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Lavadas com dinheiro
Obras
milionárias transformam
áreas urbanas decadentes em
ímãs para turistas e investimentos
Raul Juste
Lores, de Barcelona
Lusa
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Barcelona
é uma cidade milenar, conhecida pela beleza de suas avenidas e
obras de arte. Mas quem a visita nos dias de hoje fica ainda mais impressionado
com o futuro. A capital catalã vai inaugurar até 2004 dois
grandes centros de convenções, três parques públicos,
um porto esportivo, um campus universitário e vários hotéis.
Barcelona é um exemplo mundial de renovação de áreas
urbanas degradadas desde o início dos anos 90, quando aproveitou
as Olimpíadas para uma recauchutagem geral. Foi então que
o velho porto se transformou em point da moda com edifícios residenciais,
restaurantes e barzinhos, sedes de multinacionais e variadas atrações
turísticas, como o aquário local. Nas principais metrópoles
do Primeiro Mundo, a ordem é a mesma: converter áreas abandonadas
e decadentes em lugares pujantes, que fazem bem não apenas à
aparência, mas também ao bolso. "Cidades de cara nova, com
maior segurança e prédios projetados por arquitetos badalados
atraem turistas e investimentos", disse a VEJA Juan José Güemes,
o secretário de Turismo da Espanha. Mais de 50 bilhões de
dólares estão sendo investidos em quase 100 grandes centros
da Europa e dos Estados Unidos nesse processo de cirurgia estética
urbana.
AP
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Roterdã,
na Holanda, e Hamburgo, na Alemanha, estão transformando a região
portuária em bairros modernos. Em julho, foi inaugurada a nova
sede da prefeitura de Londres. Será um símbolo da recuperação
da antes decadente margem sul do Rio Tâmisa. Com a despoluição
do rio, o lugar ficou tão valorizado que o preço do metro
quadrado ali já é um dos mais altos da capital inglesa.
Há uma razão para a recuperação intensiva.
Hoje, as cidades competem entre si para sediar grandes empresas e para
realizar feiras e congressos. Boa imagem é tudo. A Inglaterra pretende
gastar 4 bilhões de dólares até 2009 em 39 áreas
degradadas de suas maiores cidades. Os centros urbanos são tradicionalmente
os lugares com melhor infra-estrutura de serviços públicos
e maior oferta de transportes coletivos. Mas estão, em geral, atulhados
de carcaças da industrialização pesada da primeira
metade do século XX. São velhas fábricas, instalações
portuárias, estações ferroviárias e armazéns
tomados pela sujeira e pela criminalidade. As fábricas maiores
e mais modernas fugiram do trânsito e dos preços altos dos
terrenos do centro das metrópoles, deixando um rastro de desemprego.
"O que está ocorrendo no Primeiro Mundo é uma tentativa
bilionária de reverter a tendência de abandono e transformar
esses centros em áreas habitáveis e com conforto", afirma
o arquiteto paulista Marcelo Ferraz, que trabalhou na recuperação
da antiga Berlim Oriental.
Spin Mediá/divulgação
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Às
vezes, um grande evento, como as Olimpíadas de Barcelona, é
a desculpa para a faxina geral. Em Lisboa, a Exposição Universal
de 1998 foi instalada em um bairro decadente às margens do Rio
Tejo, onde havia um matadouro, um ferro-velho e a estação
de tratamento de esgotos da cidade. Terminada a exposição,
ergueram-se ali charmosos conjuntos habitacionais, prédios comerciais,
escolas e uma estação de trens de linhas arrojadas integrada
ao metrô. A cidade gostou tanto da idéia que contratou o
badalado arquiteto Frank Gehry, responsável pelo espetacular prédio
do Museu Guggenheim de Bilbao, para recuperar o Parque Mayer, o decadente
bairro dos teatros lisboetas. Paris, que não precisa de desculpas
para ficar mais bela, prevê a recuperação até
2005 da Ilha Seguin, em sua periferia. Onde havia uma velha fábrica
da Renault será instalado um museu com a coleção
de arte do milionário François Pinault, além de parque,
edifícios residenciais e de escritórios.
Source Central Artely/Tunnel Project,
Boston, MA, USA
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Chicago,
uma das cidades mais congestionadas do planeta, reagiu com a criação
de uma avenida só para o comércio de luxo, chamada de Magnificent
Mile. Os lojistas organizaram uma associação que
cuida dos jardins, da iluminação e até da segurança
do lugar, em acordo com a prefeitura. "Não podíamos deixar
que todos fossem para os shoppings e que o centro urbano ficasse abandonado",
disse a VEJA Russell Salzman, presidente da associação dos
lojistas da Magnificent Mile. A prefeitura de Nova York conseguiu a proeza
de arrumar a antes perigosa e suja área de Times Square, um de
seus pontos mais turísticos. Cinemas pornôs e bordéis
cederam espaço para cinemas e teatros. Boston partiu para uma experiência
mais radical e bilionária para salvar seu centro.
Cortada por um horrendo elevado de 6 quilômetros de extensão,
está gastando 14 bilhões de dólares para construir
um enorme túnel subterrâneo. O elevado será destruído
até o fim de 2004 e a cidade ganhará 600.000
metros quadrados de área em plena região central, que será
ocupada por parques, praças e áreas de lazer.
Foster and Partners
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O turismo
é uma das ferramentas utilizadas para dar atividade econômica
a esses centros renovados, e a arquitetura de vanguarda é aliada
para encher os olhos e atrair visitantes a essas metrópoles do
futuro. Bilbao, na Espanha, era um feioso pólo siderúrgico
e de estaleiros. Hoje é um centro de serviços. Tudo começou
com o Museu Guggenheim, que atrai 1 milhão de visitantes por ano
e chamou a atenção para a cidade basca. Nas áreas
próximas ao museu, ao longo do Rio Nervión, vários
quilômetros de estradas de ferro, estaleiros e fábricas abandonadas
estão sendo substituídos por edifícios residenciais
e comerciais, universidade e áreas de lazer. Tudo acompanhado de
obras vistosas da fina nata da arquitetura mundial. Além do museu
de Frank Gehry, as estações de metrô são do
inglês Norman Foster, o novo aeroporto é do espanhol Santiago
Calatrava e o remodelamento do bairro de Abandoibarra ficou a cargo do
argentino Cesar Pelli.
Divulgação
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Manchester,
na Inglaterra, era famosa não por atrativos naturais ou arquitetônicos,
mas pela poluição e estrago causados pela indústria
pesada. Manchester gastou 200 milhões de dólares para reformar
seu principal museu e construir outros dois, o Museu Imperial da Guerra
e o Urbis Centre, cujo tema, curiosamente, são as cidades pelo
mundo, tanto do ponto de vista da arquitetura quanto do urbanismo (São
Paulo é um dos exemplos em "exposição"). Ambos têm
desenho de embasbacar o turista atrás de bons ângulos para
tirar fotos. Não ficou só nos museus: desenvolve até
2005 um projeto para reurbanizar sua zona norte, com novos edifícios
residenciais e de escritórios. Manchester, a cidade conhecida por
sua feiúra, está ficando bela. A busca por maior conforto,
beleza e riqueza nas metrópoles realmente provoca milagres.
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