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Gustavo
Franco
Sobre
Orçamento
e macumba
"Dadas
as dificuldades em resolver
o problema
fiscal
brasileiro, não vejo
por que recusar a
ajuda dos orixás"
Ilustração Ale Setti
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Nesta
última semana o novo governo fez uma série de anúncios
que, em conjunto, podem ser vistos como o primeiro pacote fiscal da nova
administração. Os propósitos parecem nobres, inclusive
à luz das declarações do secretário Marcos
Lisboa, para quem a disciplina fiscal não iria ter mais "macumba".
Mas, com o devido respeito ao candomblé, que o ex-presidente FHC
sempre dizia que era parte integrante, ainda que minoritária, das
políticas públicas no Brasil, não está muito
claro que os anúncios do governo estejam inteiramente livres de
algum sincretismo.
Com efeito, o mundo orçamentário é de extrema complexidade,
nele estão presentes divindades poderosas, e sua ligação
com o mundo real nem sempre é bem compreendida. Em tese, parece
simples: o Orçamento da União consiste de estimativas para
receitas, e autorizações para despesas, tudo isso feito
com pelo menos um ano de anterioridade ao exercício fiscal. Contudo,
quando o Orçamento começa a ser executado, o mundo pode
ter-se afastado um bocado de onde estava quando os planos foram feitos.
O Orçamento, no fundo, é um plano, uma tentativa de listar
o maior número de desejos (a despesa) e fazê-los consistentes
com as possibilidades (a receita). Historicamente, verifica-se que os
desejos são imensamente maiores que as possibilidades, e por isso
o Orçamento é mais sonho que plano. Com efeito, exceto pelas
despesas com salários e juros, apenas metade do que é orçado
acaba sendo efetivamente gasta. E por isso mesmo um corte orçamentário,
conforme a sua direção, atinge apenas e tão-somente
o éter.
Muita tinta foi gasta com o tamanho dos cortes anunciados, que parecem
indicar que diversos ministérios foram depenados de forma impiedosa
pela área econômica. Essa seria uma vilania em tudo semelhante
ao que fazia o governo passado. Sabe-se, todavia, que boa parte dos cortes
atinge as emendas dos senhores parlamentares, que todo ano são
injetadas no Orçamento apenas para depois ser trucidadas, ou melhor,
contingenciadas pela área econômica. O massacre é
rotineiro, ocorre anualmente junto com as chuvas de verão. A experiência
mostra que, quando pedaços relevantes da carne são atingidos
pela tesoura, os gritos são ouvidos por toda a Esplanada, o que
não ocorreu neste ano e, na verdade, não é o que
geralmente se passa.
O que houve, tenha-se claro, não foi realmente corte, a despeito
da pompa do anúncio, mas contingenciamento: a dotação
orçamentária permanece, mas o Tesouro simplesmente não
libera o dinheiro. Os interessados na despesa permanecem em estado de
contínua vigilância, loucos para agradar ao governo e ver
seu dinheirinho liberado. Se o leitor pensou que o Orçamento é
uma máquina de controle político, ensejada pelo contingenciamento,
pensou certo, é isso mesmo.
Sabe-se, por outro lado, que a inflação melhora o resultado
do Orçamento, pois atinge desigualmente receitas e despesas. As
receitas são naturalmente indexadas, porque incidem sobre faturamento,
renda, valor adicionado, grandezas que crescem com a inflação.
Já as despesas são fixadas em termos nominais no Orçamento.
Se o governo nada faz, ocorre efeito semelhante ao da não-correção
da tabela do imposto de renda: o superávit aumenta.
Quanto exatamente o superávit aumentaria se fossem mantidas constantes
as despesas orçadas e as receitas crescessem em linha com a inflação?
Pouca gente sabe responder a essa pergunta. Mas o fato é que o
desempenho do superávit primário em 2002, que superou as
metas acertadas com o FMI, e também uma parte substancial do aumento
da meta para o superávit primário que o governo anunciou
são inestimáveis contribuições da velha senhora
para a melhoria das contas públicas, especialmente quando se isola
a correção monetária da dívida pública.
Esse é um truque tão antigo quanto a própria inflação,
e, tal como o contingenciamento, deve pertencer à categoria "macumba"
na linguagem do secretário Lisboa. Não obstante, dadas as
dificuldades em resolver o problema fiscal brasileiro, não vejo
por que recusar a ajuda dos orixás.
Gustavo
Franco é economista da PUC-RJ
e ex-presidente do Banco Central
(gfranco@palavra.com
www.gfranco.com.br)
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