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Edição 1 790 - 19 de fevereiro de 2003
Diogo Mainardi

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O Olaria somos nós

"Aparentemente, não há um único
brasileiro que apóie uma intervenção
no Iraque. Se todos os brasileiros concordam com algo, significa
que
esse algo só pode estar errado"

O primeiro escudo humano brasileiro foi o gaúcho Flávio Ravara. Viajou para o Iraque levando, na bagagem, uma camisa da seleção, um violão e um cartão de crédito. Eu gostaria de saber onde ele se encontra atualmente. Jogando bola num depósito de munições de Bagdá? Tocando um sambinha num aeroporto militar? Torrando seu dinheiro num palácio de Saddam Hussein? O segundo escudo humano brasileiro foi um certo Glauco Caruso. Consultei um motor de busca da internet e o único Glauco Caruso que apareceu foi o ex-baterista do grupo paranaense Júpiter Maça, que depois formou outro grupo, o Dr. Spock Combo. Um homônimo ou é ele mesmo?

Agora surgiu um terceiro escudo humano brasileiro. Ou melhor, metade brasileiro, pois tem passaporte espanhol. Chama-se Ignacio Cano e é professor de sociologia da Uerj. Escreveu um artigo para justificar sua posição. Antes de tudo, ele garante que "os restos de armas químicas e biológicas que o Iraque possa ter não ameaçam hoje a ninguém". Ele é contrário, portanto, não apenas aos bombardeios americanos, mas também às inspeções da ONU, já que, em sua opinião, Saddam Hussein deixou de representar um perigo. A seguir, o professor Cano explica que "a iniciativa dos escudos humanos é uma forma de compartilhar os riscos aos quais a população civil iraquiana será submetida". Ou seja, é como se o professor Cano subisse um morro do Rio de Janeiro e se entregasse voluntariamente como refém de um bando de seqüestradores, por solidariedade com suas vítimas.

Aparentemente, não há um único brasileiro que apóie uma intervenção militar contra o Iraque. Eu sempre digo que, se todos os brasileiros concordam com algo, significa que esse algo só pode estar muito errado. Até o time do Botafogo se manifestou contra a guerra, antes do jogo com o Olaria. Até Paulo Coelho atacou Bush, qualificando-se como um "escritor brasileiro que ganha a vida numa peleja diária com as palavras". O placar da peleja está largamente a favor das palavras, claro. Não entendo os brasileiros. Na última semana, quatro estimados colunistas de O Globo vaticinaram que uma guerra contra o Iraque acarretaria o fim do império americano. Não é justamente isso que eles querem? De acordo com o professor Cano, "ditaduras há, muitas, e não vão ser bombas que vão mudar esse quadro". Por que não? Se as bombas derrubaram um monstro como Milosevic, também podem derrubar um monstro como Saddam.

Como demonstrou a ex-Iugoslávia, existem situações que só podem ser resolvidas com intervenções externas. Bem mais proveitoso do que tentar isolar os Estados Unidos, como está acontecendo agora, seria negociar contrapartidas. A primeira: garantir uma transição minimamente democrática no Iraque. A segunda: mandar uma força internacional para a fronteira entre Israel e os Territórios Ocupados, com a missão de impedir os ataques terroristas palestinos e as incursões militares israelenses, criando as bases para a separação definitiva dos dois países. O Brasil, evidentemente, tem um papel de fundamental importância para a solução desses conflitos mundiais. Sobretudo nos jogos do Olaria.

 
 
   
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