Edição 1 632 -19/1/2000

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Escalada da fama

A gostosa vida dos aventureiros que sempre
encontram patrocínio para suas escapadas

 
Fotos: Miguel Costa Junior

Klink, no rali: do mar para o deserto por 30 000 reais

O aventureiro Amyr Klink já atravessou o Oceano Atlântico num barco a remo e realizou duas jornadas solitárias pela Antártica. Agora, trocou o mar pelo deserto. Com a equipe brasileira Troller, participa do rali Paris–Dacar–Cairo, o mais perigoso do mundo. Além do prazer de superar as dificuldades da prova, Amyr vai receber ao final dos dezoito dias da corrida o equivalente a 30.000 reais, pagos pela Troller. É um negócio bom para os dois lados. A presença do conhecido aventureiro atrai patrocinadores e a atenção da mídia. Garante assim um ótimo retorno na forma de publicidade para a empresa que o patrocina. "Teríamos de gastar 3,6 milhões de dólares em propaganda para ocupar um espaço equivalente", calcula Mário Araripe, dono da Troller.

Amyr é o melhor exemplo de como funciona o esquema dos aventureiros profissionais. Trata-se de gente com vocação para emoções fortes e faro para aproveitar as boas oportunidades oferecidas pelo marketing (veja quadro). Escrever um livro ou produzir um vídeo é uma das melhores formas de garantir visibilidade. O alpinista Waldemar Niclevicz já lançou cinco obras do gênero – duas delas contando como não conseguiu atingir o cume do Everest, no Nepal, e do K2, no Paquistão, as montanhas mais altas do mundo. Depois de chegar ao topo do Everest, em 1995, lançou outras duas festejando o feito. No momento, tenta levantar com patrocinadores 800.000 dólares para uma nova tentativa de chegar ao topo do K2. Parte desse dinheiro, 20.000 dólares, vai financiar a ida de jornalistas para acompanhar a empreitada. Enquanto não viabiliza a aventura, Waldemar vive com o que recebe em palestras para executivos. "Quando não era conhecido, pedia 50 dólares e achavam caro", conta ele. "Hoje, cobro 5.000 dólares e não me faltam convites."

Uma feira de aventuras realizada no ano passado em São Paulo retratou o tamanho desse mercado. O evento contou com 120 expositores e gerou 20 milhões de reais em negócios. Conforme a concorrência vai crescendo, aumenta o grau de criatividade dos aventureiros. Não basta apenas dar a volta ao mundo dentro de um barco. O casal de velejadores Walter Garcia e Cristiane Magalhães foi além disso: planejou ter um filho no meio do trajeto. As despesas do parto seriam bancadas pelo patrocinador da viagem, o plano de saúde Blue Life. Em troca, a empresa faria publicidade de sua maternidade. O motor do barco quebrou e o plano foi adiado. Há centenas de exploradores tentando escalar os picos mais altos, percorrer as distâncias mais longas e atingir os lugares mais remotos. Alguns não conseguem. O velejador Paulo Alexandre Del Nero se propôs a encontrar a mitológica cidade perdida de Atlântida numa volta ao mundo de barco, em 1995. Vendeu o projeto a uma emissora de TV a cabo, a GNT, que anunciou uma extensa cobertura do evento, com a exibição de 260 documentários. Depois dos treze primeiros capítulos, o canal cancelou a série. Descobriu que o veleiro de Del Nero não havia ido além de Bertioga, o porto no litoral paulista de onde deveria partir.