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Olaria somos nós
"Aparentemente,
não há um único
brasileiro que apóie uma intervenção
no Iraque. Se todos os brasileiros concordam com algo, significa
que
esse algo só pode estar errado"
O primeiro escudo humano brasileiro foi o gaúcho Flávio
Ravara. Viajou para o Iraque levando, na bagagem, uma camisa da seleção,
um violão e um cartão de crédito. Eu gostaria de
saber onde ele se encontra atualmente. Jogando bola num depósito
de munições de Bagdá? Tocando um sambinha num aeroporto
militar? Torrando seu dinheiro num palácio de Saddam Hussein? O
segundo escudo humano brasileiro foi um certo Glauco Caruso. Consultei
um motor de busca da internet e o único Glauco Caruso que apareceu
foi o ex-baterista do grupo paranaense Júpiter Maça, que
depois formou outro grupo, o Dr. Spock Combo. Um homônimo ou é
ele mesmo?
Agora surgiu um terceiro escudo humano brasileiro. Ou melhor, metade brasileiro,
pois tem passaporte espanhol. Chama-se Ignacio Cano e é professor
de sociologia da Uerj. Escreveu um artigo para justificar sua posição.
Antes de tudo, ele garante que "os restos de armas químicas e biológicas
que o Iraque possa ter não ameaçam hoje a ninguém".
Ele é contrário, portanto, não apenas aos bombardeios
americanos, mas também às inspeções da ONU,
já que, em sua opinião, Saddam Hussein deixou de representar
um perigo. A seguir, o professor Cano explica que "a iniciativa dos escudos
humanos é uma forma de compartilhar os riscos aos quais a população
civil iraquiana será submetida". Ou seja, é como se o professor
Cano subisse um morro do Rio de Janeiro e se entregasse voluntariamente
como refém de um bando de seqüestradores, por solidariedade
com suas vítimas.
Aparentemente, não há um único brasileiro que apóie
uma intervenção militar contra o Iraque. Eu sempre digo
que, se todos os brasileiros concordam com algo, significa que esse algo
só pode estar muito errado. Até o time do Botafogo se manifestou
contra a guerra, antes do jogo com o Olaria. Até Paulo Coelho atacou
Bush, qualificando-se como um "escritor brasileiro que ganha a vida numa
peleja diária com as palavras". O placar da peleja está
largamente a favor das palavras, claro. Não entendo os brasileiros.
Na última semana, quatro estimados colunistas de O Globo
vaticinaram que uma guerra contra o Iraque acarretaria o fim do império
americano. Não é justamente isso que eles querem? De acordo
com o professor Cano, "ditaduras há, muitas, e não vão
ser bombas que vão mudar esse quadro". Por que não? Se as
bombas derrubaram um monstro como Milosevic, também podem derrubar
um monstro como Saddam.
Como demonstrou a ex-Iugoslávia, existem situações
que só podem ser resolvidas com intervenções externas.
Bem mais proveitoso do que tentar isolar os Estados Unidos, como está
acontecendo agora, seria negociar contrapartidas. A primeira: garantir
uma transição minimamente democrática no Iraque.
A segunda: mandar uma força internacional para a fronteira entre
Israel e os Territórios Ocupados, com a missão de impedir
os ataques terroristas palestinos e as incursões militares israelenses,
criando as bases para a separação definitiva dos dois países.
O Brasil, evidentemente, tem um papel de fundamental importância
para a solução desses conflitos mundiais. Sobretudo nos
jogos do Olaria.
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