Caçamba de luxo
Picapes com
mordomias de carro de passeio são as grandes estrelas
do salão de Detroit
Marcos Gusmão
Primeiro foram os jipões e
as vans que ganharam um banho de loja e foram redesenhados
para ficar parecidos com carros de luxo. Agora é
a vez das picapes, esses truculentos veículos com
caçamba criados para o trabalho pesado na roça
e que cada vez mais ganham espaço nas cidades. Na
semana passada, durante o Salão do Automóvel
de Detroit, o mais tradicional dos Estados Unidos, gigantes
da indústria automobilística como GM, Ford
e DaimlerChrysler desembrulharam projetos espetaculares
que podem estar nas ruas dentro de três anos. Eles
estão a anos-luz das caminhonetes que conhecemos
hoje. A robustez característica desses carros continua
presente. As frentes estão maiores e pronunciadas,
as suspensões são reforçadas e a disposição
para transportar centenas de quilos é ainda a marca
registrada da turma. Mas as picapes incorporam formas refinadas,
indo da profusão de linhas curvas a vincos acentuados
na carroceria e faróis de formato inusitado. São
sobretudo muito mais confortáveis que os modelos
hoje à venda. A maioria recebeu equipamentos de última
geração, como computador de bordo com acesso
à internet. "As picapes agora dão prioridade
aos passageiros", define Michael Castiglione, gerente de
design da DaimlerChrysler na Califórnia, nos Estados
Unidos. "Elas não são mais feitas apenas para
levar carga."
Por enquanto, os lançamentos
vistos em Detroit são carros-conceito usados como
laboratórios de novas idéias. Mas antecipam
o que vem pela frente. A caminhonete AAC, primeira picape
em estilo americano construída pela Volkswagen, pode
ser uma das alternativas da empresa alemã para entrar
na briga por essa categoria nos Estados Unidos e até
mesmo no Brasil. A AAC tem motor V10, robustos 313 cavalos
de potência e câmbio de seis marchas. Mantém
características da marca, como o desenho arredondado
e alguns detalhes da grade, mas incorpora elementos estranhos
num VW, como os pneuzões de carro de enduro. É
tão nova e tão revolucionária que nem
sequer tem preço. A DaimlerChrysler também
mostrou sua nova caminhonete Dodge MAXXcab sem informar
quanto ela poderá custar. A versão apresentada
no salão, juntamente com novas minivans da marca,
é quase do tamanho da Dakota fabricada pela montadora
no Paraná. O modelo apresentado nos Estados Unidos
foi um dos que mais tinham acessórios para exibir.
Ele traz aparelho de vídeo digital (DVD), pedais
com altura ajustável, motor da Grand Cherokee e computador
de bordo com tela de cristal líquido comandado pela
voz do motorista. De quebra, pode carregar até meia
tonelada de espigas de milho ou de pedregulhos em sua caçamba.
Com desenho semelhante
ao das picapes dos anos 50, a Chevrolet SSR chama a atenção
por um detalhe surpreendente: é uma picape conversível.
O tamanho de sua carroceria é aproximadamente o mesmo
da picape S10. Com janelas estreitas e alongadas, a cabine
da nova Chevrolet tem teto removível. Com isso, ganha
uma cara de carro esportivo, tipo roadster. O modelo tem
ainda câmbio no volante para reforçar o ar
retrô e motor V8 inspirado nas velhas Chevrolet. A
GM foi uma das montadoras que mais investiram na fusão
de características de sedãs de luxo e picapes.
Além da SSR, apresentou duas cabines-duplas para
cinco passageiros, a GMC Terradyne e a Chevrolet Avalanche.
A Ford, concorrente direta da GM, desenvolveu um quatro
portas como se fosse um carro sedã com carroceria
aberta. A ênfase nas picapes foi tão forte
em Detroit que as montadoras americanas não tiveram
nenhum carro de passeio como principal propaganda em seus
estandes. "Este é o ano das caminhonetes", diz Carlos
Leite, gerente de picapes da Ford do Brasil. Se depender
do poder de marketing da própria Ford e da GM, será
mesmo. As duas gastarão, juntas, em torno de 1 bilhão
de dólares neste ano na promoção das
picapes.