Edição 1888 . 19 de janeiro de 2005

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André Petry
Crueldade católica

"É irônico constatar que o Chile é mais
generoso com seu ex-ditador, o velho
Augusto Pinochet, dono de um currículo
de roubalheiras e assassinatos, do que
o Vaticano com seu velho bispo, dom
Pedro Casaldáliga"

O Vaticano nunca foi, nem se espera que um dia seja, um exemplo de democracia – até porque representa um império dogmático, e não um clube de debates. Agora, mesmo sem ser democrático, o Vaticano não precisava ser cruel. É exemplarmente cruel a decisão de expulsar dom Pedro Casaldáliga de São Félix do Araguaia, cidadezinha de 10.000 habitantes situada no nordeste de Mato Grosso. Casaldáliga foi bispo de São Félix do Araguaia por três décadas e hoje, aos 76 anos, já aposentado de suas funções religiosas, sofre do mal de Parkinson, é diabético e hipertenso. E o Vaticano, esse monumento de generosidade e solidariedade humana, quer expulsar o velhinho doente da cidade onde viveu metade de sua vida. É uma vergonha, mas dá para explicar: o Vaticano deve estar querendo se vingar de Casaldáliga, um catalão irreverente, que denunciava a tortura política em plena ditadura militar, ficou quase vinte anos sem se apresentar nas audiências obrigatórias com o papa, defendia a ordenação de mulheres e recomendou que a morada papal, em vez das suntuosas dependências romanas, fosse uma capelinha simples.

Ao contrário do que pensa parcela da Igreja Católica, dom Pedro Casaldáliga é um paradigma das virtudes cristãs, mesmo para quem discorda de suas posições abertamente à esquerda. Casaldáliga foi a primeira voz, em plena década de 70, a denunciar a existência de trabalho escravo na região amazônica. Deve-se a ele o fato de que, hoje em dia, o governo federal combate o trabalho escravo, ainda concentrado na região amazônica, com uma política pública de caráter humanitário e sem viés ideológico. Como fundador da Comissão Pastoral da Terra, ajudou a difundir a dura realidade agrária dos confins do Brasil, um drama que o país urbano tende a esquecer com facilidade. E fez tudo isso sem que lhe faltasse picardia para dizer, por exemplo, que a velha Sudam – aquela do Jader Barbalho – era "a prostituta do latifúndio, com o perdão das prostitutas". Também se deve a Casaldáliga a deliciosa avaliação de que Fernando Henrique Cardoso "era melhor quando era ateu". Bem, agora o Vaticano quer mandar o velhinho passear... Diz que o sucessor talvez fique constrangido com a presença esmagadora de Casaldáliga em São Félix do Araguaia...

Ora, ora. É pura retaliação do Vaticano à trajetória rebelde do bispo. Sua irreverência e criatividade sempre irritaram a cúpula do Vaticano. Na arte, Casaldáliga fez parceria com Pedro Tierra e Milton Nascimento, criando a belíssima Missa dos Quilombos, a história cantada dos negros no Brasil e no mundo. Ecumênico, Casaldáliga tem orações escritas que encerravam com "amém, axé, aleluia". Perspicaz, Casaldáliga costuma afirmar que "a vida é crise", e assim nunca deixou de dizer o que pensava e batia de frente com o espírito brasileiro de acomodação. É irônico constatar que o Chile é mais generoso com seu ex-ditador, o velho Augusto Pinochet, dono de um currículo de roubalheiras e assassinatos, do que o Vaticano com seu velho bispo.

 
 
 
 
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