|
|
|
Edição
1 632 -19/1/2000
|
|
|
"O negócio não foi fundamental apenas para as empresas que se fundiram. Ele é um dos mais decisivos no desenvolvimento da era da internet", disse Gerald Levin, presidente da Time Warner. Na nova empresa resultante da fusão, Levin ficará encarregado de tocar as tarefas do dia-a-dia, enquanto o homem da AOL, Steve Case, apenas 41 anos de idade, traçará as estratégias para o futuro. Quando abordou Levin há quatro meses para discutir a fusão, Steve Case tratou de estratégia também, mas numa amplitude menor. Examinou com ele as razões que justificariam a fusão dos dois gigantes. Dono da empresa que levou a internet às massas nos Estados Unidos, Case sempre soube que só ampliaria seus horizontes pela compra de alguma grande empresa de entretenimento. Já havia tentado conversar com a Disney, mas não passou das primeiras reuniões. Ele sabia que Levin vinha martelando em seus executivos a tese de que a Time Warner devia "digitalizar-se" com urgência. Em pouco tempo, Levin e Case concluíram que suas empresas precisavam vitalmente uma da outra. Com o negócio, a Time Warner dormiu uma empresa de mídia tradicional e acordou como queria, digitalizada, pronta para os desafios da internet. Steve Case conseguiu driblar o que unanimemente se considerava o maior obstáculo da expansão da AOL: a falta de canais de alta potência, ou "de banda larga", para fazer chegar a seus usuários o conteúdo que vai encontrar na internet seu grande meio de escoamento. Em breve, filmes, produções de televisão, música de alta-fidelidade, jornais e revistas estarão sendo colocados à disposição dos usuários pela via digital, principalmente por meio da internet, num volume inimaginável hoje em dia. E isso só funciona perfeitamente com canais de banda larga. Um dos principais canais é formado de fibras ópticas por onde hoje trafegam as transmissões das televisões a cabo. Com 13 milhões de assinantes, a Time Warner é dona do segundo maior serviço de televisão a cabo nos Estados Unidos. O fenômeno é mundial. Quem não tiver canais de banda larga e conteúdo de qualidade para oferecer está com problemas para ir adiante no negócio. Existem diversas opções. Microondas e transmissão via satélite são tecnologias ainda limitadas. O cabo óptico parece ser o mais viável. No Brasil o primeiro serviço de internet a cabo, o Ajato, da Editora Abril, já permite a transmissão de arquivos enormes em tempo muito curto. Em breve, o Ajato terá a concorrência do Virtua, iniciativa semelhante das Organizações Globo. Nos Estados Unidos, o anúncio da fusão das empresas de Steve Case e Gerald Levin mudou imediatamente o jogo econômico. As grandes companhias americanas já vinham fazendo suas apostas e jogadas. Quem estava mais bem posicionada era a dupla AT&T e Microsoft. As duas gigantes haviam unido forças para liderar a corrida do acesso de alta velocidade na internet. Tecnicamente ainda são imbatíveis por causa da base instalada de cabos da AT&T e do caixa da Microsoft. Mas em termos de conteúdo, comparativamente à AOL-Time-Warner, estão na estaca zero. "A nova empresa deu um salto formidável à frente da concorrência. Agora, o mercado está de plantão permanente. Novos lances sensacionais de fusões podem ocorrer a qualquer momento", diz Laura Martin, analista de novas mídias do banco Credit Suisse First Boston. O que se pode esperar? Ninguém sabe ao certo. Mas não são descartadas hibridizações que juntem empresas de mídia tradicional como a Walt Disney, a CBS e a Fox que produzem filmes, noticiosos, especiais de televisão com companhias telefônicas ou com as empresas de nova geração da internet, como a Yahoo!, e Amazon ou a eBay. São associações de sucesso garantido? Ninguém sabe. A única certeza: quem não se mexer está frito. Quem se mexe também não tem lugar garantido ao sol. Apenas tem mais chance de não naufragar na nova onda tecnológica. Numa mostra de que a chegada antecipada do futuro é um terreno movediço, as ações da AOL caíram na Bolsa de Nova York depois de anunciada a fusão. "No fundo, no fundo, o que houve foi uma união entre duas incertezas, a do futuro do ramo do entretenimento com a do futuro dos provedores de internet", disse o economista americano Paul Krugman. O sucesso imediato da transação tem pouca importância quando se analisa seu impacto no cenário econômico global. A fusão da AOL com a Time Warner pode ser considerada o marco zero da nova economia. Um momento precioso. Raro. Tão significativo na história da riqueza dos homens quanto aquele momento em que os trilhos começaram a rilhar, há 150 anos, com a passagem das primeiras locomotivas a vapor. "Internet para mim nunca foi apenas tecnologia. Minha idéia sempre foi construir um meio de comunicação de massa atraente o bastante para fazer parte dos hábitos diários das pessoas comuns", disse Steve Case, fundador da AOL, um havaiano de 41 anos, empregado da Pizza Hut na juventude, instantaneamente catapultado para a fama mundial na semana passada. No mesmo dia do anúncio da compra da Time Warner pela AOL podiam-se ler em manchetes menores pelos jornais do mundo afora histórias de empresas quase desconhecidas comprando companhias tradicionais. Uma empresa de telefonia que atende pelo estranhíssimo nome de Vodafone, dínamo da economia britânica, ofereceu 150 bilhões de dólares pelas ações que lhe garantiriam o controle da vetusta alemã Mannesmann. Conhecida no Brasil como produtora de tubos de aço, a Mannesmann é também uma operadora de telefonia com interesses nos mercados da Europa e dos Estados Unidos. Na ordem natural das coisas, a Mannesmann estaria no mercado como investidora e não no carrinho de compras de uma marca recém-nascida. Há poucas dúvidas de que as idéias mais frescas e promissoras estão nascendo de empresas criadas com o big-bang da internet. Elas estão atraindo celebridades da indústria para seu círculo. A Ford Motors, cujo fundador Henry Ford foi o criador do moderno capitalismo nos anos 20, vem procurando se associar à mais emblemática empresa da era da internet, a Yahoo! O objetivo da associação é pouco claro, mas a empresa fabricante de automóveis descobriu que a internet é a menor distância entre ela e seus futuros clientes. Outra gigante automobilística, a General Motors, se atirou nos braços de uma agressiva e pós-moderna empresa de internet de Ontário, Canadá. A montadora propôs sociedade aos jovens canadenses. A oferta foi recusada. Testemunhas juram ser verdadeira a reação do presidente da empresa aos espantosos resultados financeiros da GM que lhe foram apresentados numa das reuniões feitas para tratar do negócio. Nesse encontro, disse a frase que se tornou o bordão da turma convertida à nova economia: "Lucros são para perdedores". Pode ser apenas uma lenda, mas por trás dessa frase esconde-se a larga diferença de conceitos e de valores que separa a velha economia do arranjo de negócios que surgiu com a explosão da internet. Com pouquíssimas exceções, as empresas típicas da internet, chamadas de dotcom (pontocom), não sabem o que é lucro. Vivem no vermelho. Vivem de seu potencial, do que podem vir a ser no futuro imediato. As empresas de internet, por mais vermelhas que sejam suas finanças, valem muito não só porque utilizam a web para realizar seus negócios. É mais do que isso: elas são vistas pelo mercado como as corporações que terão lugar garantido no futuro e se tornarão as máquinas de fazer dinheiro do século XXI. Suas ações valem muito porque todo mundo acredita que elas valerão mais ainda dentro de pouco tempo. Não há mistério nisso. "Ainda estou longe de ter certeza absoluta, mas atualmente a crença nos efeitos das novas tecnologias sobre a economia são muito mais convincentes do que há um ou dois anos", diz o americano Robert Solow, prêmio Nobel de Economia em 1987. A situação de algumas das estrelas da nova economia não seria nada animadora num panorama tradicional. Num ambiente de transformações revolucionárias, suas ações sobem como um foguete. A Amazon, hoje mundialmente famosa, surgiu há alguns anos como livraria virtual e agora vende desde ferramentas até cosméticos pela internet. Nunca deu lucro. Em 1999, seu prejuízo foi de 350 milhões de dólares. Mesmo assim, suas ações tiveram valorização de 42% durante o ano e seu valor de mercado é de 23 bilhões de dólares. A eBay, que promove leilões pela rede, teve em 1999 um lucro modesto, de 6 milhões de dólares, o primeiro de sua história. Seu valor de mercado é de 17 bilhões de dólares. Ou seja, vale 3 000 vezes mais do que o faturamento. Ou pelo menos o mercado acha que vale. Nunca existiu um fenômeno assim no capitalismo. A StarMedia, um provedor de acesso que abrange toda a América Latina, é outra que acumula prejuízo sobre prejuízo. As perdas entre janeiro e setembro do ano passado foram de 62 milhões de dólares. Suas ações tiveram valorização de 167% em 1999 e seu valor de mercado é de 2 bilhões de dólares. Há mudanças brutais nesse cenário. Os grandes estão buscando inspiração nos pequenos. A nova economia está mostrando que ninguém tem espaço garantido nem mesmo as empresas da nova economia. Até aqui, a Microsoft de Bill Gates tem sido a líder desse novo mercado, com os mais de 145 milhões de cópias de seu sistema Windows instalados em computadores do mundo inteiro. Pois bem: a IBM e a Intel, duas empresas tradicionais com um pé na nova economia, já deram sinais claros de que apostam seu futuro na utilização do Linux, um sistema operacional, até há pouco tempo considerado brincadeira de meninos, que é distribuído de graça pela própria internet.
Significa, porém, aceleração das tendências, a diminuição das margens de lucro pelo aquecimento da concorrência em escala nunca vista. O próprio crescimento da rede em si é assombroso. Foram necessários 35 anos, a partir do surgimento da primeira usina geradora de energia, para que 40% das casas americanas passassem a ter luz elétrica. Cinco anos depois do surgimento do primeiro provedor de acesso à internet aberto ao público, 40% das casas americanas estavam conectadas à rede. Nos últimos três anos, o comércio tradicional teve nos Estados Unidos um crescimento superexpressivo de 16%. No mesmo período, as vendas de artigos por meio da internet tiveram uma expansão de 1 600%. Há seis meses, números como esses seriam vistos apenas como curiosidades produzidas pela rede. Hoje, o que se discute é quanto tempo levará até a nova economia, baseada na velocidade da internet, enterrar definitivamente as formas de fazer negócio conhecidas no mundo. Bill Gates, fundador da Microsoft, acredita que esse processo deve demorar uns 25 anos. Para Michael Dell, fundador da maior fábrica de computadores dos Estados Unidos, a Dell, vinte anos bastarão. Craig Barrett, presidente da Intel, acredita que em quinze anos a transição estará completa. Importa pouco quem acertará a data, mas parece inevitável o dia em que todas as empresas terão de se viabilizar na internet. No Brasil, a economia da internet ainda engatinha em termos proporcionais. Mas já dá para sentir que as mudanças são profundas. Ônibus circulam com anúncios de provedores de internet. Eles patrocinam a transmissão de jogos de futebol e programas de grande audiência na televisão. Embora apenas 3% da população brasileira tenha acesso à internet, o Brasil é o país cujo ritmo de adesão à rede é o mais veloz do mundo.
A internet já fez até alguns jovens enriquecer no Brasil, como tem acontecido com freqüência muito maior e em escala infinitamente superior nos EUA. Dono da NetMedia, uma empresa especializada na criação de sites destinados ao comércio eletrônico, o gaúcho Giuliano Girondi, de 25 anos, já prestou serviços a fabricantes de utensílios domésticos, escolas de tecnologia, uma firma de construção civil e mais uma série de empresas interessadas em estar na internet. No mês de dezembro passado, a NetMedia teve uma receita de 70 000 reais. O paulista Fábio Yabu, de 19 anos, ganha 20 000 reais por mês trabalhando para a ZipNet e prestando consultoria a quem deseja criar sites. Com uma ótima poupança para um jovem de sua idade, Yabu ainda não tem carro. "Eu tomei bomba no exame para tirar carta de motorista", diz ele. Ainda mais importante do que a presença de jovens como esses no mercado é a percepção de que, assim como iguala as oportunidades e transforma as pequenas empresas em virtuais compradoras de grandes conglomerados, a internet também permite que os países pobres tenham acesso a informações capazes de reduzir a distância em relação aos ricos. As oportunidades estão no ar. A questão é saber aproveitá-las.
Com reportagem de Elen Peterson e Roberta Paduan |
|
||||||||||||||||||||||||