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Internacional
A saída pragmática Palestinos
elegem líder disposto a negociar a paz, se os terroristas deixarem
 Diogo
Schel
"Nós temos
muita religião para nos odiarmos, mas pouca para nos amarmos uns aos outros."
Originalmente, a frase do escritor irlandês Jonathan Swift era uma reflexão
sobre a realidade na Europa do século XVIII. Mas se encaixa bem nos conflitos
endêmicos do Oriente Médio do século XXI, onde o fervor messiânico
dos protagonistas é um fator que complica qualquer possibilidade de estabilização
na região. O exemplo notável é o conflito entre judeus e
árabes na Palestina. A rapidez com que se evaporam as promessas alvissareiras
supera as expectativas dos mais pessimistas. A eleição de Mahmoud
Abbas como substituto de Yasser Arafat, no domingo 9, é uma dessas aragens
de ar fresco comemoradas em todo o mundo, incluindo aí as capitais que
realmente importam Washington e Jerusalém. Abbas é uma promessa
de tempos melhores por vários motivos. O primeiro é simplesmente
por não ser Arafat, não usar uniforme com o peito carregado de medalhas
nem prometer, como Arafat, enviar 1 milhão de mártires para tomar
Jerusalém. O veterano líder palestino, morto no ano passado, fora
condenado ao ostracismo por israelenses e americanos. O segundo é sua fama
de nacionalista pragmático. No contexto local significa, basicamente, que
ele aceita o fato concreto de que os palestinos não podem vencer Israel
no campo militar e que, nessas circunstâncias, é melhor negociar.
O terceiro aspecto extraordinário das eleições nos territórios
palestinos é o seu ineditismo: Abbas, eleito presidente da Autoridade Palestina
na semana passada, é o único líder do mundo árabe
escolhido democraticamente. E isso num pleito livre, direto e com observadores
internacionais. Não se encontra equivalente nas outras nações
árabes e islâmicas da região.
Reuters
 | NO
COMANDO Palestinos comemoram diante de cartaz
de propaganda eleitoral de Mahmoud Abbas: a missão impossível do
eleito é conquistar a confiança de palestinos, americanos e israelenses
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Na última
semana, terroristas palestinos realizaram um grande atentado, que matou vários
israelenses. Previsível como um relógio, o primeiro-ministro Ariel
Sharon anunciou que, diante desse fato, estão suspensas as conversas com
o novo presidente palestino. Esse jogo de causa e efeito pode ser interpretado
da seguinte forma: os terroristas não são capazes de vencer as eleições
na Palestina, mas são capazes de impor sua visão de mundo pela força
de suas atrocidades. Trata-se de uma equação que conecta três
realidades diversas. A primeira é a Palestina. A segunda, Israel, onde
colonos convencidos de que a terra lhes foi prometida por Deus se recusam a deixar
um só centímetro dos territórios palestinos ocupados desde
1967. A terceira é o Iraque, que tem marcadas para o fim do mês as
primeiras eleições democráticas de sua história. Como
os palestinos, os iraquianos votarão sob ocupação militar.
A diferença básica nesse ponto é que os americanos querem
entregar logo as rédeas do país aos iraquianos e dar no pé
quanto antes, o que não acontece com os israelenses. A semelhança
é que as eleições iraquianas também são reféns
do terrorismo de fanáticos islâmicos.
AP/Karim
Kadim
 | A
SOMBRA DOS XEQUES Iraquiano com a foto de caciques
xiitas |
Com exceção
de Israel e Turquia, que têm democracias plenas com possibilidade real de
alternância de poder, os países do Oriente Médio vivem sob
vários níveis de regimes autoritários. Há regimes
brandos, como o do Egito. E há regimes de pesadelo, como o do Irã,
uma teocracia controlada por aiatolás e regida por leis religiosas medievais.
De certa forma, é mais razoável esperar uma abertura política
entre as ditaduras nacionalistas e de caráter laico, como a da Síria,
do que entre aquelas movidas pelo fanatismo religioso. O obstáculo para
que as esperanças de paz e os projetos de democracia se concretizem no
Oriente Médio são, em boa parte, as forças messiânicas,
religiosas e nacionalistas que proliferam não só entre os muçulmanos,
mas também entre os judeus.
Os partidários dessas vertentes fundamentalistas acreditam que a vontade
de Deus é que eles matem e se deixem matar em defesa de uma visão
utópica da sociedade. Estão nessa categoria os grupos terroristas
palestinos, como o Hamas, que consideram a luta contra os israelenses uma guerra
santa; e os colonos judeus que se acreditam donos de toda a Palestina por vontade
divina. Abbas conhecido entre os palestinos como Abu Mazen e Sharon
são líderes pragmáticos, mas não podem ignorar as
forças fundamentalistas de suas nações. Abbas acredita que
a criação do Estado palestino depende de uma solução
negociada com Israel. Mas é improvável que ele vá fazer concessões
além daquilo que é aceitável pela maioria dos palestinos.
Abbas dificilmente terá poder militar e vontade política para desmanchar
os grupos terroristas. Já Sharon é um pragmático de primeira
viagem. Ferrenho opositor à criação do Estado palestino até
poucos anos atrás, ele tem o plano de retirar todos os colonos judeus da
Faixa de Gaza e alguns da Cisjordânia, os dois territórios palestinos
ocupados por Israel. O que fez Sharon mudar de idéia foi um fato demográfico:
como cresce a um ritmo mais acelerado, a população palestina deve
ultrapassar a israelense em dez anos. "Manter sob ocupação milhões
de palestinos seria péssimo para Israel", disse Sharon em 2003. AFP/Maurício
Lima
 | SANGUE
EM BAGDÁ Americanos socorrem feridos em
ataque com carro-bomba: terror aumenta a pressão às vésperas das eleições |
Nas eleições do Iraque também há um confronto entre
forças fundamentalistas e pragmáticas, com algumas peculiaridades.
A principal facção fundamentalista do país é uma das
mais pragmáticas no que se refere às eleições: os
xiitas, que são a maioria da população, sabem que essa é
sua chance de abocanhar o poder iraquiano. Os grupos liderados por ambos os líderes
xiitas estão em campanha para a Assembléia Constituinte, a ser eleita
no fim do mês. Já os muçulmanos do ramo sunita, a minoria
que governou o Iraque durante a ditadura de Saddam Hussein, preferem boicotar
a votação. A onda de violência que transformou o país
em caos, às vésperas do pleito, é atribuída a grupos
sunitas. Eles argumentam que, se não for adiada, a votação
será fraudulenta. Na verdade, o que os antigos partidários de Saddam
querem não são eleições limpas. Eles querem eleições
sujas, para que possam roubar a seu favor como fizeram durante todo o regime do
ditador iraquiano. Na semana passada, enquanto o pragmático Abbas comemorava
a vitória nas urnas na Palestina e os xiitas e curdos faziam campanha no
Iraque, os ataques terroristas mataram mais de uma dezena de pessoas nas duas
nações. Em ambos os casos, os militantes fundamentalistas pareciam
querer dar a seguinte mensagem aos entusiastas árabes da novidade eleitoral:
"Apesar de vocês, o Oriente Médio vai continuar sendo o lugar das
esperanças de vida curta". |