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Em
foco: Gustavo Franco Antes
da reforma tributária
"No dia
em que tivermos uma reforma de
profundidade nos orçamentos públicos
vai ser possível discutir simultaneamente a
pertinência dos impostos e a das despesas"
Faz muito tempo que descrever nosso sistema tributário
como um manicômio deixou de ter graça. O assunto se tornou inconveniente,
como o da violência, pois adquire uma coloração diferente
quando nos atinge, e nos dias de hoje não há quem não tenha
uma história triste, ou trágica, para contar quando se trata de
assaltos, ou de impostos, taxas, contribuições, livros e fiscalizações,
federais, estaduais, municipais, previdenciárias ou trabalhistas.
A grande pergunta é por que tem de ser assim, ou o que foi que deu errado
para que as distorções se tornassem tão avassaladoras.
Não pense o leitor que existe uma resposta fácil, talvez quem sabe
relacionada com a nossa pervertida identidade nacional: enquanto os Estados Unidos
tiveram sua independência associada a uma revolta contra os impostos, no
Brasil essa revolta foi derrotada e a independência se construiu sobre pressupostos
diferentes, muito piores.
Ilustração
Ale Setti
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Mais
útil é lembrar que nosso sistema tributário foi profundamente
influenciado pela tragédia fiscal que experimentamos do lado da despesa
no período em que vivemos sob hiperinflação: despesas de
65% do PIB com receitas de 25% do PIB, e um "rombo" nas contas do governo na faixa
de 40% do PIB em média para 1985-1994. E isso antes das reestruturações
das dívidas de estados e municípios, da renegociação
da dívida externa, das privatizações, reformas e reconhecimento
de "esqueletos" que ocorreram no período posterior ao Plano Real.
É certo dizer que, à medida que a tragédia
foi se consumando, a Receita foi trabalhando patrioticamente, dentro de sua área
de competência, no sentido de alcançar a despesa, especialmente depois
de 1994, tal qual, por exemplo, a Petrobras buscava a meta também inicialmente
impossível de auto-suficiência em petróleo.
A diferença talvez estivesse no fato de que o consumo nacional de petróleo
tinha lógica e limite, enquanto o desejo de gastar dinheiro público
era infinito e ilimitado, mas não em razão de nossa natureza pervertida,
mas de nossas instituições orçamentárias. O fato é
que a Receita, ao contrário da Petrobras, nunca conseguia reduzir a distância.
A meta parecia se mover, não importava a sucessão de recordes de
arrecadação, sempre aparecia mais e mais despesa no orçamento,
de tal sorte que a urgência permanecia, tornava-se crônica.
No fim dos anos 90, a Lei de Responsabilidade Fiscal resolveu parte do problema
à medida que estabeleceu limites de endividamento e uma série de
outros controles sobre a execução do orçamento, mas nada
avançou sobre o orçamento em si, ou seja, nada foi feito com o intuito
de disciplinar a formação da despesa pública: sonhar não
foi considerado irresponsabilidade. Com efeito, sonhar é o que fazem a
Lei Orçamentária e, especialmente, o Plano Pluri-Anual (PPA). Lá
são colocadas todas as despesas que se acha bonito fazer, pois, ao fim
das contas, o orçamento é apenas uma autorização para
gastar e, portanto, nada mais que uma coleção de boas intenções.
Não importa que apenas um porcentual pequeno do que se autoriza acabe sendo
executado, e pelos piores critérios que se pode imaginar. O desgaste político
em fazer orçamentos e planos realistas sempre pareceu grande demais, de
modo que se mantém a ficção, inclusive e principalmente,
como instrumento de controle fisiológico do Congresso.
O problema é que a ficção não é inofensiva;
enquanto perdurar esse sistema que incha a despesa de forma irreal, a Receita
continuamente se manterá abaixo do "sonho", e os coletores de impostos
vão se sentir investidos da autoridade para buscar os recursos para cumprir
as metas de despesa, não importa de que forma. E, assim, nunca haverá
"excesso de arrecadação" e, para toda "bondade", farão sempre
uma "maldade" compensatória, como temos visto recentemente.
No dia em que tivermos uma reforma de profundidade nos orçamentos públicos
vai ser possível discutir simultaneamente a pertinência dos impostos
e a das despesas. Só depois da reforma orçamentária, a reforma
tributária vai andar de verdade.
Gustavo Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central
(gfranco@palavra.com
– www.gfranco.com.br)
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