Edição 1 632 -19/1/2000

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Caçamba de luxo

Picapes com mordomias de carro de passeio são as grandes estrelas do salão de Detroit

Marcos Gusmão

Primeiro foram os jipões e as vans que ganharam um banho de loja e foram redesenhados para ficar parecidos com carros de luxo. Agora é a vez das picapes, esses truculentos veículos com caçamba criados para o trabalho pesado na roça e que cada vez mais ganham espaço nas cidades. Na semana passada, durante o Salão do Automóvel de Detroit, o mais tradicional dos Estados Unidos, gigantes da indústria automobilística como GM, Ford e DaimlerChrysler desembrulharam projetos espetaculares que podem estar nas ruas dentro de três anos. Eles estão a anos-luz das caminhonetes que conhecemos hoje. A robustez característica desses carros continua presente. As frentes estão maiores e pronunciadas, as suspensões são reforçadas e a disposição para transportar centenas de quilos é ainda a marca registrada da turma. Mas as picapes incorporam formas refinadas, indo da profusão de linhas curvas a vincos acentuados na carroceria e faróis de formato inusitado. São sobretudo muito mais confortáveis que os modelos hoje à venda. A maioria recebeu equipamentos de última geração, como computador de bordo com acesso à internet. "As picapes agora dão prioridade aos passageiros", define Michael Castiglione, gerente de design da DaimlerChrysler na Califórnia, nos Estados Unidos. "Elas não são mais feitas apenas para levar carga."

Por enquanto, os lançamentos vistos em Detroit são carros-conceito usados como laboratórios de novas idéias. Mas antecipam o que vem pela frente. A caminhonete AAC, primeira picape em estilo americano construída pela Volkswagen, pode ser uma das alternativas da empresa alemã para entrar na briga por essa categoria nos Estados Unidos e até mesmo no Brasil. A AAC tem motor V10, robustos 313 cavalos de potência e câmbio de seis marchas. Mantém características da marca, como o desenho arredondado e alguns detalhes da grade, mas incorpora elementos estranhos num VW, como os pneuzões de carro de enduro. É tão nova e tão revolucionária que nem sequer tem preço. A DaimlerChrysler também mostrou sua nova caminhonete Dodge MAXXcab sem informar quanto ela poderá custar. A versão apresentada no salão, juntamente com novas minivans da marca, é quase do tamanho da Dakota fabricada pela montadora no Paraná. O modelo apresentado nos Estados Unidos foi um dos que mais tinham acessórios para exibir. Ele traz aparelho de vídeo digital (DVD), pedais com altura ajustável, motor da Grand Cherokee e computador de bordo com tela de cristal líquido comandado pela voz do motorista. De quebra, pode carregar até meia tonelada de espigas de milho ou de pedregulhos em sua caçamba.

Com desenho semelhante ao das picapes dos anos 50, a Chevrolet SSR chama a atenção por um detalhe surpreendente: é uma picape conversível. O tamanho de sua carroceria é aproximadamente o mesmo da picape S10. Com janelas estreitas e alongadas, a cabine da nova Chevrolet tem teto removível. Com isso, ganha uma cara de carro esportivo, tipo roadster. O modelo tem ainda câmbio no volante para reforçar o ar retrô e motor V8 inspirado nas velhas Chevrolet. A GM foi uma das montadoras que mais investiram na fusão de características de sedãs de luxo e picapes. Além da SSR, apresentou duas cabines-duplas para cinco passageiros, a GMC Terradyne e a Chevrolet Avalanche. A Ford, concorrente direta da GM, desenvolveu um quatro portas como se fosse um carro sedã com carroceria aberta. A ênfase nas picapes foi tão forte em Detroit que as montadoras americanas não tiveram nenhum carro de passeio como principal propaganda em seus estandes. "Este é o ano das caminhonetes", diz Carlos Leite, gerente de picapes da Ford do Brasil. Se depender do poder de marketing da própria Ford e da GM, será mesmo. As duas gastarão, juntas, em torno de 1 bilhão de dólares neste ano na promoção das picapes.

 

Sem volante e sem pedais

Mercedes-Benz com joystick: comando total do carro numa única mão
Já imaginou dirigir um carro usando apenas um manche, do jeito que se faz num avião ou helicóptero? A DaimlerChrysler mostrou que é possível pilotar um Mercedes-Benz modelo SL 500 com um sistema de direção semelhante aos joysticks de videogame. Nada de volante ou pedal. O dispositivo eletrônico é ligado a comandos no motor, nos freios e nas rodas. As marchas são trocadas em botões na parte de cima da alavanca, que funciona ainda como acelerador e freio. O motorista tem a opção de usar o novo sistema com as duas mãos ou apenas uma delas. Os primeiros testes com o protótipo estão sendo feitos em Stuttgart, na Alemanha. Para dirigir é necessário empurrar o joystick para a frente e para o lado na hora de fazer as curvas. Para frear, o motorista deve puxar a alavanca para trás. Se ela não for empurrada, a velocidade se mantém constante. Não é difícil como parece, pois o uso da alavanca é mais intuitivo que o da direção convencional. É quase igual ao sistema instalado nos primeiros calhambeques. Mas a inspiração é mesmo o videogame.