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Cinema No
amor vale tudo. Até o ódio Com
o implacável Perto Demais, Mike
Nichols expõe a crueldade do mais decantado dos sentimentos  Isabela
Boscov
Divulgação
 | | Owen,
Natalie, Law e Julia: duas americanas e dois ingleses se enfrentam sem sexo ou
nudez, mas com uma linguagem que não esconde nada |
É
uma daquelas tomadas clássicas: em meio à multidão que caminha
pela calçada em câmera lenta, aos poucos se destacam um rapaz e uma
moça que vão se conhecer, trocar diálogos inteligentes
como só um bom roteirista poderia escrever, apaixonar-se e então
desentender-se. No sentido inverso ao óbvio, porém, Perto
Demais (Closer, Estados Unidos, 2004) não vai devolvê-los
à felicidade romântica instantes antes dos créditos finais.
Bem ao contrário. A stripper Alice e o escritor de obituários Dan
(Natalie Portman e Jude Law), que se envolvem a partir do atropelamento dela numa
rua de Londres, vão se torturar e trair um ao outro, em reflexo, causa
e efeito do processo que Anna e Larry (Julia Roberts e Clive Owen), os dois outros
personagens do filme, também atravessam. Decerto esses dois casais, que
em vários momentos se separam e se recombinam, vivem interlúdios
de contentamento. Mas não é desses que o diretor Mike Nichols, que
adapta a peça homônima do inglês Patrick Marber, quer tratar.
Perto Demais é um filme sobre começos, finais e recomeços.
Ou, mais precisamente, sobre como o amor é em grande medida uma ilusão
que, ao ganhar alguma nitidez, deixa de corresponder à expectativa e passa
a exigir uma nova miragem de que se alimentar. A falha, postulam o autor e o diretor,
não é do sentimento, mas de quem o sente. Como um não existe
sem o outro, entretanto, tem-se aí uma charada, que Nichols destrincha
com um rigor implacável como ele não tinha coragem de exercitar
desde seu primeiro filme, Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, de 1966.
Não que os quatro personagens tenham visões similares sobre o que
esperam de um relacionamento. Alice, a garota que foi para Londres fugir de alguém
que a maltratava, se agarra a Dan como a uma oportunidade de amor e devoção
eternos. Dan tira de Alice o que ela tem de ainda mais atraente que a beleza:
sua história infeliz, que ele usa num livro o qual, em seus planos,
vai removê-lo de sua insignificância e transformá-lo no homem
que ele quer ser. Quando ainda se acredita às vésperas desse sucesso
(que não se realizará), Dan conhece a fotógrafa Anna, americana
como Alice e divorciada. Anna é uma mulher sem subterfúgios e aparentemente
sem carências. Como ela não precisa dele, é ela que Dan passa
a desejar. E, em sua obsessão, ele a entrega sem querer ao médico
Larry, um homem que não vê insulto em sua masculinidade e em sua
franqueza e que, por causa dessa honestidade, é o único aqui com
algum poder transformador. Quando Dan rouba Anna dele, Larry maquina um plano
para recuperá-la e, não menos importante, para destruir a
virilidade do adversário que poderia ser descrito como monstruoso,
não fosse ter nascido de um desespero tão legítimo. Não
há nudez ou sexo em Perto Demais, mas a exposição
do íntimo dos personagens é tão cruel, e a linguagem que
eles usam tão forte e direta, que a sensação é de
explicitude total. Ver Julia Roberts, por exemplo, sem maquiagem e com todas as
imperfeições físicas e de caráter à mostra,
contando em detalhes para o marido o que fez com o amante na cama, é uma
experiência tão incômoda quanto revigorante. Jude
Law, que faz o pusilânime Dan, é o lado mais fraco desse quarteto.
Julia Roberts e Natalie Portman brilham, e Clive Owen, por sua vez, ofusca. Sua
atuação como Larry é tão vulcânica e impetuosa
que David Thomson, o mais prestigiado dos críticos britânicos, escreveu
que gostaria de montar uma temporada inteira dos textos do dramaturgo Harold Pinter
só para ele. Essa habilidade, a de fazer os atores ir além do que
se espera deles e mais um tanto, sempre foi o ponto forte do alemão naturalizado
americano Mike Nichols. Desde a década de 70, porém, o diretor vinha
diluindo seu estilo numa impostura decepcionante de sofisticação.
Mas, desde que dirigiu Emma Thompson em Wit e adaptou Angels in America
como uma minissérie para a rede HBO, Nichols reencontrou sua verve. Aos
73 anos, e numa altura de sua carreira em que ninguém mais esperava uma
ressurreição, ele acaba de fazer um dos melhores filmes americanos
dos últimos anos. |