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Cinema Escolha
infeliz Jim Carrey, descontrolado como um garoto mimado,
só atrapalha Desventuras em Série  Isabela
Boscov
Divulgação
 | | Carrey,
como Olaf, com os Baudelaire: crianças maduras, adulto infantil |
Já
no 11º dos seus treze volumes previstos, a coleção Desventuras
em Série (lançada no Brasil pela editora Companhia das Letras)
constitui um caso raro no universo da literatura infantil: com sua prosa bem-acabada,
humor travesso e personagens originalíssimos, é um exemplo de respeito
à imaginação de seus leitores e saudável falta de
paternalismo para com eles. E é, também e principalmente, um tributo
à solidariedade de que as crianças são capazes. Os órfãos
Violet, Klaus e Sunny Baudelaire perderam os pais num incêndio e vivem em
fuga de seu tio caça-fortunas, o nefasto Conde Olaf. Como não cansa
de alertar o narrador da história, o fictício Lemony Snicket (disfarce
do escritor americano Daniel Handler), aqui não há final feliz.
Os tristes irmãos Baudelaire enfrentam adversidades terríveis –
mas permanecem unidos por um pacto indestrutível de amor e amizade. O diretor
Brad Silberling, que assina Desventuras em Série (Lemony
Snicket's a Series of Unfortunate Events, Estados Unidos, 2004), o filme que
combina os três primeiros livros de Handler, entende bem o espírito
em que eles foram escritos. Mas, se tentou comunicá-lo a Jim Carrey, que
interpreta o Conde Olaf, este fingiu que não ouviu. Carrey parece achar
que o filme que estréia nesta sexta-feira no país
é dele, sobre ele e para ele, e seus esforços maníacos para
roubar a cena acabam por desestabilizar este belo trabalho. Desventuras
em Série sofre também de uma direção de arte excessivamente
elaborada, que não raro briga com a história e os personagens pela
atenção do espectador. Mas o intrometido aqui é mesmo Carrey,
e é evidente que o diretor Silberling não teve força nem
cacife para podar os rompantes de seu superastro. Assim, Desventuras em Série
se mostra lírico e delicado nos momentos protagonizados pelos Baudelaire
(os ótimos Emily Browning, Liam Aiken e as gêmeas Kara e Shelby Hoffman,
que se revezam como a bebê Sunny) e caprichoso na medida certa quando há
outros adultos em cena Meryl Streep como a tia que tem medo até
de maçanetas, Billy Connolly como o tio que coleciona répteis ou
Jude Law, de quem se ouve apenas a voz, como Lemony Snicket. Mas, cada vez que
Carrey faz suas entradas, as sutilezas se apagam e o filme se torna histérico
e exaustivo. É uma injustiça que um elenco infantil tão maduro
fique submetido ao jugo de um adulto que se comporta como uma criança.
E das mais mimadas e egoístas. |