|
|
Ensaio:
Roberto
Pompeu de Toledo
Em Buenos Aires, como numa sessão
espírita
Página de
um caderno de viagem:
prazeres e
mistérios de uma visita
ao bairro da Recoleta
Outras cidades podem ter como
atração turística uma torre (a Eiffel), uma
ruína (o Coliseu) ou um morro (o Corcovado). Buenos Aires
tem como maior atração um cemitério. O pretensioso
Obelisco do centro da cidade, plantado, como pau-de-sebo, entre
ferozes correntes de tráfego, ainda dá o máximo
de si para cumprir o destino de cartão-postal. Mas de há
muito já foi superado pelo cemitério da Recoleta
ele e seu entorno como o canto mais querido e mais visitado
da cidade.
Há cemitérios que
atraem turistas também em outras partes. Em Paris, o cemitério
de Père-Lachaise é um prato cheio tanto para os amantes
da literatura, que se deleitarão entre os túmulos
de Balzac, Proust ou Apollinaire, quanto para os apreciadores da
canção popular, que se renderão a Edith Piaf,
ou os entusiastas dos amores impossíveis, que se prostrarão
diante do mausoléu com os supostos restos de Abelardo e Heloísa.
Em Londres, o túmulo de Karl Marx no Highgate Cemetery é
objeto de peregrinações tão reverentes quanto
as que demandam o de John Kennedy no cemitério de Arlington,
nos arredores de Washington. No Rio de Janeiro, o Cemitério
de São João Batista oferece ao visitante os túmulos
de personalidades da vida nacional que vão de Santos Dumont
a Chacrinha, de Villa-Lobos a Carmen Miranda.
Buenos Aires é um caso
único, porém a começar pelo fato de
que, enquanto a visita ao Père-Lachaise, em Paris, ao Highgate,
em Londres, ou ao São João Batista, no Rio, é
um item opcional, que o turista cumprirá se tiver tempo de
sobra ou interesse específico na matéria, a visita
à Recoleta, em Buenos Aires, é obrigatória.
O visitante que deseja usufruir a cidade será fatalmente
conduzido até lá, assim como o de Florença
é conduzido ao Ponte Vecchio ou o de Salvador ao Pelourinho.
A Recoleta apresenta-se ao visitante de forma mais marcante do que
o Rio da Prata. Não há como escapar. E isso por um
motivo simples: quem está em Buenos Aires para desfrutar
a cidade tem de ir até onde melhor se pode fazê-lo.
E onde melhor se pode fazê-lo é lá mesmo.
Também ao contrário
dos outros cemitérios citados, o da Recoleta tem a peculiaridade
de ter servido de pólo para o desenvolvimento, ao seu redor,
do bairro mais elegante da cidade, dotado, além de edifícios
residenciais, de um complexo de hotéis, restaurantes, cafés,
cinemas, centros culturais e shopping centers. Não é
que, acidentalmente, um bairro chique e cheio de atrativos tenha
surgido ao redor de um cemitério. Não houve nisso
nada de acidental. O bairro chique, com os hotéis, os restaurantes
e tudo o mais, surgiu por causa do cemitério. O cemitério
foi o pólo gerador de um entorno de charme. Em outros lugares
o pólo que dá origem a um entorno atraente é
um palácio antigo ou um museu novo. Em Buenos Aires é
um cemitério. Só na Argentina, mesmo.
Só na Argentina? Isso
vai por conta da fama de peculiares cultores da morte que, segundo
o clichê, se aplica aos argentinos. O país cultiva,
e oferece ao mundo, mortos da qualidade de uma Evita Perón,
de um Che Guevara, de um Carlos Gardel. Todos os países,
claro, têm mortos ilustres. Mas a Argentina tem mortos "mais
vivos", se assim se pode dizer. Evita, que teve o cadáver
surrupiado pelos adversários políticos e escondido,
em diferentes lugares, por anos a fio, foi submetida, depois de
morta, a peripécias maiores do que teve em vida. Gardel está
tão vivo que, segundo a velha anedota, "canta cada vez melhor".
Aos mortos míticos juntou-se, mais recentemente, Jorge Luis
Borges. Topa-se com sua cabeça ou mesmo o corpo inteiro,
em bonecos em tamanho natural, em lojas e cafés de Buenos
Aires. Dele já se pode afirmar que "Jorge Luis escreve cada
vez melhor". O culto dos mortos combina com o "sentimento trágico
da vida" que, segundo o espanhol Miguel de Unamuno, é apanágio
do sangue hispânico, e com a dramaticidade do tango, a única
dança popular que, de acordo com o argentino Ernesto Sábato,
é "introvertida". Só que...
Só que e esta é
a mais singular das singularidades uma visita à Recoleta
não tem nada de dramático. O bairro é o mais
alegre e festivo de Buenos Aires. E à obrigatória
entrada no cemitério, para quem está no bairro, não
se segue o clima pesado de reverência pelos enigmas deste
mundo ou de temor diante da fragilidade da vida. Zanzar por suas
aléias é agradável como espairecer numa praça
italiana. O cemitério oferece como atrações
mortos ilustres e a extravagância dos mausoléus. Entre
os mortos, desfilam diante do visitante (sim, ali os mortos desfilam)
uma profusão de "tenientes generales", presidentes históricos
como Sarmiento e o túmulo mais procurado Evita.
Mas o que faz mesmo a especificidade do lugar nem é o cemitério
em si, mas sua perfeita integração com o centro cultural
ao lado, a feira hippie em frente, os restaurantes do outro lado
da rua, os espaços verdes dos jardins um pouco abaixo. Mortos
e vivos se integram, nesse recanto da cidade, melhor que numa sessão
espírita. Eis o mistério de Buenos Aires.
|