Edição 1888 . 19 de janeiro de 2005

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Internacional
A saída pragmática

Palestinos elegem líder disposto a negociar
a paz, se os terroristas deixarem


Diogo Schel

NESTA REPORTAGEM
Quadro: A democracia no Oriente Médio

EXCLUSIVO ON-LINE
Em Profundidade: A Questão Palestina

"Nós temos muita religião para nos odiarmos, mas pouca para nos amarmos uns aos outros." Originalmente, a frase do escritor irlandês Jonathan Swift era uma reflexão sobre a realidade na Europa do século XVIII. Mas se encaixa bem nos conflitos endêmicos do Oriente Médio do século XXI, onde o fervor messiânico dos protagonistas é um fator que complica qualquer possibilidade de estabilização na região. O exemplo notável é o conflito entre judeus e árabes na Palestina. A rapidez com que se evaporam as promessas alvissareiras supera as expectativas dos mais pessimistas. A eleição de Mahmoud Abbas como substituto de Yasser Arafat, no domingo 9, é uma dessas aragens de ar fresco comemoradas em todo o mundo, incluindo aí as capitais que realmente importam – Washington e Jerusalém. Abbas é uma promessa de tempos melhores por vários motivos. O primeiro é simplesmente por não ser Arafat, não usar uniforme com o peito carregado de medalhas nem prometer, como Arafat, enviar 1 milhão de mártires para tomar Jerusalém. O veterano líder palestino, morto no ano passado, fora condenado ao ostracismo por israelenses e americanos. O segundo é sua fama de nacionalista pragmático. No contexto local significa, basicamente, que ele aceita o fato concreto de que os palestinos não podem vencer Israel no campo militar e que, nessas circunstâncias, é melhor negociar. O terceiro aspecto extraordinário das eleições nos territórios palestinos é o seu ineditismo: Abbas, eleito presidente da Autoridade Palestina na semana passada, é o único líder do mundo árabe escolhido democraticamente. E isso num pleito livre, direto e com observadores internacionais. Não se encontra equivalente nas outras nações árabes e islâmicas da região.

Reuters
NO COMANDO
Palestinos comemoram diante de cartaz de propaganda eleitoral de Mahmoud Abbas: a missão impossível do eleito é conquistar a confiança de palestinos, americanos e israelenses


Na última semana, terroristas palestinos realizaram um grande atentado, que matou vários israelenses. Previsível como um relógio, o primeiro-ministro Ariel Sharon anunciou que, diante desse fato, estão suspensas as conversas com o novo presidente palestino. Esse jogo de causa e efeito pode ser interpretado da seguinte forma: os terroristas não são capazes de vencer as eleições na Palestina, mas são capazes de impor sua visão de mundo pela força de suas atrocidades. Trata-se de uma equação que conecta três realidades diversas. A primeira é a Palestina. A segunda, Israel, onde colonos convencidos de que a terra lhes foi prometida por Deus se recusam a deixar um só centímetro dos territórios palestinos ocupados desde 1967. A terceira é o Iraque, que tem marcadas para o fim do mês as primeiras eleições democráticas de sua história. Como os palestinos, os iraquianos votarão sob ocupação militar. A diferença básica nesse ponto é que os americanos querem entregar logo as rédeas do país aos iraquianos e dar no pé quanto antes, o que não acontece com os israelenses. A semelhança é que as eleições iraquianas também são reféns do terrorismo de fanáticos islâmicos.

 
AP/Karim Kadim
A SOMBRA DOS XEQUES
Iraquiano com a foto de caciques xiitas

Com exceção de Israel e Turquia, que têm democracias plenas com possibilidade real de alternância de poder, os países do Oriente Médio vivem sob vários níveis de regimes autoritários. Há regimes brandos, como o do Egito. E há regimes de pesadelo, como o do Irã, uma teocracia controlada por aiatolás e regida por leis religiosas medievais. De certa forma, é mais razoável esperar uma abertura política entre as ditaduras nacionalistas e de caráter laico, como a da Síria, do que entre aquelas movidas pelo fanatismo religioso. O obstáculo para que as esperanças de paz e os projetos de democracia se concretizem no Oriente Médio são, em boa parte, as forças messiânicas, religiosas e nacionalistas que proliferam não só entre os muçulmanos, mas também entre os judeus.

Os partidários dessas vertentes fundamentalistas acreditam que a vontade de Deus é que eles matem e se deixem matar em defesa de uma visão utópica da sociedade. Estão nessa categoria os grupos terroristas palestinos, como o Hamas, que consideram a luta contra os israelenses uma guerra santa; e os colonos judeus que se acreditam donos de toda a Palestina por vontade divina. Abbas – conhecido entre os palestinos como Abu Mazen – e Sharon são líderes pragmáticos, mas não podem ignorar as forças fundamentalistas de suas nações. Abbas acredita que a criação do Estado palestino depende de uma solução negociada com Israel. Mas é improvável que ele vá fazer concessões além daquilo que é aceitável pela maioria dos palestinos. Abbas dificilmente terá poder militar e vontade política para desmanchar os grupos terroristas. Já Sharon é um pragmático de primeira viagem. Ferrenho opositor à criação do Estado palestino até poucos anos atrás, ele tem o plano de retirar todos os colonos judeus da Faixa de Gaza e alguns da Cisjordânia, os dois territórios palestinos ocupados por Israel. O que fez Sharon mudar de idéia foi um fato demográfico: como cresce a um ritmo mais acelerado, a população palestina deve ultrapassar a israelense em dez anos. "Manter sob ocupação milhões de palestinos seria péssimo para Israel", disse Sharon em 2003.

 
AFP/Maurício Lima
SANGUE EM BAGDÁ
Americanos socorrem feridos em ataque com carro-bomba: terror aumenta a pressão às vésperas das eleições

Nas eleições do Iraque também há um confronto entre forças fundamentalistas e pragmáticas, com algumas peculiaridades. A principal facção fundamentalista do país é uma das mais pragmáticas no que se refere às eleições: os xiitas, que são a maioria da população, sabem que essa é sua chance de abocanhar o poder iraquiano. Os grupos liderados por ambos os líderes xiitas estão em campanha para a Assembléia Constituinte, a ser eleita no fim do mês. Já os muçulmanos do ramo sunita, a minoria que governou o Iraque durante a ditadura de Saddam Hussein, preferem boicotar a votação. A onda de violência que transformou o país em caos, às vésperas do pleito, é atribuída a grupos sunitas. Eles argumentam que, se não for adiada, a votação será fraudulenta. Na verdade, o que os antigos partidários de Saddam querem não são eleições limpas. Eles querem eleições sujas, para que possam roubar a seu favor como fizeram durante todo o regime do ditador iraquiano. Na semana passada, enquanto o pragmático Abbas comemorava a vitória nas urnas na Palestina e os xiitas e curdos faziam campanha no Iraque, os ataques terroristas mataram mais de uma dezena de pessoas nas duas nações. Em ambos os casos, os militantes fundamentalistas pareciam querer dar a seguinte mensagem aos entusiastas árabes da novidade eleitoral: "Apesar de vocês, o Oriente Médio vai continuar sendo o lugar das esperanças de vida curta".

 
 
 
 
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