|
Auto-retrato
Mário Soares
AFP
 |
No mês passado, o líder socialista português
Mário Soares completou 80 anos e anunciou sua aposentadoria.
Em 62 anos de carreira política, Soares liderou a Revolução
dos Cravos, foi presidente duas vezes e primeiro-ministro outras
três. De Lisboa, ele conversou com a repórter Camila
Antunes sobre política e seus amigos brasileiros
O QUE O SENHOR PRETENDE FAZER NA SUA APOSENTADORIA?
Apenas me retirei da política. Não quero mais cargo
público nem participar do partido. Mas vou dar opinião,
escrever artigos e aconselhar políticos.
COMO O SENHOR COMPARA OS POLÍTICOS
DE HOJE COM OS DE SUA GERAÇÃO?
Minha geração foi presa, exilada e resistiu à
ditadura. Eu mesmo fui preso doze vezes. Os novos não são
melhores nem piores, mas dão muita importância ao marketing,
à imagem e à televisão.
COMO ESTÁ PORTUGAL?
Temos um problema financeiro. Vivemos acima do que podemos pelos
critérios da União Européia. O déficit
fiscal máximo é de 3% do PIB. O nosso supera 5%. O
poder econômico contagiou a política. Os crimes de
colarinho branco e o tráfico de influência aumentaram.
A corrupção não era habitual.
COMO ISSO SE REFLETE NO DIA-A-DIA?
O desemprego sobe em flecha. Os países, como as pessoas,
têm bons e maus momentos. Em Portugal, diz-se: "Atrás
de tempo, tempo vem".
PORTUGAL PODE AJUDAR O BRASIL NAS NEGOCIAÇÕES
COMERCIAIS COM A EUROPA?
O Brasil não precisa de intermediários. Já
para Portugal, a proximidade com o Brasil é estratégica.
A união da América Latina com a Europa poderá
nos deixar mais à vontade para enfrentar os Estados Unidos,
que, às vezes, são um bocado exorbitantes e incômodos.
O QUE O SENHOR PODERIA DIZER SOBRE OS PRESIDENTES
BRASILEIROS QUE CONHECEU?
Salvo erro, foram dez. O primeiro foi Jânio Quadros. Conheci
Juscelino Kubitschek em seu exílio em Lisboa e Ernesto Geisel
numa visita oficial que fiz ao Brasil. Ele presidia a ditadura militar.
Eu dirigia um governo de esquerda. Pudemos entender-nos, não
obstante o que nos separava. Conheci mal João Figueiredo,
mas contribuí para abortar uma vaia que lhe estava sendo
preparada em Lisboa pelos deputados portugueses. Não fiz
isso por ele, mas pelo Brasil. Tancredo Neves era encantador e arguto.
Oferecemos-lhe um jantar na véspera de sua posse. Faltou,
disseram, por um "ligeiro incômodo de saúde". Sou amigo
de José Sarney, Itamar Franco e Fernando Henrique, com quem
escrevi um livro. Collor era uma personalidade errática,
mas com incontestável charme. Lula é uma referência
para a esquerda.
LULA JÁ PODE SER COMPARADO A OUTROS
LÍDERES DA ESQUERDA, COMO O INGLÊS TONY BLAIR E O ALEMÃO
GERARD SCHRÖEDER?
Blair e Schröeder se deixaram influenciar em excesso pelo neoliberalismo.
Sou muito crítico de Blair, porque ele assumiu posição
frontal no caso da guerra contra o Iraque. Lula está introduzindo
as políticas sociais necessárias e possíveis.
É um grande presidente.
O SENHOR VISITA O BRASIL COM FREQÜÊNCIA.
O QUE MAIS O ATRAI NO PAÍS?
O que eu gosto mais de tudo é a feijoada. Também dos
sucos, da paisagem, da gente, da alegria, das novelas. Devia ser
mesmo brasileiro. Fui ao Brasil pela primeira vez aos 40 anos. Se
tivesse ido aos 20 anos, teria ficado.
|