Edição 1 632 -19/1/2000

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A águia e os urubus

O novo disco de João Gilberto: voz e violão
para dar algum sentido à imitação

José Ramos Tinhorão*

O aparecimento do CD em que o violonista-cantor João Gilberto aparece cumprindo à risca a indicação do título – João Voz e Violão – vem demonstrar, 42 anos depois da estréia em disco de sua "batida diferente", que, se a música popular fosse obra de deuses, ele pairaria alto como a águia de Zeus sobre o acanhado Olimpo de aves rasteiras que se convencionou chamar de bossa nova.

Aliás, ante mais essa demonstração da singularidade da criação joãogilbertiana – afinal oferecida sem a "contribuição" dos enfeites harmônicos de arranjos invariavelmente jazzísticos –, parece chegada a hora de desvincular João Gilberto do tipo de música que normalmente se produz (e não apenas no Brasil, mas no exterior) sob o nome artístico-comercial de bossa nova.

 
Marcos Rosa

João Gilberto: única contribuição
original a um estilo copiado
do jazz americano


Na verdade, o que desde 1958 se viria a denominar de bossa nova nada mais representa do que a montagem, no país, de uma versão "nacional" da música popular americana, por meio do uso da requintada polirritmia do bebop branco de meados da década de 1940, aliada à harmônica fala mansa do cool jazz do pós-II Guerra Mundial. Novidades musicais que, aliás, chegavam ao Brasil exatamente quando, em 1960, o presidente Juscelino Kubitschek declarava inaugurada a indústria automobilística brasileira, com um discurso nacionalista na fundação de Brasília, diante de alguns exemplares de automóveis Alfa Romeo, trazidos às pressas da Itália, ostentando a marca JK. Hoje, quase meio século passado dessa euforia de auto-enganos, proporcionada pela súbita vontade nacional de superação da inferioridade do subdesenvolvimento, não há como deixar de relembrar como História o que foram essas ilusões.

O aparecimento de numerosas camadas de classe média nas principais cidades brasileiras, surgidas em conseqüência da euforia econômica proporcionada pelas chamadas "oportunidades da guerra", havia determinado a partir de 1940, no Rio de Janeiro, a explosão de um surto imobiliário que, em poucos anos, estava destinado a transformar o bairro de Copacabana num dos maiores pólos de concentração urbana do país. A característica dessa gente, atraída de todos os pontos da cidade pelo fascínio de morar na "Zona Sul" – o que significava acesso fácil às praias e vida sob novos padrões cosmopolitas –, era a extrema recusa ao tradicional, ou seja, a tudo o que lembrasse sua recente vida na província. Assim, quando os filhos dessa primeira geração de emergentes da antiga sociedade ainda muito severa e patriarcal chegaram à adolescência, na década de 1950, os pais resolveram oferecer-lhes como desforra de suas frustrações tudo o que não lhes tinha sido dado conseguir: acesso ao ensino superior, vida saudável e esportiva e adesão a formas mais liberadas de relacionamento entre sexos.

Como, porém, os pais lhes dessem a oportunidade, mas não o modelo, os moços de Copacabana dispostos a parecer modernos foram levados a sair do impasse pela adoção dos padrões vigentes entre os jovens do equivalente da sua classe nos países mais desenvolvidos. Os mais intelectualizados se inclinariam ao modelo europeu, exemplificado na geração de escritores e filósofos marxistas e existencialistas dos bares e caves de Paris (e a influência de Sartre se estenderia até a revolta estudantil de 1968), mas a maioria, disposta apenas à boa vida, optou pelo american way of life, que o cinema de Hollywood se encarregava de difundir, por meio principalmente de filmes musicais. Assim, como o som moderno que mais se identificava com os jovens americanos de nível universitário era o jazz começando a distanciar-se de suas fontes negras, através da tendência bop, que antecipava as delicadezas brancas do cool –, foi esse tipo de música que a juventude carioca Zona Sul unanimemente adotou.

Macaqueação – Essa adesão dos jovens cariocas – logo seguida pela dos paulistanos e, mais à distância, pela dos baianos reunidos à volta do Teatro Vila Velha, em Salvador – ia manifestar-se de uma forma tão mimética em relação aos padrões importados dos Estados Unidos que acabaria por originar uma macaqueação risível. Para aparecer como jovem moderno na Zona Sul do Rio, pelos meados da década de 1950, era preciso ser queimado de sol (de preferência por praticar pesca submarina, como Roberto Menescal), usar camisa esporte colada no corpo, calças de cor clara com bainha lisa (bainha dobrada era tida como "suburbana") e sapatos tipo mocassim sem meias. Os que usavam óculos Ray-ban (postos em voga durante a guerra por pilotos americanos) deviam levar o estojo preso ao cinto do lado esquerdo, sendo considerado bossa prendê-los sobre os cabelos, às vezes negligentemente. O refrigerante oficial, naturalmente, era a Coca-Cola.

 
Ademar Veneziano
Darcy Trigo

Carlos Lyra usando costeletas e Tom Jobim de sapato
sem meia: american way of life

É mais do que natural, pois, que quando esses jovens chegassem ao momento de se interessar por música, tal contingenciamento cultural os levasse a repetir a tendência mimética. Embora muitos desses jovens cariocas (principalmente as moças) ainda pagassem o preço do "mau gosto" tradicional das famílias aprendendo acordeão, ao tornar-se geral o interesse pelo violão, pelo piano e pela bateria o gênero escolhido para o exercício de suas habilidades e talentos seria o jazz. Representado, naquele momento, pelo som dos músicos americanos Stan Kenton (o "ídolo dos ídolos", segundo Johnny Alf, aliás Alfredo José da Silva), Barney Kessel, Gerry Mulligan, Chet Baker, Shorty Rogers.

Quando, pois, a partir da segunda metade da década de 1950 esses jovens músicos amadores de Copacabana (a essa altura multiplicados pela ação de várias "academias de violão" espalhadas pela Zona Sul, como a de Menescal, a de Nara Leão e a de Carlos Lyra na Rua Cinco de Julho, com 200 alunos) começam a reunir-se para tocar em conjunto, seus encontros vão obedecer ao modelo das jam sessions. Foram essas reuniões, de início destinadas a tocar apenas jazz, que, conforme depoimento de Menescal, iriam evoluir para a "idéia de uma jam session de samba". Descoberta, então, a possibilidade de tocar música brasileira sob a forma de jazz, ia começar a profissionalização de muitos desses instrumentistas como músicos de boates.

Pois foi exatamente quando esses jovens passaram a viver o impasse de diluir sempre os gêneros de música brasileira que pretendiam tocar, nos improvisos sem saída do estilo jazz, que surgiu João Gilberto para oferecer-lhes a única contribuição brasileira ao seu sonho de parecer americanos com alguma originalidade: o esquema de acompanhamento balançado, sobre o qual passaram a montar suas melodias devidamente enfeitadas com os atavios harmônicos do jazz ou da pretensiosa música da Broadway.

E foi assim que, a partir de então, a bossa nova continuou a ser música americana, e João Gilberto continuou a ser apenas o que sempre foi: João Voz e Violão.

 

* José Ramos Tinhorão é historiador de música popular e autor de dezoito livros sobre o assunto