Edição 1888 . 19 de janeiro de 2005

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Especial
O termômetro da vida sexual

A quantas anda seu "QI sexual"?
É bom saber. A ciência mostra que
sua saúde física e psicológica depende
mais da sexualidade do que se pensava


Anna Paula Buchalla, de Londres


NESTA REPORTAGEM
Teste o seu "QI sexual": para os homens
Teste o seu "QI sexual": para as mulheres
Quadro: A necessidade
do prazer
Quadro: Ajuda química para os homens
Quadro: Ajuda química para as mulheres
Quadro: Mais liberdade

O ditado diz que sexo, quando é bom, é ótimo. E que, quando é ruim, ainda assim é muito bom. Mas o que define o sexo bom? E o ruim? Há quem só se satisfaça com, pelo menos, uma relação por dia e quem se contente com bem menos. Alguns preferem o sexo tranqüilo, outros vêem graça apenas nos encontros, digamos, mais selvagens. As alegrias e os dissabores vividos sob os lençóis são experiências pessoais e intransferíveis – impossíveis, aparentemente, de ser catalogadas. Pesquisadores do Projeto Sexualidade (ProSex), do Hospital das Clínicas, de São Paulo, criaram um teste para tentar medir e entender cientificamente a qualidade da vida sexual de homens e mulheres. Eles batizaram o teste de Quociente Sexual, ou simplesmente QS.

Desde Sigmund Freud (1856-1939) a ciência tenta explicar as conexões entre a sexualidade e o bem-estar físico e mental. Quando o pai da psicanálise escreveu seu ensaio sobre ansiedade e neurose, em 1895, dando uma ênfase até então inédita à sexualidade, choveram críticas. Freud achou melhor rebatê-las em um outro artigo, no qual foi ainda mais enfático. Freud escreveu: "Muitas doenças mentais e as fobias, em especial, não ocorrem quando a pessoa leva uma vida sexual normal". Sobre a pedra fundamental das análises de Freud ergueu-se um monumental edifício de estudos da sexualidade e de seu impacto sobre outras dimensões vitais do ser humano. Os médicos investigam com crescente interesse como as carências sexuais podem produzir doenças físicas e psicológicas e, por outro lado, como certas moléstias afetam o desempenho e a satisfação sexual. As depressões, os males cardíacos e circulatórios e o diabetes são doenças com impacto direto sobre a sexualidade.

O teste de qualidade sexual desenvolvido pelos pesquisadores da USP é apenas mais um tijolo do edifício da investigação da sexualidade. O medidor do "QI sexual" nasceu de entrevistas feitas com 630 homens e 580 mulheres, entre 18 e 70 anos. Para a elaboração do questionário, foram analisados os aspectos físicos e emocionais dos entrevistados, em todas as etapas de uma relação sexual – do surgimento do desejo à fase pós-orgasmo. Com base nas respostas chegou-se aos dez pontos básicos que fazem a diferença entre o sexo satisfatório e o sexo desapontador. "Com o teste, os casais podem analisar a quantas anda sua vida sexual e identificar o que pode ser feito para melhorá-la", diz a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do ProSex.

Apresentado no 7º Congresso da Sociedade Européia de Medicina Sexual, realizado recentemente em Londres, na Inglaterra, o teste foi recebido com entusiasmo pelos especialistas. "O objetivo é que ele seja aplicado em todas as consultas médicas, para orientar o médico sobre os possíveis problemas de seus pacientes, tanto físicos quanto emocionais", diz Carmita Abdo. O teste investiga o grau de interesse de uma pessoa para iniciar o ato sexual, a confiança dela em seu poder de sedução, seu contentamento com as preliminares, a importância que ela dá à excitação do parceiro e a freqüência com que ela chega ao orgasmo. No caso dos homens, avaliam-se ainda a qualidade da ereção e a capacidade de controlar a ejaculação. No das mulheres, se elas conseguem se manter lubrificadas e relaxadas e se, em algum momento do ato, sentem dor.

Na década de 90, a Organização Mundial de Saúde (OMS) incluiu o sexo na lista dos parâmetros utilizados para definir a qualidade de vida de uma pessoa. Os outros são: capacidade de trabalhar, não depender de ninguém para as tarefas do dia-a-dia e manter um convívio familiar e social satisfatório. O sexo seguro, freqüente e prazeroso, explicam os médicos, pode proteger o coração, evitar a insônia, aliviar o stress, fortalecer o sistema imunológico, combater a ansiedade, regular o humor, emagrecer e até atrasar um pouco o ritmo do envelhecimento.

As delícias (ou não) da alcova repercutem em todas as esferas da vida de uma pessoa. Oito de cada dez brasileiros (homens e mulheres) vítimas de problemas sexuais declaram que suas aflições afetam o trabalho, o convívio com os filhos, as relações sociais, o lazer. Sem contar, obviamente, o desgaste do relacionamento com o parceiro (veja quadro). Os homens sentem-se menos homens. As mulheres, menos mulheres. Um dos trabalhos mais minuciosos sobre o assunto acaba de ser concluído por pesquisadores da Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz), da Bahia, com 77.000 homens, de 24 estados brasileiros. Os participantes tinham 52 anos, em média, e foram entrevistados por 6.800 médicos de especialidades variadas. É enorme o abismo que separa os homens com problemas de ereção dos que não têm disfunção alguma. Dos primeiros, 41,6% se declaram satisfeitos consigo próprios. No outro grupo, esse índice sobe para 85,5%.

Com o aumento da expectativa de vida da população, nada mais natural que o sexo de boa qualidade passe a ser uma exigência de homens e mulheres mais maduros. Viver mais significa prolongar os encontros amorosos para além da fase áurea da sexualidade, que vai dos 20 aos 40 anos. Com o passar do tempo, porém, não é fácil manter a libido a mil. Uma enquete realizada pela Universidade de São Paulo com 2 100 brasileiras mostra que, para a maioria das mulheres entre 18 e 25 anos, a vida sexual mudou para melhor desde a primeira relação. Para quem tinha mais de 46 anos, a mudança foi para pior. Com a chegada da menopausa, há uma queda nos níveis dos hormônios sexuais, o que reduz o aporte de sangue e o tônus muscular da região genital. A vagina fica menos elástica, e a lubrificação do órgão torna-se mais difícil. Conseqüentemente, as respostas às carícias e ao próprio ato sexual já não são tão rápidas nem tão intensas quanto eram na juventude. Uma jovem de 20 anos demora, em média, vinte segundos para sair do patamar do desejo e chegar à excitação. Numa mulher com mais de 50 anos, esse processo leva até três minutos. Com os homens não é diferente. Um mesmo estímulo sexual que, na juventude, saía do cérebro e deixava o pênis ereto em apenas três segundos demora dois minutos para fazer efeito no homem de meia-idade. Com a redução do fluxo sanguíneo para o pênis e a flacidez dos músculos penianos, a ereção torna-se menos potente e o orgasmo, mais difícil. Pelo levantamento da Fiocruz, 66% dos brasileiros apresentam, em menor ou maior grau, dificuldade de ereção – e, quanto mais elevada a faixa etária, maiores são a prevalência e a severidade da disfunção.

Geralmente é possível recuperar o fôlego na cama com a adoção de hábitos mais saudáveis – a combinação de uma dieta equilibrada com a prática regular de exercícios físicos. Se não funcionar, a medicina dispõe de uma série de armas capazes de devolver o prazer perdido. Os grandes beneficiados pelas invenções da indústria farmacêutica são os homens. O marco no tratamento das disfunções sexuais masculinas foi o lançamento, em 1998, da primeira pílula contra disfunção erétil – o Viagra. A ela se seguiram outras (Cialis, Levitra e Uprima, entre as mais conhecidas) que exorcizaram o fantasma da impotência da vida de milhões de homens. Os problemas de ereção passaram a ser tratados de maneira bastante simples. Nada a ver com os dispositivos antigos, como injeções ou bombas a vácuo. Os velhos artifícios, além de aniquilar com o romantismo de qualquer encontro amoroso, afastavam a maioria dos homens dos consultórios médicos. Graças aos remédios orais antiimpotência, nos últimos cinco anos quadruplicou o número de brasileiros que procuram ajuda para seus problemas sexuais (veja quadro).

Das queixas sexuais masculinas, a dificuldade de ter ou manter a ereção é a mais prevalente. Entre os homens mais jovens, especialmente dos 18 aos 25 anos, o grande tormento, porém, é a ejaculação precoce – aquela que ocorre menos de dois minutos depois do início do ato sexual. Se não tratada, pode levar à impotência. Suas principais causas são a ansiedade e a insegurança. Por isso, o tratamento-padrão envolve o uso de antidepressivos da família do Prozac com sessões de psicoterapia. Está previsto para chegar ao Brasil, em 2006, o primeiro medicamento indicado especificamente para o tratamento da ejaculação precoce. Fabricado pelo laboratório Janssen-Cilag, o remédio dapoxetina é também um antidepressivo. A diferença é que, ainda não se sabe exatamente por que, seus efeitos sobre a ejaculação precoce são muito mais rápidos. Os convencionais demoram até dez dias para começar a fazer efeito. O dapoxetina promete levar, no máximo, quatro horas para chegar aos mesmos resultados.

A partir dos 40 anos, os homens experimentam uma queda na produção de testosterona, o hormônio da libido. É um processo natural. Deles, 20% terão uma queda acima do normal – o que pode comprometer a libido. Usualmente essa reposição é feita por injeção, comprimido ou adesivos transdérmicos. Foi lançado recentemente na Europa um novo remédio à base de testosterona, o Nebido, do laboratório alemão Schering AG. Administrado por injeção, ele requer apenas quatro picadas por ano. Os outros medicamentos injetáveis exigem, em média, 22 aplicações anuais. Os comprimidos devem ser tomados duas vezes ao dia. E os adesivos trocados diariamente. De uso mais simples, o Nebido promete aumentar a adesão do paciente ao tratamento (veja quadro).

Os remédios contra a disfunção sexual masculina não melhoraram apenas a vida dos homens com problemas na cama. Provocaram uma reviravolta também na vida de suas companheiras. Elas passaram a cobrar dos parceiros disposição para o sexo. Dos homens em tratamento médico contra disfunções eréteis, por exemplo, 56% foram incentivados por suas mulheres a procurar tratamento. Muitas não se acanham em também buscar ajuda. Há, lógico, as que ainda se ressentem do modo como foram educadas – o prazer sexual visto como sinônimo de pecado, impureza e imoralidade –, mas é cada vez maior a presença feminina nos consultórios de terapeutas e médicos especialistas em sexualidade. No início dos anos 90, 13% das pessoas que procuravam os serviços do ProSex, em São Paulo, eram do sexo feminino. Agora, as mulheres respondem por 33% dos atendimentos. De cada dez brasileiras, cinco têm algum problema sexual. As principais queixas são falta de desejo e dificuldade de chegar ao orgasmo.

Até pouco tempo atrás, acreditava-se que os problemas sexuais femininos só poderiam ser resolvidos no divã. "A sexualidade feminina é muito complexa, tanto que Freud a chamou de 'o continente obscuro'", diz o ginecologista mineiro Gerson Lopes, da Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia e especialista em sexualidade feminina. "Ela está mais ligada a fatores psicológicos, sociais e culturais do que a masculina, o que dificulta a criação de medicamentos capazes de dar conta de tantas variantes." Nos últimos cinco anos, contudo, pesquisas deixaram claro que muitas aflições delas são de ordem orgânica, como a baixa na produção dos hormônios femininos, sobretudo entre as mulheres na pós-menopausa. Nesses casos, pode-se recorrer à terapia de reposição hormonal. Uma das frentes mais promissoras para aumentar a libido feminina é o uso de doses extras do hormônio testosterona (veja quadro). Para que essa terapia seja aprovada, os especialistas recomendam mais estudos, pois temem que o uso prolongado do medicamento possa aumentar os riscos de infarto e derrame. Investiga-se também se o uso de antidepressivos, em particular o Wellbutrin e o Zetron, poderia aumentar o desejo sexual de mulheres que não sofrem de depressão. Esses dois medicamentos agem sobretudo numa substância chamada dopamina, associada ao bem-estar e à vontade de fazer sexo.

A medicina avançou muito em relação ao tratamento das disfunções sexuais masculinas e femininas. Mas é essencial ter em mente que pílulas e comprimidos pouco ajudam se não houver cumplicidade entre o casal. Não há remédio que resolva sozinho um problema de relacionamento. A intimidade entre um homem e uma mulher é um dos fatores que mais contam para o sexo sem aflições – aquele sexo que dá vontade de fazer mais depois. "Deve-se sempre avaliar o sexo do ponto de vista do casal", disse a VEJA a médica italiana Alessandra Graziottin, especialista em disfunção sexual feminina. "Fazemos amor com outra pessoa e ela é a chave para o diagnóstico e o tratamento dos problemas sexuais."

 

 

COMO AMEBAS E FELIZES

David Jay, 22 anos, virgem: nenhum interesse por sexo

Não fazer sexo é uma opção? Ganha força nos Estados Unidos e na Inglaterra um movimento batizado de "A-pride" – ou "orgulho assexuado". Seus militantes ostentam sua orientação sexual (ou a falta dela) em camisetas, broches e roupas íntimas estampadas com dizeres do tipo "Assexualidade: isso não é mais apenas para amebas" ou "Isto é só uma calcinha. Caia fora". O criador de um dos maiores sites dedicados ao assunto, o Aven (sigla em inglês para Rede de Educação e Visibilidade Assexual), é o sociólogo americano David Jay, de 22 anos. "Em nenhum momento de minha vida desejei alguém sexualmente", disse a VEJA. Virgem, ele conta que o mais próximo que chegou do ato sexual foi quando beijou (em raríssimas ocasiões) alguns poucos amigos e amigas na boca. "Meu desinteresse por sexo não é uma questão de opção nem dificuldade para encontrar um grande amor", assegura. "Eu nasci assim e sou feliz assim."

Um estudo publicado em outubro do ano passado na revista inglesa New Scientist aponta que 1% das pessoas sexualmente ativas declarou não ter vontade ou não gostar de sexo. Há casos em que a inapetência sexual se explica por problemas físicos ou psicológicos. Existem aquelas pessoas, no entanto, que não apresentam nenhum tipo de distúrbio catalogado pelos médicos. Uma hipótese para explicar esse tipo de comportamento assexuado é que a chave que ativa o centro cerebral da libido por alguma razão, provavelmente genética, não chega a ser ligada.

O modo como a sexualidade foi tratada ao longo da história variou muito. Nos conventos da Idade Média, as freiras tinham o costume de se privar do banho só para que não tivessem um contato mais íntimo com o próprio corpo. A década de 60 foi marcada pela exaltação ao amor livre. Nos Estados Unidos de hoje, é cada vez maior o número de jovens que fazem questão de preservar a virgindade até o casamento. O movimento "A-pride" é radicalmente único. O desejo sexual é um imperativo biológico. Diz a sexóloga carioca Regina Navarro Lins: "Não ter vontade de fazer sexo é completamente antinatural". Pode ser. Mas é sempre bom ter em mente o que ensinou o orador e estadista romano Cícero (106-43 a.C.) citando Terêncio: "Sou humano, e nada que é humano me é estranho".

Paula Neiva

 

Com reportagem de Paula Neiva e Giuliana Bergamo

 
 
 
 
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