Edição 1888 . 19 de janeiro de 2005

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Carta ao leitor
Culto à mediocridade

 
Sérgio Lima/Folha Imagem
O ministro Amorim: inglês é elitista. Francês e espanhol não

Em si, a decisão do Itamaraty de diminuir o peso do idioma inglês nas provas de admissão ao Instituto Rio Branco, porta de entrada da diplomacia brasileira, nada tem de absurda. A idéia declarada do Ministério das Relações Exteriores foi a de não podar as chances de candidatos bem preparados na maioria das disciplinas apenas por terem sido superados por outros no grau de domínio do idioma inventado literariamente por Geoffrey Chaucer na Inglaterra do século XIV, enriquecido por William Shakespeare 200 anos mais tarde e transformado em uma espécie de língua universal no século passado pela emergência dos Estados Unidos como potência mundial.

Ao justificar a medida, porém, Celso Amorim, ministro das Relações Exteriores, enrolou-se em argumentos que revelam um culto ao "homem comum", em voga no Brasil e que esconde tão-somente a reverência à mediocridade. Amorim justificou a decisão dizendo que é preciso acabar com a "elitização da carreira" e que o "inglês deve deixar de ser indispensável". Como prova de suas convicções, revelou que dera uma entrevista em francês e falara em espanhol.

A razão pela qual o ministro Amorim considera elitista falar inglês, mas não comunicar-se em francês e em espanhol, é mais uma das insondáveis dissimulações do comando da diplomacia brasileira, que, movido por ideologias, utopias e irrealismo, elegeu prioridades que afastaram o Brasil dos veios mais promissores do comércio mundial, em especial do mercado americano.

Difícil entender as razões para desdenhar o inglês, que se tornou a língua universal do comércio, do turismo, da diplomacia, das finanças, das ciências e, em sua forma mais rarefeita e maltratada, da internet. A busca por idiomas comuns é prevalente na história humana. A seu tempo, o grego, o latim e o francês exerceram esse papel no passado. Os índios brasileiros, por eras, resolveram suas diferenças em nheengatu, a língua geral das diferentes tribos.

A decisão da diplomacia revela desconhecimento da realidade contemporânea e um antiamericanismo tosco. Essa estreiteza de visão desserve ao país e produz uma perplexidade: por que, tendo sido em governos passados celeiro de idéias e quadros brilhantes para a alta administração, o Itamaraty se tornou sob o PT a vanguarda do atraso nacional?

 
 
 
 
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