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Edição 1 790 - 19 de fevereiro de 2003
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Ela fez uma família destruindo outras

DNA confirma que seqüestradora
de Pedrinho criou também uma
menina roubada de outra mulher

José Edward

Com o DNA extraído da ponta de uma bituca de cigarro, a polícia de Goiânia pôde confirmar na semana passada uma suspeita que se generalizou desde o encerramento do caso Pedrinho, há três meses. Vilma Martins Costa, de 48 anos, a mulher que em 1986 roubou um bebê numa maternidade de Brasília – e conseguiu criá-lo como se fosse seu filho –, já havia feito a mesma coisa algum tempo antes. Em 1979, ela retirou de outro hospital uma criança de 2 dias que tinha recebido o nome de Aparecida Fernanda Ribeiro da Silva. A mãe da menina, Francisca Maria Ribeiro da Silva, que agora tem 63 anos, só voltaria a vê-la na última quinta-feira, pouco depois de saber, por policiais, que Roberta Jamilly Martins Borges, tida como outra filha de Vilma, é o bebê que lhe foi roubado. "Espero que ela possa me dar um abraço", teria dito Francisca ao ser informada da novidade. Roberta foi até ela para atender a esse pedido, mas adiantou que não haverá muitas mudanças em sua vida, indicando que pretende, como Pedrinho, continuar vivendo com a mulher que a criou, apesar da descoberta sobre o comportamento criminoso de Vilma no passado.

A história de Vilma, de sua família e da investigação dos roubos de bebês tem vários capítulos de romance policial. O mais recente foi a iniciativa dos policiais de coletar no lixo as pontas de cigarros fumados por Roberta durante uma passagem dela pela Delegacia Estadual de Investigações Criminais, em janeiro. Seguindo as instruções de um perito, por telefone, eles enveloparam esse material e o enviaram à Perícia Técnica de Brasília, que comparou as amostras de DNA com as fornecidas pela verdadeira mãe da garota. O delegado Antônio Gonçalves conta que já havia até um mandado de busca pronto para que fossem colher elementos de comparação genética na casa onde Vilma vive com Roberta e outros filhos, mas não foi necessário usá-lo. Esperto, o método é também polêmico. Muitos especialistas aprovam a idéia de recolher amostras de DNA em cenas de crime – em fios de cabelo, por exemplo – quando se busca um criminoso, mas há controvérsia sobre fazer o mesmo quando o examinado é uma vítima, principalmente se essa pessoa é contra a realização dos exames. Roberta negava-se havia muito tempo a se submeter a qualquer análise genética. "O fato de a técnica e a legislação permitirem esse exame acaba legitimando a exposição de informações que deveriam ser consideradas íntimas, como a suscetibilidade a uma doença qualquer, por exemplo", diz o geneticista Sérgio Danilo Pena.

Pelo ponto de vista de Roberta e de Pedrinho – criado com o nome de Osvaldo Martins Borges Júnior –, o caso torna-se ainda mais complexo. Eles sabem agora que a mulher que os criou causou grande sofrimento a suas famílias verdadeiras. Os pais naturais de Pedrinho, Maria Auxiliadora e Jairo Tapajós Pinto, nunca desistiram de procurar pelo filho. Francisca, mãe de Roberta, lamenta que o marido tenha morrido, há doze anos, sem ver o fim da busca angustiante da menina seqüestrada. Vilma, a seqüestradora, também enganou o segundo marido, já falecido, que se acreditava pai de fato. Tentava ainda extorquir um empresário que dizia ser seu amante e a quem acusava de ser o pai da menina Roberta. Mas, para as crianças seqüestradas, é difícil que Vilma não seja vista por outros ângulos. Ela os alimentou, mandou para a escola, consolou nos dias ruins. Pelo comportamento que ambos tiveram enquanto a mulher ia se tornando alvo das mais fundadas suspeitas, fica claro que, mesmo que se achem traídos, eles se sentem seus filhos. "Os novos pais, por mais carinho que tenham a oferecer, são estranhos", diz o psicoterapeuta paulista Içami Tiba.

Vilma nunca exibiu um comportamento que se possa chamar de completamente normal, tanto que, logo depois da morte do ex-marido, uma neta do primeiro casamento dele, Gabriela Borges, iniciou na internet a pesquisa que levaria à descoberta da história de Pedrinho. Ela ouvira a mulher dizer que laqueara as trompas vinte anos antes. Logo, não poderia ser mãe de um adolescente. Durante as investigações, depoimentos que mais a complicaram nos dois casos foram dados por um casal de irmãos seus, Sinfrônio e Guiomar. Ele contou que acompanhou Vilma numa viagem de Brasília a Goiânia no dia em que o menino foi seqüestrado e que ela levava consigo um recém-nascido. Guiomar revelou que a menina ela conseguira na cidade de Itaguari, a 100 quilômetros de Goiânia. Nesse seqüestro, segundo contou à polícia uma ex-enfermeira, ela chegou a se internar no hospital e, com a conivência de um médico, simulou um parto em que o bebê até foi lambuzado de sangue, como se tivesse acabado de nascer, numa cesariana. "Essa mulher tem um transtorno de personalidade", diz o psiquiatra Arnaldo Madruga, de Belo Horizonte. "Só procura sua auto-satisfação e é incapaz de sentir culpa pelo mal que produz. São características de uma psicopata."

   
 
   
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