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Ponto
de vista: Claudio de Moura Castro
No futebol, pode... "Ao
contrário do que ocorre no futebol, educadores populistas
não aceitam que na educação
se selecionem os alunos mais promissores e se dêem a eles
as condições para que desabrochem seus talentos"
Quantos clubes de futebol têm escolinhas
para garimpar e lapidar futuros jogadores. São muitas e merecedoras de
aplausos as escolinhas, pelo trabalho de identificar e preparar os jogadores que
nos fascinarão com a sua magia. A regra é simples: olheiros garimpam
talentos e trazem os melhores para o regime férreo da escolinha. Ao fim
das Olimpíadas de 2004, descobriu-se o óbvio: se fizéssemos
o mesmo em outros esportes, conquistaríamos mais medalhas.
Mas, curiosamente, educadores de estirpe populista não aceitam que se faça
o mesmo na educação, selecionando os alunos mais promissores e dando
a eles as condições propícias para que desabrochem seus talentos.
Um alto funcionário do MEC confessou candidamente que lhe dói o
coração ver alguém sendo premiado. Renegando a Olimpíada
de Matemática, porque só premia alguns poucos vencedores, pergunta
outro dignitário: e os pobres? Mas essa
é a pescaria que vai escolher aqueles que irão desempenhar funções
de liderança, receber responsabilidades maiores na administração
e impulsionar a ciência. São eles os que podem mudar o país.
Ilustração
Ale Setti
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De
fato, nenhuma nação séria se dá ao luxo de desperdiçar
talentos latentes. Todas têm mecanismos competentes para pescar os talentos
que se escondem nas camadas mais modestas da sociedade dos alunos mais
ricos, as próprias famílias cuidam. Nos Estados Unidos, há
as chamadas magnet schools e muitas universidades têm programas voltados
para alunos superdotados do ciclo básico. A Rússia sempre teve tais
programas. Artistas, atletas e os superdotados eram desviados para escolas especiais.
Cuba faz o mesmo.
Nossos governantes acham feio
tirar os pobres talentosos do meio em que vivem (os países ricos estão
errados, só nós estamos certos!). Mas, segundo os psicólogos
especializados, esse meio abafa os talentos. Os colegas obrigam muitos a fingir
mediocridade para não serem marginalizados. Outros enterram seu talento
por não serem socialmente aceitos. Os próprios pais não os
valorizam, e há os que preferem esmagar traços tão inquietantes.
Os professores recusam tais alunos, cruz-credo, por não saberem como lidar
com eles. Mas a doutrina dos gurus de plantão é que não se
pode tirá-los do seu meio (ficam assim mais acessíveis para ser
recrutados pelo narcotráfico, que gosta de talentos).
Acreditando que não há maior riqueza em um país do que cérebros
bem preparados, uma instituição filantrópica privada chamada
Ismart (www.ismart.org.br) criou programas para identificar superdotados pobres,
em escolas públicas, e prepará-los para ganhar uma bolsa de estudos
em boas escolas privadas do Rio e de São Paulo. O objetivo é que
passem em vestibulares de primeira linha. Com o aperfeiçoamento do programa,
os testes serão substituídos por "olheiros" acadêmicos, isto
é, professores treinados para observar os alunos, na busca dos que têm
os melhores prognósticos de uma carreira escolar destacada.
Pode haver maior justiça social do que permitir aos
bem-dotados pobres atingir os mesmos píncaros profissionais que os ricos
atingem? Pode haver maior desperdício e injustiça do que deixar
fenecer em escolas medíocres os futuros Einsteins e Bill Gates?
Pois bem, ao programa custou obter autorização para aplicar os testes
que identificam os mais talentosos nas escolas públicas do Rio. Em São
Paulo, foi negada. Não é politicamente correto identificar quem
são os superdotados. É palavra feia. Que persista a maldição
da mediocridade para todos. Burocratas até sugeriram que o programa fosse
transformado em um outro para alunos com dificuldades.
Infelizmente para o país, existem poucos programas como o Ismart. Embraer/Pitágoras
tem uma escola, há uma em Lavras e em Brasília há algo do
gênero. Podemos selecionar atletas, podemos garimpar diamantes brutos no
cascalho. Mas é pecado ideológico garimpar as inteligências
que brilham como diamantes. Essa é a noção de justiça
social de alguns dos nossos educadores. Dos superdotados, lapidaremos apenas os
ricos, pois o Estado não consegue impedir as ações paternas
para valorizá-los. Mas, no futebol, pode.
Claudio de Moura Castro é economista (claudiodmc@attglobal.net)
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