Edição 1888 . 19 de janeiro de 2005

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Cinema
Escolha infeliz

Jim Carrey, descontrolado como um garoto
mimado, só atrapalha Desventuras em Série


Isabela Boscov

 
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Carrey, como Olaf, com os Baudelaire: crianças maduras, adulto infantil

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Já no 11º dos seus treze volumes previstos, a coleção Desventuras em Série (lançada no Brasil pela editora Companhia das Letras) constitui um caso raro no universo da literatura infantil: com sua prosa bem-acabada, humor travesso e personagens originalíssimos, é um exemplo de respeito à imaginação de seus leitores e saudável falta de paternalismo para com eles. E é, também e principalmente, um tributo à solidariedade de que as crianças são capazes. Os órfãos Violet, Klaus e Sunny Baudelaire perderam os pais num incêndio e vivem em fuga de seu tio caça-fortunas, o nefasto Conde Olaf. Como não cansa de alertar o narrador da história, o fictício Lemony Snicket (disfarce do escritor americano Daniel Handler), aqui não há final feliz. Os tristes irmãos Baudelaire enfrentam adversidades terríveis – mas permanecem unidos por um pacto indestrutível de amor e amizade. O diretor Brad Silberling, que assina Desventuras em Série (Lemony Snicket's a Series of Unfortunate Events, Estados Unidos, 2004), o filme que combina os três primeiros livros de Handler, entende bem o espírito em que eles foram escritos. Mas, se tentou comunicá-lo a Jim Carrey, que interpreta o Conde Olaf, este fingiu que não ouviu. Carrey parece achar que o filme – que estréia nesta sexta-feira no país – é dele, sobre ele e para ele, e seus esforços maníacos para roubar a cena acabam por desestabilizar este belo trabalho.

Desventuras em Série sofre também de uma direção de arte excessivamente elaborada, que não raro briga com a história e os personagens pela atenção do espectador. Mas o intrometido aqui é mesmo Carrey, e é evidente que o diretor Silberling não teve força nem cacife para podar os rompantes de seu superastro. Assim, Desventuras em Série se mostra lírico e delicado nos momentos protagonizados pelos Baudelaire (os ótimos Emily Browning, Liam Aiken e as gêmeas Kara e Shelby Hoffman, que se revezam como a bebê Sunny) e caprichoso na medida certa quando há outros adultos em cena – Meryl Streep como a tia que tem medo até de maçanetas, Billy Connolly como o tio que coleciona répteis ou Jude Law, de quem se ouve apenas a voz, como Lemony Snicket. Mas, cada vez que Carrey faz suas entradas, as sutilezas se apagam e o filme se torna histérico e exaustivo. É uma injustiça que um elenco infantil tão maduro fique submetido ao jugo de um adulto que se comporta como uma criança. E das mais mimadas e egoístas.

 
 
 
 
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