Edição 1 632 -19/1/2000

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Que venha a turma dos bancos do fundo

Os feitos de antigos primeiros da classe recomendam que se entregue o poder aos maus alunos

Albert Einstein foi aluno sofrível. Incomodava-o a rígida disciplina da escola alemã de fins do século XIX. Aos 15 anos, com más notas em história, geografia e línguas, abandonou a escola de Munique em que estudava. Foi retomar os estudos tempos depois, na Suíça. Charles Darwin apresentava tão medíocre rendimento escolar que o pai lhe lançou um anátema, quando tinha 16 anos: "Você será uma desgraça para sua família e para si mesmo". Na faculdade de medicina, aonde chegou aos tropeções, era tomado por tédio mortal, nas aulas teóricas, e tinha enjôo ao assistir à dissecação de cadáveres. E o poeta Carlos Drummond de Andrade? Este foi expulso da escola dos jesuítas em Nova Friburgo (RJ) por "insubordinação mental". Por insistência da família acabou fazendo uma faculdade. Formou-se em farmácia.

Ser mau aluno não prenuncia necessariamente, como se vê, um futuro medíocre. Inversamente, ser bom aluno não quer dizer que a pessoa está fadada a um futuro brilhante, nem que seja especialmente dotada, nem mesmo que seja a mais inteligente da turma. Pode querer dizer apenas que é a mais conformada. Ou mais reprimida. Ou mais enquadrada. No entanto, existe uma corporação que ainda dá alto valor ao bom aluno. Ou melhor: bom aluno é pouco. Ao melhor. O primeiro. Existe uma corporação em que o primeiro da classe, ou primeiro da turma, é cultuado como santo no altar. Essa corporação são as Forças Armadas.

É o que se aprende, ou que se recorda, para quem já sabia, ao ler a edição de VEJA da semana passada. A revista tem bom número de páginas dedicadas a militares. Começa com uma entrevista, nas páginas amarelas, do brigadeiro Walter Bräuer, demitido recentemente do comando da Força Aérea, continua com as inéditas conversas do presidente João Figueiredo, recentemente falecido, com o fotógrafo Orlando Brito e termina com uma nota sobre o capitão-deputado Jair Bolsonaro, de volta à atualidade por pregar o fuzilamento do presidente da República. Há duas referências a primeiro da turma, nesses textos. A primeira é de Bräuer: "Sempre fui primeiro da turma, desde o primário até o generalato". A segunda é de Figueiredo, ao falar do general Costa e Silva: "Sempre foi o primeiro colocado onde quer que tenha estudado".

De que serviu ao brigadeiro Bräuer o excelente rendimento escolar? É a pergunta que surge, ao se constatar que, na plenitude dos 62 anos, ele se confessa incapaz, no trecho de maior repercussão da entrevista, de julgar Adolf Hitler. "Eu não defendo Hitler, mas também não posso atacá-lo", diz. Na mesma entrevista, concedida à jornalista Sandra Brasil, ele ataca a criação do Ministério da Defesa e a privatização da Infraero – mas não vê razões para atacar Hitler! O führer do III Reich tinha uma personalidade "um pouco distorcida", segundo o brigadeiro, mas era "um líder" e, "se conseguiu mobilizar uma nação como a Alemanha, devia ter o seu valor". E a Costa e Silva, de que valeram os lauréis escolares? Sua maior qualidade era o espírito decidido, segundo Figueiredo. Quando pairava sobre algum político a suspeita de infidelidade ao regime, dizia logo, com seu sotaque gaúcho: "Que se lhe casse, então!" Claro, ele tinha os tanques, os aviões, as belonaves e as polícias a facilitar-lhe as decisões, mas e daí? Era decidido. Cassava com destemor.

O próprio Figueiredo, embora não o diga na reportagem, foi primeiro da turma. Por isso, ao se formar, em 1937, mereceu a distinção de receber o espadim do próprio presidente, Getúlio Vargas – incidentalmente, o homem que lhe prendera o pai, revolucionário de 1932. O excelente aluno Figueiredo declara, numa das conversas com Brito, que boa solução para a favela da Rocinha seria atirar-lhe uma bomba atômica. Numa fita exibida pela Rede Globo, já aparecera dizendo que uma vez, na Igreja do Bonfim, foi tão abraçado pelas baianas que, por mais banho que tomasse, não se livrava do "cheirinho de crioulo". Quanto ao capitão Bolsonaro, outro personagem da última VEJA, não foi primeiro da turma, mas também não se saiu mal – foi o sétimo de uma turma de mais de quarenta na Academia Militar. O feito que o projetou foi um plano de explodir bombas em quartéis, para protestar contra a prisão de um sargento e os baixos soldos dos militares.

Entre os civis, faz tempo que o prestígio do primeiro da classe está abalado. Sabe-se que não se atravessa a escola e a vida, necessariamente, no mesmo compasso. É compreensível que nas Forças Armadas, onde são soberanos os valores da hierarquia e da disciplina, ainda perdure – mas precisavam nos mandar primeiros da classe, e bons alunos, como esses? Um tem palavras carinhosas para Hitler, outro quer fuzilar o presidente, outro, jogar bomba atômica na favela... Que venham os últimos da classe, é o que se conclui. Que venham aqueles que sentavam nos bancos do fundo e conversavam na aula. Aqueles repetentes já com pêlo no rosto, em oposição à maioria imberbe. Que venham comandar as Forças Armadas. Que venham governar o país.