Edição 1888 . 19 de janeiro de 2005

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Tales Alvarenga
Santo nome em vão

"É impressionante como as pessoas
incomodam Deus e todos aqueles santos
que se sentam nas nuvens com os mais
triviais pedidos. Se ele existir, acredito que
qualquer encomenda que
lhe façam, grande
ou pequena, tem exatamente a mesma
importância para ele. Nenhuma"

Segundo um ditado de vovó, pessoas inteligentes não discutem política, ideologia e religião. Estou começando a concordar com ela. Poucas vezes se teve a oportunidade de ouvir tanta teologia vulgar como a que banhou a mídia depois do tsunami que fez 160.000 mortos em cidades e vilarejos do Oceano Índico. O tom geral dos sábios que se manifestaram é mais ou menos o seguinte: se Deus existe e se é bom, como permite tragédias desse tipo? Resposta dada por eles próprios à indagação: Deus tem sempre alguma razão para agir, mas seus desígnios são insondáveis. Pode alguém que não seja totalmente mentecapto contentar-se com uma tolice dessas?

As pessoas religiosas se acostumaram a receber, geração após geração, por milhares de anos, uma doutrinação incansável e supersticiosa que as torna mentalmente aptas a acreditar que Deus (o Deus de qualquer religião) se interessa por todos os detalhes ínfimos de sua vida e está sempre pronto a interferir quando situações mais graves a perturbam. Se Deus (qualquer Deus) existe ou não existe, isso é uma questão que cada um deve resolver consigo próprio. O certo é que, se existir, Deus não interfere. Nunca.

Se interferisse, de acordo com os próprios códigos morais que estão na base de todas as religiões, crianças e jovens não morreriam a granel nos países mais pobres, vítimas de diarréia e de doenças transmissíveis que seriam debeladas com o empenho de um bocejo dos países ricos. Terroristas virariam estátuas de sal antes de deflagrar a bomba que matará inocentes. O assassinato sistemático, o comércio de drogas e armas, a exploração dos mais fracos – nada disso gozaria de tanta vitalidade se Deus interferisse. Para não sofrer demais com as calamidades, o mundo costuma passar ao lado sem vê-las. Não pode fazer isso num caso como o do tsunami. Mas muitos tsunamis de natureza diferente ocorrem no mundo todos os dias.

Tudo isso acontece desde o início dos tempos e Deus (qualquer um deles) fica lá de cima contemplando a cena com cara de paisagem. Vez por outra, um humano desesperado consegue arrancar um suposto milagre da divindade. E o folclore dessas exceções alimenta o fio inquebrantável da fé, que atravessa os séculos. Eu diria, amigos, que vocês não devem reclamar de Deus nas tragédias porque ele nada tem a ver com isso. Também não devem agradecer a ele graças alcançadas, como encontrar o camafeu que ganhei da titia ou ajudar o Betinho a passar no vestibular.

É impressionante como as pessoas incomodam Deus e todos aqueles santos que se sentam nas nuvens com os mais triviais pedidos. Se ele existir, acredito que qualquer encomenda que lhe façam, grande ou pequena, tem exatamente a mesma importância para ele. Nenhuma. Não porque, em teoria, a divindade se desinteresse. E sim porque, na prática, se Deus existe, seria incoerente da parte dele fazer discriminação contra ou a favor de suas criaturas. Não acredito em milagres. Se fossem possíveis, as crianças conseguiriam transformar o mundo numa infinita Disney World e os marmanjos criariam um país em que todas as mulheres se chamariam Carolina Dieckmann. Noventa milhões de Carolinas Dieckmann se locomovendo pelas calçadas brasileiras. Oh, meu Deus!

 
 
 
 
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