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André
Petry Crueldade católica
"É
irônico constatar que o Chile é mais generoso com seu ex-ditador,
o velho Augusto Pinochet, dono de um currículo de roubalheiras
e assassinatos, do que o Vaticano com seu velho bispo, dom Pedro Casaldáliga"
O Vaticano nunca foi, nem se espera que um
dia seja, um exemplo de democracia até porque representa um império
dogmático, e não um clube de debates. Agora, mesmo sem ser democrático,
o Vaticano não precisava ser cruel. É exemplarmente cruel a decisão
de expulsar dom Pedro Casaldáliga de São Félix do Araguaia,
cidadezinha de 10.000 habitantes situada no nordeste de Mato Grosso. Casaldáliga
foi bispo de São Félix do Araguaia por três décadas
e hoje, aos 76 anos, já aposentado de suas funções religiosas,
sofre do mal de Parkinson, é diabético e hipertenso. E o Vaticano,
esse monumento de generosidade e solidariedade humana, quer expulsar o velhinho
doente da cidade onde viveu metade de sua vida. É uma vergonha, mas dá
para explicar: o Vaticano deve estar querendo se vingar de Casaldáliga,
um catalão irreverente, que denunciava a tortura política em plena
ditadura militar, ficou quase vinte anos sem se apresentar nas audiências
obrigatórias com o papa, defendia a ordenação de mulheres
e recomendou que a morada papal, em vez das suntuosas dependências romanas,
fosse uma capelinha simples. Ao contrário
do que pensa parcela da Igreja Católica, dom Pedro Casaldáliga é
um paradigma das virtudes cristãs, mesmo para quem discorda de suas posições
abertamente à esquerda. Casaldáliga foi a primeira voz, em plena
década de 70, a denunciar a existência de trabalho escravo na região
amazônica. Deve-se a ele o fato de que, hoje em dia, o governo federal combate
o trabalho escravo, ainda concentrado na região amazônica, com uma
política pública de caráter humanitário e sem viés
ideológico. Como fundador da Comissão Pastoral da Terra, ajudou
a difundir a dura realidade agrária dos confins do Brasil, um drama que
o país urbano tende a esquecer com facilidade. E fez tudo isso sem que
lhe faltasse picardia para dizer, por exemplo, que a velha Sudam aquela
do Jader Barbalho era "a prostituta do latifúndio, com o perdão
das prostitutas". Também se deve a Casaldáliga a deliciosa avaliação
de que Fernando Henrique Cardoso "era melhor quando era ateu". Bem, agora o Vaticano
quer mandar o velhinho passear... Diz que o sucessor talvez fique constrangido
com a presença esmagadora de Casaldáliga em São Félix
do Araguaia... Ora, ora. É
pura retaliação do Vaticano à trajetória rebelde do
bispo. Sua irreverência e criatividade sempre irritaram a cúpula
do Vaticano. Na arte, Casaldáliga fez parceria com Pedro Tierra e Milton
Nascimento, criando a belíssima Missa dos Quilombos, a história
cantada dos negros no Brasil e no mundo. Ecumênico, Casaldáliga tem
orações escritas que encerravam com "amém, axé, aleluia".
Perspicaz, Casaldáliga costuma afirmar que "a vida é crise", e assim
nunca deixou de dizer o que pensava e batia de frente com o espírito brasileiro
de acomodação. É irônico constatar que o Chile é
mais generoso com seu ex-ditador, o velho Augusto Pinochet, dono de um currículo
de roubalheiras e assassinatos, do que o Vaticano com seu velho bispo. |