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Tales
Alvarenga Santo nome em vão
"É
impressionante como as pessoas incomodam Deus e todos aqueles santos que
se sentam nas nuvens com os mais triviais pedidos. Se ele existir, acredito
que qualquer encomenda que lhe
façam, grande ou pequena, tem exatamente a mesma importância
para ele. Nenhuma" Segundo um ditado de
vovó, pessoas inteligentes não discutem política, ideologia
e religião. Estou começando a concordar com ela. Poucas vezes se
teve a oportunidade de ouvir tanta teologia vulgar como a que banhou a mídia
depois do tsunami que fez 160.000 mortos em cidades e vilarejos do Oceano Índico.
O tom geral dos sábios que se manifestaram é mais ou menos o seguinte:
se Deus existe e se é bom, como permite tragédias desse tipo? Resposta
dada por eles próprios à indagação: Deus tem sempre
alguma razão para agir, mas seus desígnios são insondáveis.
Pode alguém que não seja totalmente mentecapto contentar-se com
uma tolice dessas? As pessoas religiosas se acostumaram
a receber, geração após geração, por milhares
de anos, uma doutrinação incansável e supersticiosa que as
torna mentalmente aptas a acreditar que Deus (o Deus de qualquer religião)
se interessa por todos os detalhes ínfimos de sua vida e está sempre
pronto a interferir quando situações mais graves a perturbam. Se
Deus (qualquer Deus) existe ou não existe, isso é uma questão
que cada um deve resolver consigo próprio. O certo é que, se existir,
Deus não interfere. Nunca. Se interferisse,
de acordo com os próprios códigos morais que estão na base
de todas as religiões, crianças e jovens não morreriam a
granel nos países mais pobres, vítimas de diarréia e de doenças
transmissíveis que seriam debeladas com o empenho de um bocejo dos países
ricos. Terroristas virariam estátuas de sal antes de deflagrar a bomba
que matará inocentes. O assassinato sistemático, o comércio
de drogas e armas, a exploração dos mais fracos nada disso
gozaria de tanta vitalidade se Deus interferisse. Para não sofrer demais
com as calamidades, o mundo costuma passar ao lado sem vê-las. Não
pode fazer isso num caso como o do tsunami. Mas muitos tsunamis de natureza diferente
ocorrem no mundo todos os dias. Tudo isso acontece
desde o início dos tempos e Deus (qualquer um deles) fica lá de
cima contemplando a cena com cara de paisagem. Vez por outra, um humano desesperado
consegue arrancar um suposto milagre da divindade. E o folclore dessas exceções
alimenta o fio inquebrantável da fé, que atravessa os séculos.
Eu diria, amigos, que vocês não devem reclamar de Deus nas tragédias
porque ele nada tem a ver com isso. Também não devem agradecer a
ele graças alcançadas, como encontrar o camafeu que ganhei da titia
ou ajudar o Betinho a passar no vestibular. É
impressionante como as pessoas incomodam Deus e todos aqueles santos que se sentam
nas nuvens com os mais triviais pedidos. Se ele existir, acredito que qualquer
encomenda que lhe façam, grande ou pequena, tem exatamente a mesma importância
para ele. Nenhuma. Não porque, em teoria, a divindade se desinteresse.
E sim porque, na prática, se Deus existe, seria incoerente da parte dele
fazer discriminação contra ou a favor de suas criaturas. Não
acredito em milagres. Se fossem possíveis, as crianças conseguiriam
transformar o mundo numa infinita Disney World e os marmanjos criariam um país
em que todas as mulheres se chamariam Carolina Dieckmann. Noventa milhões
de Carolinas Dieckmann se locomovendo pelas calçadas brasileiras. Oh, meu
Deus! |