Continentes de cama
Epidemia de gripe que assola o Hemisfério
Norte não deve causar estragos no Brasil
Cristina Poles
De três em três décadas, em média,
uma epidemia de gripe assola o mundo. O último grande
surto, a gripe de Hong Kong que matou 700.000
pessoas, ocorreu em 1968. Era previsível, portanto,
que meio mundo ficasse de cama e nariz escorrendo na virada
do século. O imponderável era a virulência
do surto. Desde o Natal, milhões de pessoas na Europa
e nos Estados Unidos vêm sendo derrubadas pelo vírus
A-Sydney H3N2. Só na Inglaterra, onde os hospitais
estão lotados, morreram mais de 100 pessoas. Por
falta de leitos, cirurgias eletivas foram desmarcadas. Na
Itália, os gripados ultrapassam 2 milhões
e a cada semana surgem 250.000
casos. Aos 79 anos, vítima do mal de Parkinson, o
papa João Paulo II tornou-se presa fácil e
foi fotografado em público assoando o nariz. Cerca
de 5 milhões de franceses foram contaminados. Dos
cinqüenta Estados americanos, 35 estão em situação
de alerta. Por aí vai em praticamente todo o Hemisfério
Norte.
O vírus da gripe é uma criatura muito suscetível
a mutações. Na tentativa de flagrar essas
mudanças, os cientistas produzem a cada ano um tipo
diferente de vacina antigripe. O sistema funcionou bem até
agora. Afinal, as alterações sofridas pelo
vírus eram freqüentes, mas de pequena monta.
Identificado pela primeira vez em 1997, na Austrália,
o A-Sydney H3N2 passou por uma enorme transformação
em menos de três anos. Diante de uma mudança
tão drástica e veloz, o sistema imunológico
humano não tem como reconhecer e se defender do novo
vírus é como se um exército invasor
encontrasse escancaradas as portas da fortaleza. O resultado
é a facilidade com que a doença se está
espalhando e a forma intensa com que afeta as pessoas. Os
sintomas da chamada gripe australiana são semelhantes
aos de qualquer outra febre alta, dores por todo o corpo
e mal-estar geral. Só que mais fortes. As principais
vítimas são os idosos e as crianças
de até 5 anos. São faixas etárias em
que o sistema de defesa é mais débil.
Restrita por enquanto ao Hemisfério Norte, a onda
de gripe é esperada para breve no Brasil. Se no início
do século um vírus demorava cerca de quatro
meses para dar a volta ao mundo, atualmente, com a facilidade
com que se vai de um lado a outro do planeta, a viagem demora
apenas quatro dias. Mesmo que já tenha desembarcado
aqui, a nova versão do A-Sydney ainda não
causou estragos. Estamos no verão, época de
viver ao ar livre. Em pleno inverno, os americanos e europeus
passam a maior parte do tempo em ambientes fechados, o que
facilita o contágio. Com as notícias vindas
dos Estados Unidos e da Europa, os brasileiros ficaram assustados.
Alguns alarmistas estão prevendo a eclosão
da epidemia no Carnaval. "Bobagem. Apesar das grandes aglomerações,
as festas ocorrem sempre ao ar livre", descarta o médico
João Toniolo Neto, coordenador do Grupo de Vigilância
da Gripe, órgão responsável pelo monitoramento
da doença no Brasil. "Além disso, a maioria
dos foliões é gente jovem e não idosos
ou crianças pequenas."
Mesmo durante o inverno brasileiro é pequeno o
risco de o vírus australiano repetir uma epidemia
com as proporções da ocorrida no Hemisfério
Norte. No ano passado, conforme dados do Grupo de Vigilância
da Gripe, o Brasil alcançou um dos maiores índices
de vacinação de idosos no mundo. Mais de 80%
da população acima dos 65 anos foi imunizada.
A nosso favor conta ainda o fato de que a vacina da próxima
campanha já contém uma versão branda
do A-Sydney. Aliada às altas taxas de imunização
da população, a vacina deve prevenir os sintomas
mais graves de uma eventual epidemia. Isso significa, sobretudo,
evitar o desenvolvimento da pneumonia, uma das principais
e mais perigosas complicações da gripe. Com
uma conjunção de fatores semelhantes, a França
manteve as rédeas da situação, apesar
do grande número de doentes. Lá, 85% dos idosos
foram imunizados. Nos Estados Unidos, só seis de
cada dez velhinhos receberam a vacina. Na Inglaterra, ainda
menos: quatro em dez. Às vésperas do inverno,
os brasileiros poderão contar com novos aliados no
combate à gripe. São os remédios Tamiflu,
do laboratório Roche, e o Relenza, da Glaxo Wellcome.
Lançadas no ano passado nos Estados Unidos, essas
drogas atuam em uma parte do microrganismo que nunca sofre
mutação. Servem, portanto, para todos os tipos
de vírus de gripe. Se consumidas até 36 horas
depois do início da doença, reduzem em até
50% os sintomas. Não é à toa que os
novos remédios se esgotaram assim que chegaram às
farmácias.