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"Não vamos pregar aos convertidos. É mais importante alcançar a massa de milhões de novos sócios potenciais do que ter puristas ao nosso lado" |
O alemão Gerd Leipold tem doutorado em oceanografia, mas toda sua vida profissional foi em defesa do meio ambiente. Principal executivo do Greenpeace, a mais conhecida organização ambientalista, com sede em quarenta países e 2,8 milhões de militantes, ele luta na trincheira verde há mais de duas décadas. Foi por cinco anos o principal dirigente da campanha feita pela entidade para o desarmamento nuclear dos países que possuem arsenais atômicos. Para protestar contra os testes de armas nucleares, ele voou num balão sobre o Muro de Berlim, invadindo o então território alemão oriental, em 1983. Dez anos depois, deixou o Greenpeace e fundou uma consultoria especializada em assessorar ONGs. Teve como clientes algumas gigantes do ramo, como a Cruz Vermelha Internacional. Voltou para o Greenpeace dois anos atrás. Dessa vez como comandante-em-chefe. Aos 52 anos, divorciado e com dois filhos, Leipold tem como objetivo expandir ainda mais a entidade.
Veja O meio ambiente perdeu o lugar para o combate à
pobreza na lista de prioridades da comunidade internacional?
Leipold
Prefiro dizer que o meio ambiente se tornou parte da agenda de desenvolvimento.
O tema não ocupa mais as manchetes como há dez anos, mas
agora faz parte da política tradicional. Há uma década
havia poucos ministros do meio ambiente. Hoje não creio que exista
algum país que não tenha o seu. Acredito que precisamos
diferenciar o meio ambiente que pauta a mídia daquele que realmente
influencia a política, a economia e o cotidiano da população.
Na verdade, o meio ambiente ocupa um espaço maior no imaginário
das pessoas. Nos últimos cinco anos o Greenpeace tem crescido muito.
Isso mostra que o interesse público pelo meio ambiente não
diminuiu.
Veja No início dos anos 90 havia um slogan no Brasil
que dizia "Salve as baleias, mas não seja um chato". Por que o
movimento ambientalista ficou com essa fama de xiita?
Leipold
Espero
sinceramente que não tenhamos mais essa fama de gente chata. Sobre
o Greenpeace, posso dizer que somos muito envolvidos no que fazemos. É
difícil lidar com o meio ambiente de maneira leve. Admito que poderíamos
ser mais relaxados no dia-a-dia, mas garanto que dentro da organização,
e principalmente quando fazemos nossos protestos, há muita diversão,
muita alegria e muitas risadas, especialmente depois.
Veja
Paul Watson, um dos fundadores do Greenpeace, disse recentemente
que havia criado um "grande monstro verde", uma corporação
burocrática mais preocupada em arrecadar dinheiro do que em salvar
a Terra. Como o senhor vê esse tipo de crítica?
Leipold
Não
acho que ele conheça o Greenpeace atual. Ele foi um dos primeiros
membros da ONG e escolheu um caminho diferente. Arrecadar dinheiro pode
soar errado, mas significa conseguir o maior número de pessoas
possível para sustentar a organização. Temos 2,8
milhões de pessoas em todo o mundo que nos apóiam, e desejamos
mais. Não queremos pregar aos convertidos. É mais importante
alcançar a massa de milhões do que ter puristas ao nosso
lado. Watson é um purista, e qualquer tipo de meio-termo o enfurece.
Temos responsabilidade de trazer milhões de pessoas para o nosso
lado, o do meio ambiente.
Veja
Quanto o Greenpeace fatura por ano?
Leipold
Tivemos uma renda de 157 milhões de euros no ano passado. Esse
dinheiro é gasto nas campanhas, na comunicação com
nossos sócios, na captação de recursos e com o trabalho
administrativo. Uma de nossas fontes mais importantes de recursos é
o que chamamos de diálogo direto: jovens abordam pessoas nas ruas,
explicam o trabalho do Greenpeace e pedem que elas se tornem membros.
É um pouco parecido com uma empresa, que tem metas para aumentar
seu faturamento. Queremos crescer, mas nem sempre podemos controlar os
fatores externos que influenciam nossa captação de recursos,
como crises econômicas ou catástrofes. Comparando com as
grandes corporações, 157 milhões de euros é
uma soma pequena, mas ainda sim é considerável.
Veja O Greenpeace se opõe ao consumo de alimentos
geneticamente modificados, mesmo em questões humanitárias,
como a fome na África. Mas, se o senhor tivesse um filho passando
fome, negaria a ele comida que fosse transgênica?
Leipold
Claro que, em se tratando dos meus próprios filhos, eu não
os deixaria passar fome em nenhuma ocasião. Isso não quer
dizer que apoiaria alimentos transgênicos nesse caso, ou em qualquer
outro. A proporção de alimentos transgênicos disponíveis
ainda é muito pequena para poder dar conta do problema da fome.
Países muito pobres na África, onde estão as principais
vítimas, não têm alimentos transgênicos à
disposição logo ali na esquina. É um bom exemplo
dos métodos brutais dos Estados Unidos para empurrar seus transgênicos
garganta abaixo das pessoas, aproveitando a pobreza e a fome.
Veja Sua organização foi importante no combate
ao comércio ilegal de mogno no Brasil, investigando e denunciando
madeireiras clandestinas. O senhor acredita que seja esse o papel das
ONGs, substituir o Estado?
Leipold
Na
Amazônia é necessário fazer com que as leis sejam
cumpridas. Nosso trabalho com as autoridades brasileiras ajudou nesse
sentido. Na Europa questionou-se se o papel do Greenpeace era trabalhar
em cooperação com a polícia e as autoridades. Mas
era o melhor que podíamos fazer na Amazônia, e também
um reconhecimento de que a região não pode ser protegida
sem a participação do governo. O Brasil é um país
grande, e espero que consiga um dia efetivamente patrulhar a floresta.
Mas, enquanto isso não acontece, fazemos o que está a nosso
alcance para fornecer informações e cooperar no que for
possível.
Veja
Apenas 8% da madeira extraída no Brasil é exportada.
Nesse sentido, não é perda de tempo a campanha do Greenpeace
contra o consumo de mogno brasileiro no Primeiro Mundo?
Leipold
O
importante é que criamos uma consciência geral do problema,
e com ela um mercado para madeira certificada. Por causa de nossas ações,
agora é economicamente viável extrair madeira amazônica
de forma responsável. É preciso que haja uma demanda para
essa atividade, especialmente nos Estados Unidos e na Europa. Também
tivemos um impacto em outras áreas madeireiras, como a província
canadense da Colúmbia Britânica, a Finlândia e a Rússia.
Isso é o que nossa organização faz de melhor, e podemos
aproveitar o fato de que estamos em todos os países e nos locais
onde acontece a destruição ambiental. Podemos mudar os hábitos
dos consumidores e influenciar a indústria. Digo com toda a tranqüilidade
que somos a organização que mais influência tem sobre
a indústria da madeira. Algumas empresas nos odeiam, outras nos
vêem como uma oportunidade de fazer um trabalho mais sustentável.
Veja Há quem tema que a presença de ONGs internacionais
na Amazônia ameace a soberania brasileira. Como o senhor responde
a isso?
Leipold
Temos,
sim, uma representação na Amazônia, mas a grande maioria
de nossa equipe é composta de brasileiros. A Amazônia é
foco de interesse internacional, e é muito interessante para o
Brasil que o mundo preste atenção na floresta. Não
é uma questão de outros quererem tomá-la. A questão
é preservar a floresta para o futuro. Já a biopirataria
é um assunto sério. Empresas estrangeiras patenteiam os
recursos naturais amazônicos e aproveitam o conhecimento de povos
indígenas sem lhes pagar nada por isso. O Brasil e a comunidade
internacional deveriam se concentrar mais nesse problema do que nas atividades
das ONGs internacionais.
Veja Muitas ONGs, principalmente no Brasil, dependem das
verbas governamentais dedicadas ao meio ambiente. Como elas podem ser
independentes se vivem do dinheiro do Estado?
Leipold
Não devemos generalizar. Existe um número grande de ONGs
que são prestadoras de serviços ambientais ou de saúde,
e provavelmente o fazem de maneira mais rápida e barata que serviços
governamentais. Elas não estão envolvidas em disputas políticas
com o governo. Mas, obviamente, se você está envolvido em
questões políticas ou de regulamentação, é
questionável receber dinheiro de quem se quer criticar. É
possível argumentar que ser financiado por doações
individuais, como é o caso do Greenpeace, é mais fácil
em países ricos ou que têm tradição filantrópica.
Reconheço que esse método não é fácil
para organizações menores.
Veja Como é possível convencer as pessoas a
abrir mão dos confortos da vida moderna e adotar um padrão
menos prejudicial ao meio ambiente?
Leipold
É muito mais uma questão de escolha individual. E influenciar
isso não é fácil, admito. Reconhecemos que é
necessária uma grande mudança de estilo de vida. As pessoas
estão acostumadas com luxos, como frutas fora de época importadas
do outro canto do planeta à custa do transporte aéreo, que
é altamente poluente. O que defendemos nesse caso é uma
maior taxação do setor de transporte, para que o dano ao
meio ambiente seja repassado ao consumidor.
Veja O Greenpeace comprou ações de uma de suas
arquiinimigas, o grupo petroleiro Shell. Por quê?
Leipold
Simplesmente para poder ter acesso e se manifestar nas reuniões
de acionistas da companhia. Já fizemos isso em várias ocasiões.
Se compramos ações, compramos apenas o número suficiente
para fazer parte do grupo de sócios. Não especulamos, temos
regulamentos internos que impedem essa prática. Acontece às
vezes de recebermos uma doação em forma de ações,
e elas são vendidas. Não queremos investir no mercado de
ações e ser dependentes das flutuações desse
mercado.
Veja Qual é a atual filosofia de suas campanhas?
Leipold
Usar as armas de sempre: ações de impacto e suas repercussões.
Só queremos deixar de lado discursos extremistas, do tipo "ou você
está conosco ou está contra nós". Nosso objetivo
é levantar as questões e encorajar as pessoas a pensar no
assunto, em vez de oferecer, prontos, o problema e a solução.
Cada um tem de decidir por si mesmo como vai se posicionar. Somos uma
organização radical em vários aspectos, mas não
achamos que o radicalismo por si só valha algo. Queremos mudanças,
porém isso não quer dizer que os métodos mais radicais
são os mais indicados para isso.
Veja Como é a relação do Greenpeace
com o mundo corporativo?
Leipold
Queremos nos aproximar das grandes corporações e influenciá-las,
porque elas são muito poderosas no cenário internacional
e têm o potencial de causar muitos danos ambientais. Nossa força
para influenciar políticos e empresas reside no fato de que há
2,8 milhões de pessoas nos apoiando. Conversamos, aprendemos, mas
definitivamente não vamos receber dinheiro das corporações.
Não temos a menor intenção de mudar essa postura.
Isso inclusive torna a convivência mais fácil, porque elas
sabem que não temos interesses financeiros. Podemos forçá-las
a mudar sem medo de perder nossa independência.
Veja Vocês não recebem doações
nem se a empresa for declaradamente verde? Anita Roddick, dona da fábrica
de cosméticos inglesa The Body Shop, já declarou em uma
entrevista a VEJA ter feito doações ao Greenpeace
em nome da companhia dela.
Leipold
Tenho
100% de certeza de que as doações de Anita vieram de sua
fortuna pessoal. Possuímos uma campanha de energia renovável
com a The Body Shop, mas ela não é nem financiada pela empresa,
apenas é divulgada por suas lojas. Se recebemos doações
acima de determinado valor, checamos sua procedência. Houve casos
em que rejeitamos doações porque vieram de companhias privadas.
Veja O senhor diz que "energia nuclear segura é um
mito". Mas o que o senhor sugeriria a um país como o Japão,
que não tem carvão, petróleo, rios nem espaço
suficiente para captar energia solar em larga escala e depende de energia
nuclear para ter luz elétrica?
Leipold
Os
japoneses também não têm urânio, que é
importado para ser usado no programa nuclear. Eles podem investir em energia
eólica, gerada por moinhos de vento, especialmente em plataformas
em alto-mar. Há também potencial para energia geotérmica,
retirada de fontes de calor do subsolo terrestre, e solar. Em um país
altamente industrializado como o Japão, uma nova alternativa pode
ser simplesmente melhor eficiência no uso da energia já disponível.
Há muito que fazer. Estamos finalizando um estudo de como o Japão
pode satisfazer suas necessidades energéticas sem ter de apelar
para energia nuclear ou combustíveis fósseis. Vamos apresentá-lo
ao governo japonês em breve.
Veja Roberto Amaral, o novo ministro da Ciência e Tecnologia
brasileiro, mostrou-se a favor da pesquisa nuclear. O que o senhor achou
disso?
Leipold
Ouvi falar da declaração do ministro. Atualmente, a energia
nuclear provou ser uma tecnologia cara, perigosa. E, em um tempo em que
o mundo se preocupa com o terrorismo, parece particularmente irresponsável
pensar em expandir um programa nuclear.
Veja E a ameaça nuclear que a Coréia do Norte
vem mostrando nas últimas semanas?
Leipold
Só
confirma o que nós sempre dizemos: não há separação
em uso civil e militar de energia nuclear. Sempre existe o perigo de que
a tecnologia civil seja usada para armas nucleares. Somos contra qualquer
país utilizar energia nuclear. Isso inclui tanto a Coréia
do Norte quanto os Estados Unidos. Os EUA vêm fazendo uma política
de dois pesos e duas medidas, deixando que alguns países tenham
armas nucleares e outros não. Está nas mãos dos Estados
Unidos, como a maior potência nuclear, acabar com as armas nucleares
e começar seriamente o desarmamento.
Veja Pelo seu discurso, parece que os Estados Unidos são
o grande vilão do meio ambiente.
Leipold
Não
necessariamente. O problema é que o presidente George W. Bush não
se importa com o meio ambiente, como se pôde comprovar pela sua
recusa em assinar o Protocolo de Kioto. Outros presidentes foram mais
progressistas. O governo americano foi o primeiro a abrir espaço
para as ONGs em suas delegações internacionais. Também
introduziu os catalisadores no escapamento dos automóveis. Infelizmente,
o bem que isso fez foi anulado pelo maior número de carros nas
cidades americanas e pela moda dos utilitários esportivos, que
gastam muito mais gasolina.
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