vilma nunca
exibiu um comportamento que se possa chamar de completamente normal, tanto
que, logo depois da morte do ex-marido, uma neta do primeiro casamento
dele, Gabriela Borges, iniciou na internet a pesquisa que levaria à
descoberta da história de Pedrinho. Ela ouvira a mulher dizer que
laqueara as trompas vinte anos antes. Logo, não poderia ser mãe
de um adolescente. Durante as investigações, depoimentos
que mais a complicaram nos dois casos foram dados por um casal de irmãos
seus, Sinfrônio e Guiomar. Ele contou que acompanhou Vilma numa
viagem de Brasília a Goiânia no dia em que o menino foi seqüestrado
e que ela levava consigo um recém-nascido. Guiomar revelou que
a menina ela conseguira na cidade de Itaguari, a 100 quilômetros
de Goiânia. Nesse seqüestro, segundo contou à polícia
uma ex-enfermeira, ela chegou a se internar no hospital e, com a conivência
de um médico, simulou um parto em que o bebê até foi
lambuzado de sangue, como se tivesse acabado de nascer, numa cesariana.
"Essa mulher tem um transtorno de personalidade", diz o psiquiatra Arnaldo
Madruga, de Belo Horizonte. "Só procura sua auto-satisfação
e é incapaz de sentir culpa pelo mal que produz. São características
de uma psicopata."
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