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Especial O
termômetro da vida sexual A quantas anda seu
"QI sexual"? É bom saber. A ciência mostra que sua saúde
física e psicológica depende mais da sexualidade do que se pensava

Anna Paula Buchalla, de Londres
O
ditado diz que sexo, quando é bom, é ótimo. E que, quando
é ruim, ainda assim é muito bom. Mas o que define o sexo bom? E
o ruim? Há quem só se satisfaça com, pelo menos, uma relação
por dia e quem se contente com bem menos. Alguns preferem o sexo tranqüilo,
outros vêem graça apenas nos encontros, digamos, mais selvagens.
As alegrias e os dissabores vividos sob os lençóis são experiências
pessoais e intransferíveis impossíveis, aparentemente, de
ser catalogadas. Pesquisadores do Projeto Sexualidade (ProSex), do Hospital das
Clínicas, de São Paulo, criaram um teste para tentar medir e entender
cientificamente a qualidade da vida sexual de homens e mulheres. Eles batizaram
o teste de Quociente Sexual, ou simplesmente QS.
Desde Sigmund Freud (1856-1939) a ciência tenta explicar as conexões
entre a sexualidade e o bem-estar físico e mental. Quando o pai da psicanálise
escreveu seu ensaio sobre ansiedade e neurose, em 1895, dando uma ênfase
até então inédita à sexualidade, choveram críticas.
Freud achou melhor rebatê-las em um outro artigo, no qual foi ainda mais
enfático. Freud escreveu: "Muitas doenças mentais e as fobias, em
especial, não ocorrem quando a pessoa leva uma vida sexual normal". Sobre
a pedra fundamental das análises de Freud ergueu-se um monumental edifício
de estudos da sexualidade e de seu impacto sobre outras dimensões vitais
do ser humano. Os médicos investigam com crescente interesse como as carências
sexuais podem produzir doenças físicas e psicológicas e,
por outro lado, como certas moléstias afetam o desempenho e a satisfação
sexual. As depressões, os males cardíacos e circulatórios
e o diabetes são doenças com impacto direto sobre a sexualidade.
O teste de qualidade sexual desenvolvido pelos
pesquisadores da USP é apenas mais um tijolo do edifício da investigação
da sexualidade. O medidor do "QI sexual" nasceu de entrevistas feitas com 630
homens e 580 mulheres, entre 18 e 70 anos. Para a elaboração do
questionário, foram analisados os aspectos físicos e emocionais
dos entrevistados, em todas as etapas de uma relação sexual
do surgimento do desejo à fase pós-orgasmo. Com base nas respostas
chegou-se aos dez pontos básicos que fazem a diferença entre o sexo
satisfatório e o sexo desapontador. "Com o teste, os casais podem analisar
a quantas anda sua vida sexual e identificar o que pode ser feito para melhorá-la",
diz a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do ProSex.
Apresentado no 7º Congresso da Sociedade Européia de Medicina Sexual,
realizado recentemente em Londres, na Inglaterra, o teste foi recebido com entusiasmo
pelos especialistas. "O objetivo é que ele seja aplicado em todas as consultas
médicas, para orientar o médico sobre os possíveis problemas
de seus pacientes, tanto físicos quanto emocionais", diz Carmita Abdo.
O teste investiga o grau de interesse de uma pessoa para iniciar o ato sexual,
a confiança dela em seu poder de sedução, seu contentamento
com as preliminares, a importância que ela dá à excitação
do parceiro e a freqüência com que ela chega ao orgasmo. No caso dos
homens, avaliam-se ainda a qualidade da ereção e a capacidade de
controlar a ejaculação. No das mulheres, se elas conseguem se manter
lubrificadas e relaxadas e se, em algum momento do ato, sentem dor.
Na década de 90, a Organização Mundial de Saúde (OMS)
incluiu o sexo na lista dos parâmetros utilizados para definir a qualidade
de vida de uma pessoa. Os outros são: capacidade de trabalhar, não
depender de ninguém para as tarefas do dia-a-dia e manter um convívio
familiar e social satisfatório. O sexo seguro, freqüente e prazeroso,
explicam os médicos, pode proteger o coração, evitar a insônia,
aliviar o stress, fortalecer o sistema imunológico, combater a ansiedade,
regular o humor, emagrecer e até atrasar um pouco o ritmo do envelhecimento.
As delícias (ou não) da alcova repercutem
em todas as esferas da vida de uma pessoa. Oito de cada dez brasileiros (homens
e mulheres) vítimas de problemas sexuais declaram que suas aflições
afetam o trabalho, o convívio com os filhos, as relações
sociais, o lazer. Sem contar, obviamente, o desgaste do relacionamento com o parceiro
(veja quadro).
Os homens sentem-se menos homens. As mulheres, menos mulheres. Um dos trabalhos
mais minuciosos sobre o assunto acaba de ser concluído por pesquisadores
da Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz), da Bahia, com 77.000 homens,
de 24 estados brasileiros. Os participantes tinham 52 anos, em média, e
foram entrevistados por 6.800 médicos de especialidades variadas. É
enorme o abismo que separa os homens com problemas de ereção dos
que não têm disfunção alguma. Dos primeiros, 41,6%
se declaram satisfeitos consigo próprios. No outro grupo, esse índice
sobe para 85,5%. Com o aumento da expectativa
de vida da população, nada mais natural que o sexo de boa qualidade
passe a ser uma exigência de homens e mulheres mais maduros. Viver mais
significa prolongar os encontros amorosos para além da fase áurea
da sexualidade, que vai dos 20 aos 40 anos. Com o passar do tempo, porém,
não é fácil manter a libido a mil. Uma enquete realizada
pela Universidade de São Paulo com 2 100 brasileiras mostra que, para a
maioria das mulheres entre 18 e 25 anos, a vida sexual mudou para melhor desde
a primeira relação. Para quem tinha mais de 46 anos, a mudança
foi para pior. Com a chegada da menopausa, há uma queda nos níveis
dos hormônios sexuais, o que reduz o aporte de sangue e o tônus muscular
da região genital. A vagina fica menos elástica, e a lubrificação
do órgão torna-se mais difícil. Conseqüentemente, as
respostas às carícias e ao próprio ato sexual já não
são tão rápidas nem tão intensas quanto eram na juventude.
Uma jovem de 20 anos demora, em média, vinte segundos para sair do patamar
do desejo e chegar à excitação. Numa mulher com mais de 50
anos, esse processo leva até três minutos. Com os homens não
é diferente. Um mesmo estímulo sexual que, na juventude, saía
do cérebro e deixava o pênis ereto em apenas três segundos
demora dois minutos para fazer efeito no homem de meia-idade. Com a redução
do fluxo sanguíneo para o pênis e a flacidez dos músculos
penianos, a ereção torna-se menos potente e o orgasmo, mais difícil.
Pelo levantamento da Fiocruz, 66% dos brasileiros apresentam, em menor ou maior
grau, dificuldade de ereção e, quanto mais elevada a faixa
etária, maiores são a prevalência e a severidade da disfunção.
Geralmente é possível recuperar
o fôlego na cama com a adoção de hábitos mais saudáveis
a combinação de uma dieta equilibrada com a prática
regular de exercícios físicos. Se não funcionar, a medicina
dispõe de uma série de armas capazes de devolver o prazer perdido.
Os grandes beneficiados pelas invenções da indústria farmacêutica
são os homens. O marco no tratamento das disfunções sexuais
masculinas foi o lançamento, em 1998, da primeira pílula contra
disfunção erétil o Viagra. A ela se seguiram outras
(Cialis, Levitra e Uprima, entre as mais conhecidas) que exorcizaram o fantasma
da impotência da vida de milhões de homens. Os problemas de ereção
passaram a ser tratados de maneira bastante simples. Nada a ver com os dispositivos
antigos, como injeções ou bombas a vácuo. Os velhos artifícios,
além de aniquilar com o romantismo de qualquer encontro amoroso, afastavam
a maioria dos homens dos consultórios médicos. Graças aos
remédios orais antiimpotência, nos últimos cinco anos quadruplicou
o número de brasileiros que procuram ajuda para seus problemas sexuais
(veja quadro).
Das queixas sexuais masculinas, a dificuldade
de ter ou manter a ereção é a mais prevalente. Entre os homens
mais jovens, especialmente dos 18 aos 25 anos, o grande tormento, porém,
é a ejaculação precoce aquela que ocorre menos de
dois minutos depois do início do ato sexual. Se não tratada, pode
levar à impotência. Suas principais causas são a ansiedade
e a insegurança. Por isso, o tratamento-padrão envolve o uso de
antidepressivos da família do Prozac com sessões de psicoterapia.
Está previsto para chegar ao Brasil, em 2006, o primeiro medicamento indicado
especificamente para o tratamento da ejaculação precoce. Fabricado
pelo laboratório Janssen-Cilag, o remédio dapoxetina é também
um antidepressivo. A diferença é que, ainda não se sabe exatamente
por que, seus efeitos sobre a ejaculação precoce são muito
mais rápidos. Os convencionais demoram até dez dias para começar
a fazer efeito. O dapoxetina promete levar, no máximo, quatro horas para
chegar aos mesmos resultados. A partir dos 40
anos, os homens experimentam uma queda na produção de testosterona,
o hormônio da libido. É um processo natural. Deles, 20% terão
uma queda acima do normal o que pode comprometer a libido. Usualmente essa
reposição é feita por injeção, comprimido ou
adesivos transdérmicos. Foi lançado recentemente na Europa um novo
remédio à base de testosterona, o Nebido, do laboratório
alemão Schering AG. Administrado por injeção, ele requer
apenas quatro picadas por ano. Os outros medicamentos injetáveis exigem,
em média, 22 aplicações anuais. Os comprimidos devem ser
tomados duas vezes ao dia. E os adesivos trocados diariamente. De uso mais simples,
o Nebido promete aumentar a adesão do paciente ao tratamento (veja
quadro). Os remédios contra a disfunção
sexual masculina não melhoraram apenas a vida dos homens com problemas
na cama. Provocaram uma reviravolta também na vida de suas companheiras.
Elas passaram a cobrar dos parceiros disposição para o sexo. Dos
homens em tratamento médico contra disfunções eréteis,
por exemplo, 56% foram incentivados por suas mulheres a procurar tratamento. Muitas
não se acanham em também buscar ajuda. Há, lógico,
as que ainda se ressentem do modo como foram educadas o prazer sexual visto
como sinônimo de pecado, impureza e imoralidade , mas é cada
vez maior a presença feminina nos consultórios de terapeutas e médicos
especialistas em sexualidade. No início dos anos 90, 13% das pessoas que
procuravam os serviços do ProSex, em São Paulo, eram do sexo feminino.
Agora, as mulheres respondem por 33% dos atendimentos. De cada dez brasileiras,
cinco têm algum problema sexual. As principais queixas são falta
de desejo e dificuldade de chegar ao orgasmo.
Até pouco tempo atrás, acreditava-se que os problemas sexuais femininos
só poderiam ser resolvidos no divã. "A sexualidade feminina é
muito complexa, tanto que Freud a chamou de 'o continente obscuro'", diz o ginecologista
mineiro Gerson Lopes, da Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia
e especialista em sexualidade feminina. "Ela está mais ligada a fatores
psicológicos, sociais e culturais do que a masculina, o que dificulta a
criação de medicamentos capazes de dar conta de tantas variantes."
Nos últimos cinco anos, contudo, pesquisas deixaram claro que muitas aflições
delas são de ordem orgânica, como a baixa na produção
dos hormônios femininos, sobretudo entre as mulheres na pós-menopausa.
Nesses casos, pode-se recorrer à terapia de reposição hormonal.
Uma das frentes mais promissoras para aumentar a libido feminina é o uso
de doses extras do hormônio testosterona (veja
quadro). Para que essa terapia seja aprovada, os especialistas recomendam
mais estudos, pois temem que o uso prolongado do medicamento possa aumentar os
riscos de infarto e derrame. Investiga-se também se o uso de antidepressivos,
em particular o Wellbutrin e o Zetron, poderia aumentar o desejo sexual de mulheres
que não sofrem de depressão. Esses dois medicamentos agem sobretudo
numa substância chamada dopamina, associada ao bem-estar e à vontade
de fazer sexo. A medicina avançou muito
em relação ao tratamento das disfunções sexuais masculinas
e femininas. Mas é essencial ter em mente que pílulas e comprimidos
pouco ajudam se não houver cumplicidade entre o casal. Não há
remédio que resolva sozinho um problema de relacionamento. A intimidade
entre um homem e uma mulher é um dos fatores que mais contam para o sexo
sem aflições aquele sexo que dá vontade de fazer mais
depois. "Deve-se sempre avaliar o sexo do ponto de vista do casal", disse a VEJA
a médica italiana Alessandra Graziottin, especialista em disfunção
sexual feminina. "Fazemos amor com outra pessoa e ela é a chave para o
diagnóstico e o tratamento dos problemas sexuais."
| COMO AMEBAS E FELIZES
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| David Jay, 22 anos, virgem: nenhum interesse por sexo
| Não fazer sexo é uma opção?
Ganha força nos Estados Unidos e na Inglaterra um movimento batizado de
"A-pride" ou "orgulho assexuado". Seus militantes ostentam sua orientação
sexual (ou a falta dela) em camisetas, broches e roupas íntimas estampadas
com dizeres do tipo "Assexualidade: isso não é mais apenas para
amebas" ou "Isto é só uma calcinha. Caia fora". O criador de um
dos maiores sites dedicados ao assunto, o Aven (sigla em inglês para Rede
de Educação e Visibilidade Assexual), é o sociólogo
americano David Jay, de 22 anos. "Em nenhum momento de minha vida desejei alguém
sexualmente", disse a VEJA. Virgem, ele conta que o mais próximo que chegou
do ato sexual foi quando beijou (em raríssimas ocasiões) alguns
poucos amigos e amigas na boca. "Meu desinteresse por sexo não é
uma questão de opção nem dificuldade para encontrar um grande
amor", assegura. "Eu nasci assim e sou feliz assim."
Um estudo publicado em outubro do ano passado na revista inglesa New Scientist
aponta que 1% das pessoas sexualmente ativas declarou não ter vontade ou
não gostar de sexo. Há casos em que a inapetência sexual se
explica por problemas físicos ou psicológicos. Existem aquelas pessoas,
no entanto, que não apresentam nenhum tipo de distúrbio catalogado
pelos médicos. Uma hipótese para explicar esse tipo de comportamento
assexuado é que a chave que ativa o centro cerebral da libido por alguma
razão, provavelmente genética, não chega a ser ligada.
O modo como a sexualidade foi tratada ao longo da história
variou muito. Nos conventos da Idade Média, as freiras tinham o costume
de se privar do banho só para que não tivessem um contato mais íntimo
com o próprio corpo. A década de 60 foi marcada pela exaltação
ao amor livre. Nos Estados Unidos de hoje, é cada vez maior o número
de jovens que fazem questão de preservar a virgindade até o casamento.
O movimento "A-pride" é radicalmente único. O desejo sexual é
um imperativo biológico. Diz a sexóloga carioca Regina Navarro Lins:
"Não ter vontade de fazer sexo é completamente antinatural". Pode
ser. Mas é sempre bom ter em mente o que ensinou o orador e estadista romano
Cícero (106-43 a.C.) citando Terêncio: "Sou humano, e nada que é
humano me é estranho". Paula
Neiva | | Com
reportagem de Paula Neiva e Giuliana
Bergamo |