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Edição 1 790 - 19 de fevereiro de 2003
Entrevista: Gerd Leipold

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Não somos
ecochatos

Diretor do Greenpeace quer livrar
a entidade da fama de xiita, atrair
militantes moderados e melhorar
a arrecadação

 

Natasha Madov

 
Greenpeace

"Não vamos pregar aos convertidos. É mais importante alcançar a massa de milhões de novos sócios potenciais do que ter puristas ao nosso lado"

O alemão Gerd Leipold tem doutorado em oceanografia, mas toda sua vida profissional foi em defesa do meio ambiente. Principal executivo do Greenpeace, a mais conhecida organização ambientalista, com sede em quarenta países e 2,8 milhões de militantes, ele luta na trincheira verde há mais de duas décadas. Foi por cinco anos o principal dirigente da campanha feita pela entidade para o desarmamento nuclear dos países que possuem arsenais atômicos. Para protestar contra os testes de armas nucleares, ele voou num balão sobre o Muro de Berlim, invadindo o então território alemão oriental, em 1983. Dez anos depois, deixou o Greenpeace e fundou uma consultoria especializada em assessorar ONGs. Teve como clientes algumas gigantes do ramo, como a Cruz Vermelha Internacional. Voltou para o Greenpeace dois anos atrás. Dessa vez como comandante-em-chefe. Aos 52 anos, divorciado e com dois filhos, Leipold tem como objetivo expandir ainda mais a entidade.

Veja – O meio ambiente perdeu o lugar para o combate à pobreza na lista de prioridades da comunidade internacional?
Leipold – Prefiro dizer que o meio ambiente se tornou parte da agenda de desenvolvimento. O tema não ocupa mais as manchetes como há dez anos, mas agora faz parte da política tradicional. Há uma década havia poucos ministros do meio ambiente. Hoje não creio que exista algum país que não tenha o seu. Acredito que precisamos diferenciar o meio ambiente que pauta a mídia daquele que realmente influencia a política, a economia e o cotidiano da população. Na verdade, o meio ambiente ocupa um espaço maior no imaginário das pessoas. Nos últimos cinco anos o Greenpeace tem crescido muito. Isso mostra que o interesse público pelo meio ambiente não diminuiu.

Veja – No início dos anos 90 havia um slogan no Brasil que dizia "Salve as baleias, mas não seja um chato". Por que o movimento ambientalista ficou com essa fama de xiita?
Leipold – Espero sinceramente que não tenhamos mais essa fama de gente chata. Sobre o Greenpeace, posso dizer que somos muito envolvidos no que fazemos. É difícil lidar com o meio ambiente de maneira leve. Admito que poderíamos ser mais relaxados no dia-a-dia, mas garanto que dentro da organização, e principalmente quando fazemos nossos protestos, há muita diversão, muita alegria e muitas risadas, especialmente depois.

Veja – Paul Watson, um dos fundadores do Greenpeace, disse recentemente que havia criado um "grande monstro verde", uma corporação burocrática mais preocupada em arrecadar dinheiro do que em salvar a Terra. Como o senhor vê esse tipo de crítica?
Leipold – Não acho que ele conheça o Greenpeace atual. Ele foi um dos primeiros membros da ONG e escolheu um caminho diferente. Arrecadar dinheiro pode soar errado, mas significa conseguir o maior número de pessoas possível para sustentar a organização. Temos 2,8 milhões de pessoas em todo o mundo que nos apóiam, e desejamos mais. Não queremos pregar aos convertidos. É mais importante alcançar a massa de milhões do que ter puristas ao nosso lado. Watson é um purista, e qualquer tipo de meio-termo o enfurece. Temos responsabilidade de trazer milhões de pessoas para o nosso lado, o do meio ambiente.

Veja – Quanto o Greenpeace fatura por ano?
Leipold – Tivemos uma renda de 157 milhões de euros no ano passado. Esse dinheiro é gasto nas campanhas, na comunicação com nossos sócios, na captação de recursos e com o trabalho administrativo. Uma de nossas fontes mais importantes de recursos é o que chamamos de diálogo direto: jovens abordam pessoas nas ruas, explicam o trabalho do Greenpeace e pedem que elas se tornem membros. É um pouco parecido com uma empresa, que tem metas para aumentar seu faturamento. Queremos crescer, mas nem sempre podemos controlar os fatores externos que influenciam nossa captação de recursos, como crises econômicas ou catástrofes. Comparando com as grandes corporações, 157 milhões de euros é uma soma pequena, mas ainda sim é considerável.

Veja – O Greenpeace se opõe ao consumo de alimentos geneticamente modificados, mesmo em questões humanitárias, como a fome na África. Mas, se o senhor tivesse um filho passando fome, negaria a ele comida que fosse transgênica?
Leipold – Claro que, em se tratando dos meus próprios filhos, eu não os deixaria passar fome em nenhuma ocasião. Isso não quer dizer que apoiaria alimentos transgênicos nesse caso, ou em qualquer outro. A proporção de alimentos transgênicos disponíveis ainda é muito pequena para poder dar conta do problema da fome. Países muito pobres na África, onde estão as principais vítimas, não têm alimentos transgênicos à disposição logo ali na esquina. É um bom exemplo dos métodos brutais dos Estados Unidos para empurrar seus transgênicos garganta abaixo das pessoas, aproveitando a pobreza e a fome.

Veja – Sua organização foi importante no combate ao comércio ilegal de mogno no Brasil, investigando e denunciando madeireiras clandestinas. O senhor acredita que seja esse o papel das ONGs, substituir o Estado?
Leipold – Na Amazônia é necessário fazer com que as leis sejam cumpridas. Nosso trabalho com as autoridades brasileiras ajudou nesse sentido. Na Europa questionou-se se o papel do Greenpeace era trabalhar em cooperação com a polícia e as autoridades. Mas era o melhor que podíamos fazer na Amazônia, e também um reconhecimento de que a região não pode ser protegida sem a participação do governo. O Brasil é um país grande, e espero que consiga um dia efetivamente patrulhar a floresta. Mas, enquanto isso não acontece, fazemos o que está a nosso alcance para fornecer informações e cooperar no que for possível.

Veja – Apenas 8% da madeira extraída no Brasil é exportada. Nesse sentido, não é perda de tempo a campanha do Greenpeace contra o consumo de mogno brasileiro no Primeiro Mundo?
Leipold – O importante é que criamos uma consciência geral do problema, e com ela um mercado para madeira certificada. Por causa de nossas ações, agora é economicamente viável extrair madeira amazônica de forma responsável. É preciso que haja uma demanda para essa atividade, especialmente nos Estados Unidos e na Europa. Também tivemos um impacto em outras áreas madeireiras, como a província canadense da Colúmbia Britânica, a Finlândia e a Rússia. Isso é o que nossa organização faz de melhor, e podemos aproveitar o fato de que estamos em todos os países e nos locais onde acontece a destruição ambiental. Podemos mudar os hábitos dos consumidores e influenciar a indústria. Digo com toda a tranqüilidade que somos a organização que mais influência tem sobre a indústria da madeira. Algumas empresas nos odeiam, outras nos vêem como uma oportunidade de fazer um trabalho mais sustentável.

Veja – Há quem tema que a presença de ONGs internacionais na Amazônia ameace a soberania brasileira. Como o senhor responde a isso?
Leipold – Temos, sim, uma representação na Amazônia, mas a grande maioria de nossa equipe é composta de brasileiros. A Amazônia é foco de interesse internacional, e é muito interessante para o Brasil que o mundo preste atenção na floresta. Não é uma questão de outros quererem tomá-la. A questão é preservar a floresta para o futuro. Já a biopirataria é um assunto sério. Empresas estrangeiras patenteiam os recursos naturais amazônicos e aproveitam o conhecimento de povos indígenas sem lhes pagar nada por isso. O Brasil e a comunidade internacional deveriam se concentrar mais nesse problema do que nas atividades das ONGs internacionais.

Veja – Muitas ONGs, principalmente no Brasil, dependem das verbas governamentais dedicadas ao meio ambiente. Como elas podem ser independentes se vivem do dinheiro do Estado?
Leipold – Não devemos generalizar. Existe um número grande de ONGs que são prestadoras de serviços ambientais ou de saúde, e provavelmente o fazem de maneira mais rápida e barata que serviços governamentais. Elas não estão envolvidas em disputas políticas com o governo. Mas, obviamente, se você está envolvido em questões políticas ou de regulamentação, é questionável receber dinheiro de quem se quer criticar. É possível argumentar que ser financiado por doações individuais, como é o caso do Greenpeace, é mais fácil em países ricos ou que têm tradição filantrópica. Reconheço que esse método não é fácil para organizações menores.

Veja – Como é possível convencer as pessoas a abrir mão dos confortos da vida moderna e adotar um padrão menos prejudicial ao meio ambiente?
Leipold – É muito mais uma questão de escolha individual. E influenciar isso não é fácil, admito. Reconhecemos que é necessária uma grande mudança de estilo de vida. As pessoas estão acostumadas com luxos, como frutas fora de época importadas do outro canto do planeta à custa do transporte aéreo, que é altamente poluente. O que defendemos nesse caso é uma maior taxação do setor de transporte, para que o dano ao meio ambiente seja repassado ao consumidor.

Veja – O Greenpeace comprou ações de uma de suas arquiinimigas, o grupo petroleiro Shell. Por quê?
Leipold – Simplesmente para poder ter acesso e se manifestar nas reuniões de acionistas da companhia. Já fizemos isso em várias ocasiões. Se compramos ações, compramos apenas o número suficiente para fazer parte do grupo de sócios. Não especulamos, temos regulamentos internos que impedem essa prática. Acontece às vezes de recebermos uma doação em forma de ações, e elas são vendidas. Não queremos investir no mercado de ações e ser dependentes das flutuações desse mercado.

Veja – Qual é a atual filosofia de suas campanhas?
Leipold – Usar as armas de sempre: ações de impacto e suas repercussões. Só queremos deixar de lado discursos extremistas, do tipo "ou você está conosco ou está contra nós". Nosso objetivo é levantar as questões e encorajar as pessoas a pensar no assunto, em vez de oferecer, prontos, o problema e a solução. Cada um tem de decidir por si mesmo como vai se posicionar. Somos uma organização radical em vários aspectos, mas não achamos que o radicalismo por si só valha algo. Queremos mudanças, porém isso não quer dizer que os métodos mais radicais são os mais indicados para isso.

Veja – Como é a relação do Greenpeace com o mundo corporativo?
Leipold – Queremos nos aproximar das grandes corporações e influenciá-las, porque elas são muito poderosas no cenário internacional e têm o potencial de causar muitos danos ambientais. Nossa força para influenciar políticos e empresas reside no fato de que há 2,8 milhões de pessoas nos apoiando. Conversamos, aprendemos, mas definitivamente não vamos receber dinheiro das corporações. Não temos a menor intenção de mudar essa postura. Isso inclusive torna a convivência mais fácil, porque elas sabem que não temos interesses financeiros. Podemos forçá-las a mudar sem medo de perder nossa independência.

Veja – Vocês não recebem doações nem se a empresa for declaradamente verde? Anita Roddick, dona da fábrica de cosméticos inglesa The Body Shop, já declarou em uma entrevista a VEJA ter feito doações ao Greenpeace em nome da companhia dela.
Leipold – Tenho 100% de certeza de que as doações de Anita vieram de sua fortuna pessoal. Possuímos uma campanha de energia renovável com a The Body Shop, mas ela não é nem financiada pela empresa, apenas é divulgada por suas lojas. Se recebemos doações acima de determinado valor, checamos sua procedência. Houve casos em que rejeitamos doações porque vieram de companhias privadas.

Veja – O senhor diz que "energia nuclear segura é um mito". Mas o que o senhor sugeriria a um país como o Japão, que não tem carvão, petróleo, rios nem espaço suficiente para captar energia solar em larga escala e depende de energia nuclear para ter luz elétrica?
Leipold – Os japoneses também não têm urânio, que é importado para ser usado no programa nuclear. Eles podem investir em energia eólica, gerada por moinhos de vento, especialmente em plataformas em alto-mar. Há também potencial para energia geotérmica, retirada de fontes de calor do subsolo terrestre, e solar. Em um país altamente industrializado como o Japão, uma nova alternativa pode ser simplesmente melhor eficiência no uso da energia já disponível. Há muito que fazer. Estamos finalizando um estudo de como o Japão pode satisfazer suas necessidades energéticas sem ter de apelar para energia nuclear ou combustíveis fósseis. Vamos apresentá-lo ao governo japonês em breve.

Veja – Roberto Amaral, o novo ministro da Ciência e Tecnologia brasileiro, mostrou-se a favor da pesquisa nuclear. O que o senhor achou disso?
Leipold – Ouvi falar da declaração do ministro. Atualmente, a energia nuclear provou ser uma tecnologia cara, perigosa. E, em um tempo em que o mundo se preocupa com o terrorismo, parece particularmente irresponsável pensar em expandir um programa nuclear.

Veja – E a ameaça nuclear que a Coréia do Norte vem mostrando nas últimas semanas?
Leipold – Só confirma o que nós sempre dizemos: não há separação em uso civil e militar de energia nuclear. Sempre existe o perigo de que a tecnologia civil seja usada para armas nucleares. Somos contra qualquer país utilizar energia nuclear. Isso inclui tanto a Coréia do Norte quanto os Estados Unidos. Os EUA vêm fazendo uma política de dois pesos e duas medidas, deixando que alguns países tenham armas nucleares e outros não. Está nas mãos dos Estados Unidos, como a maior potência nuclear, acabar com as armas nucleares e começar seriamente o desarmamento.

Veja – Pelo seu discurso, parece que os Estados Unidos são o grande vilão do meio ambiente.
Leipold – Não necessariamente. O problema é que o presidente George W. Bush não se importa com o meio ambiente, como se pôde comprovar pela sua recusa em assinar o Protocolo de Kioto. Outros presidentes foram mais progressistas. O governo americano foi o primeiro a abrir espaço para as ONGs em suas delegações internacionais. Também introduziu os catalisadores no escapamento dos automóveis. Infelizmente, o bem que isso fez foi anulado pelo maior número de carros nas cidades americanas e pela moda dos utilitários esportivos, que gastam muito mais gasolina.

 
 
   
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