|
|
Entrevista: Henrique
Meirelles Eles querem o calote
O presidente do BC diz que seus críticos esbravejam tanto por não
ter coragem de dizer que desejam mesmo é o não-pagamento
da dívida interna  Marcio
Aith
Claudio Rossi
 | "No
Brasil, o lobby empresarial é muito agressivo e catastrofista. Aqueles
que defendem interesses costumam anunciar punições apocalípticas
caso seus pedidos não sejam atendidos" | |
Para Henrique Meirelles, o saldo pessoal de dois anos no comando do Banco Central
brasileiro é contraditório. Depois de trabalhar quase três
décadas no sistema financeiro privado, ele diz sentir-se feliz por ajudar
o país a adotar as melhores experiências internacionais de política
monetária e macroeconômicas. Está satisfeito com o crescimento
de 5% do país em 2004, o que provaria a correção da política
rigorosa de juros que ajudou a implementar e que caracterizaria os dois primeiros
anos do governo de Luiz Inácio Lula da Silva. No entanto, diz ter subestimado
duas coisas. Primeiro, a força de alguns setores que ainda acreditam em
"mágicas heterodoxas". Segundo, a quantidade e a estridência das
críticas que viria a receber. Diz Meirelles: "Quanto mais fracos os argumentos,
mais agressivos são os termos das críticas a uma política
que está dando certo". Na semana passada, em São Paulo, ao voltar
de Basiléia, na Suíça, onde participou de uma reunião
do Banco de Compensações Internacionais (BIS), Meirelles falou a
VEJA. Veja A economia brasileira
cresceu cerca de 5% em 2004. Os indicadores apontam mais solidez e menor vulnerabilidade.
Ainda assim, o senhor é visto em certos círculos como um malvado
que aumenta os juros e não deixa o país crescer com todo o seu potencial... Meirelles
Fico gratificado em concluir que felizmente a política monetária
se revelou adequada ao país. O crescimento veio exatamente pelas razões
que dizíamos ser aquelas que fariam a economia prosperar. O superávit
das contas externas e a redução do endividamento público
e da inflação correspondem exatamente às nossas expectativas
iniciais. Portanto, tenho de estar satisfeito pelo fato de tanto o diagnóstico
quanto o tratamento terem sido corretos. Veja
Mas e as críticas? Meirelles As críticas
são sempre saudáveis por estimular o debate e a reflexão.
No Brasil de hoje, porém, as críticas estão sendo feitas
não com base na força dos argumentos, mas na dos adjetivos. As opiniões
contrárias à ação do BC são muitas vezes apenas
frases bombásticas e agressivas. Outro dia alguém disse que o BC
é terrorista. Na impossibilidade de saber a real motivação
das pessoas que nos criticam dessa maneira, prefiro atribuir a estridência
do debate ao nosso curto histórico de busca da estabilidade econômica.
O bem-sucedido regime de metas de inflação e de flutuação
cambial aliado ao rigor fiscal funciona há apenas 23 trimestres no Brasil.
É uma série muito curta, insuficiente para criar um consenso maior
sobre a eficiência das metodologias modernas de administração
monetária e macroeconômica. Veja
Mas o BC não é criticado justamente por se manter
aferrado a uma visão única? Meirelles O Brasil
é um país grande que olha muito pouco para fora. Temos como característica
estar sempre tentando reinventar a roda. Alguns analistas teorizam dizendo até
que o país não deveria valer-se de soluções originadas
em outros países. Segundo esse tipo de análise, temos o dever de
buscar soluções "nossas", "criativas" e "originais". Ora, nossos
fracassos se deveram no passado justamente a essa recusa em aceitar as lições
de sucesso de experiências comprovadamente eficazes obtidas em outros países.
Isso faz com que, no Brasil, uma prioridade óbvia para todo o mundo, como
o combate à inflação, seja discutida e rediscutida várias
vezes. Isso não é ser criativo ou original. É ser míope.
Veja O senhor acredita que a estabilidade
econômica e a manutenção do poder de compra da moeda são
já valores básicos introjetados na sociedade brasileira? Meirelles
O curto período de estabilidade da nossa economia já
fez com que o setor empresarial tivesse um horizonte de planejamento maior e,
portanto, investisse mais. Mas ainda precisamos de mais tempo e de mais sucesso
para ficar claro de uma vez por todas que a previsibilidade é uma característica
nacional, um padrão de comportamento dos nossos agentes econômicos.
Precisamos como sociedade introjetar e absorver os avanços recentes da
ciência econômica e das boas experiências internacionais. O
risco de fazer o contrário é cair no obscurantismo e no atraso.
Precisamos escapar da maldição epitomizada pelo Bando dos Quatro
durante a Revolução Cultural de Mao Tsé-tung, na China, quando
se condenavam como macaquices ocidentais até mesmo a química, a
biologia e a engenharia. Boa parte dos críticos mais duros da política
do BC amadureceu seu pensamento quando ainda não haviam sido desenvolvidas
as ferramentas estabilizadoras atuais como o câmbio flutuante, as metas
inflacionárias e a produção de superávits fiscais.
Em uma comparação, eles seriam como médicos cujas formação
e prática precedem as descobertas da assepsia e da anestesia.
Veja Muitos economistas dizem que a política
monetária tem só "um quinto de ciência e quatro quintos de
arte". Afinal, política monetária é ciência ou intuição?
Meirelles Fico cada vez mais impressionado com o nível de
racionalidade, de profundidade de análise e de informação
à disposição do exercício da política monetária
hoje. Não há nada de ilógico ou de artístico no que
fazem os presidentes dos maiores bancos centrais do mundo. Houve uma grande evolução
da teoria e da prática de combate à inflação nos últimos
trinta anos. Não podemos nos desfazer da atual metodologia de controle
da inflação com base apenas numa suposta intuição
genial que, por algum especial favor divino, teria se desenvolvido apenas no Brasil.
Veja Como se deu a evolução
dos mecanismos de estabilização econômica que o senhor tanto
enfatiza? Meirelles Ao assumir o banco central americano,
o Fed, Paul Volcker (presidente da instituição entre 1979 e 1987)
aplicou a metodologia mais moderna disponível então para debelar
uma galopante e teimosa inflação, o controle da expansão
dos chamados agregados monetários (toda forma de dinheiro que circula
na economia). Com esse objetivo, Volcker aumentou os juros para brutais 21%
ao ano. Isso quebrou a espinha dorsal da inflação nos EUA, facilitando,
portanto, seu controle nos anos seguintes. O custo veio na forma de uma recessão
tão profunda que deixou a impressão generalizada de que o controle
dos agregados monetários é uma operação tosca, sempre
sujeita a exageros. Era mesmo. Para encurtar a história, a Nova Zelândia
desenvolveu nos anos 90 um sistema de metas que ancora a inflação
não mais nos agregados ou no câmbio, mas na expectativa futura de
preços. A medida equivalia, na prática, a ter um banco central que
anunciasse: farei o que for preciso para manter a inflação nos padrões
aceitáveis. Desde que empresários e consumidores acreditassem nessa
determinação, a inflação acabaria baixando sem muito
custo para a sociedade. Os agentes econômicos passariam a definir seus preços
e hábitos com base na expectativa de inflação do banco central,
sem que fosse preciso usar anestesia geral para extrair um espinho. Para que esse
sistema funcionasse na Nova Zelândia e nos outros países que o adotaram,
no entanto, foram necessárias persistência e credibilidade na perseguição
das metas. É justamente isso que estamos fazendo no Brasil. Veja
No início, até o próprio Fundo Monetário
Internacional (FMI) duvidou da adoção do sistema de metas de inflação
em países emergentes. Alegava-se que, devido aos freqüentes reajustes
de preços administrados e ao impacto das altas cíclicas do dólar
e do petróleo nessas economias, o consumo teria de ser sufocado exageradamente
para manter os preços em ordem. Isso seria impossível de obter em
países politicamente instáveis. A crítica fazia ou faz sentido?
Meirelles É normal que, quando se desenvolve uma nova tecnologia,
como o regime de metas de inflação ou o câmbio flexível,
existam debate, críticas e dúvidas. Em 1998, ouvi um grande analista
declarar em Nova York, para uma platéia atenta, que moedas de países
emergentes nunca flutuam, mas afundam. As experiências subseqüentes
mostraram que isso não procedia. Hoje, aliás, as preocupações
do Brasil são inversas. No caso das metas de inflação, o
regime brasileiro já prevê a possibilidade de choques externos, da
variação dos preços administrados e de outras peculiaridades.
É por isso que, embora a meta original brasileira seja de 4,5% para 2005,
nós já anunciamos que perseguiríamos 5,1%. Essa meta superior
foi fixada justamente por causa dos choques que houve em 2004 e que terão
efeito em 2005. Além disso, o intervalo de tolerância para a meta
brasileira, de 2,5 pontos porcentuais, é o maior entre os sistemas adotados
no mundo. Portanto, o modelo brasileiro está preparado para lidar com idiossincrasias
e riscos. A experiência acabou demonstrando que regimes de metas de inflação
são ainda mais vitais para economias emergentes, onde a cultura da inflação
baixa não é ainda arraigada. Veja
O real é a moeda que mais se valorizou perante o dólar
nos últimos dois anos. Alguns analistas dizem que foi o BC que provocou
essa valorização ao fixar juros num patamar alto e estimular a entrada
de recursos. O objetivo oculto do BC, segundo os críticos da política
monetária, seria usar o dólar barato para segurar preços.
Essa análise é correta? Meirelles Em primeiro
lugar, é preciso lembrar que existem diversos fatores que influenciam a
taxa de câmbio e que a política monetária não é
o mais forte desses fatores. Em segundo lugar, a crítica pressupõe
que a taxa de juros esteja excessivamente elevada. Isso não é verdade,
pois, como se sabe, uma taxa de juros excessivamente elevada traria as expectativas
de inflação para um patamar abaixo da meta, o que não está
ocorrendo. Finalmente, é bom lembrar que no atual regime a taxa de juros
é fixada levando-se em conta a meta de inflação, e não
uma meta para o câmbio. O Banco Central não pode trabalhar com duas
metas. Além disso, as previsões apocalípticas sobre o efeito
do câmbio nas exportações não se confirmaram. Pelo
contrário, tivemos superávit em conta corrente e o maior saldo comercial
da história. No Brasil, o lobby empresarial é muito agressivo e
catastrofista. Quem defende interesses, mesmo os legítimos, o faz anunciando
catástrofes e punições àqueles que não lhes
atenderem. Veja Mas parece fora
de dúvida que as taxas de juros no país, por serem as mais altas
do universo, atraem capitais voláteis de todas as origens, não?
Meirelles As taxas de juros no Brasil são altas. Elas são
resultado do risco-país, da história econômica do Brasil e
talvez até dessa alta temperatura do debate. Isso gera um tal nível
de ruído que atrapalha a percepção dos investidores externos.
Mas a inflação, o crescimento econômico e os demais indicadores
mostram que essa taxa é adequada. Isso não impede que todos nós
torçamos para que ela caia substancialmente nos próximos anos. Mas
não pode ser por mágica. No Brasil, se confunde desejo com diagnóstico.
Se um médico nos recomenda que paremos de comer doces, podemos até
não gostar da recomendação, mas não podemos atacá-la.
Não faz sentido dizer: "Como é que ele me proíbe de comer
doce se é muito bom comer doce?". O que os críticos não dizem
é que baixar os juros drasticamente equivale a dar um calote nos investidores
que têm papéis do governo, inclusive nos domésticos, que perfazem
70% da dívida pública. Alguns críticos não admitem,
mas a única alternativa que sugerem é o calote. Não há
dúvida de que nossas taxas de juros são altas e que isso é
ruim. Mas temos de aplicar as taxas que sejam adequadas para o país em
cada momento. À medida que a política monetária for bem aplicada,
que a inflação estiver consistentemente na meta e o endividamento
do país declinar, certamente as taxas vão cair. Veja
Por falar em calote, a moratória argentina tem sido vendida,
inclusive por integrantes do PT no governo, como modelo a ser copiado. Qual é
sua opinião sobre a recuperação argentina? Meirelles
Torço pela Argentina. A solução dos problemas
de nosso vizinho será muito positiva para o Brasil. Não é
um jogo de soma zero. Quanto mais a Argentina melhorar, melhor para o Brasil.
Calotes fazem muito mal, e a Argentina pagou um preço muito alto em termos
de perda de produto e, principalmente, da produção industrial. Mas
é crucial lembrar que, no caso argentino, o calote não foi uma opção,
muito menos uma opção do atual governo. Eles só estão
tentando resolvê-lo. A administração que deu o calote foi
apeada do poder. Veja O senhor
se surpreende quando um banco internacional recomenda a investidores a compra
de títulos argentinos em detrimento de papéis brasileiros? Meirelles
Recomendações como essa não são julgamentos
sobre a solidez dos países, mas simples dicas de investimento. Qualquer
investidor que tivesse comprado o papel do Brasil em setembro de 2002, quando
nosso risco-país estava em 2.400 pontos, teria ganho dinheiro mesmo que
o país não tivesse dado muito certo. Se o risco tivesse caído
para 1.400, e não para os 400 pontos de hoje, quem comprou os papéis
por 2.400 teria ganho dinheiro. Portanto, é plausível que analistas
recomendem a compra de papéis argentinos. Não há dúvida
de que o risco argentino está muito alto, e sua tendência é
cair. Veja O crescimento da economia
brasileira em 2004 ficou abaixo do verificado na maioria dos países emergentes
como Turquia, China e Rússia. Crescemos por méritos próprios
ou por um ciclo mundial de expansão? Meirelles Nosso
crescimento de 5% é um avanço extraordinário se constatarmos
que a expansão de nossa economia ficou abaixo de 2% entre 1990 e 2003.
Demos um passo gigantesco. Estamos resolvendo alguns problemas fundamentais no
país. Nossa dívida em relação ao PIB está caindo
não só pelo crescimento da economia, mas também por um esforço
fiscal enorme. Se o Brasil fosse membro da União Européia, já
poderia passar no teste do Tratado de Maastricht, pelo qual o déficit nominal
deve ficar abaixo de 3%. Estamos prevendo um déficit nominal de 2,9%. Não
há dúvida de que o Brasil deve crescer e não pode depender
somente do ajuste fiscal. O Brasil está dando certo por vários fatores.
Está aplicando uma política fiscal sólida e rigorosa e tem
uma agenda de reformas consistente. O BC não tem a autonomia formal, mas
uma autonomia prática que é garantida e concedida pelo presidente
da República. Ele tem dado um apoio excepcional ao BC e demonstrado um
nível de conhecimento e de informação impressionante sobre
política monetária. O presidente vai decidir quando e se vai enviar
um projeto formal de autonomia do BC. Portanto, posso assegurar que o Brasil está
claramente caminhando na direção correta. |