Edição 1 632 -19/1/2000

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Continentes de cama

Epidemia de gripe que assola o Hemisfério
Norte não deve causar estragos no Brasil

Cristina Poles

De três em três décadas, em média, uma epidemia de gripe assola o mundo. O último grande surto, a gripe de Hong Kong que matou 700.000 pessoas, ocorreu em 1968. Era previsível, portanto, que meio mundo ficasse de cama e nariz escorrendo na virada do século. O imponderável era a virulência do surto. Desde o Natal, milhões de pessoas na Europa e nos Estados Unidos vêm sendo derrubadas pelo vírus A-Sydney H3N2. Só na Inglaterra, onde os hospitais estão lotados, morreram mais de 100 pessoas. Por falta de leitos, cirurgias eletivas foram desmarcadas. Na Itália, os gripados ultrapassam 2 milhões e a cada semana surgem 250.000 casos. Aos 79 anos, vítima do mal de Parkinson, o papa João Paulo II tornou-se presa fácil e foi fotografado em público assoando o nariz. Cerca de 5 milhões de franceses foram contaminados. Dos cinqüenta Estados americanos, 35 estão em situação de alerta. Por aí vai em praticamente todo o Hemisfério Norte.

O vírus da gripe é uma criatura muito suscetível a mutações. Na tentativa de flagrar essas mudanças, os cientistas produzem a cada ano um tipo diferente de vacina antigripe. O sistema funcionou bem até agora. Afinal, as alterações sofridas pelo vírus eram freqüentes, mas de pequena monta. Identificado pela primeira vez em 1997, na Austrália, o A-Sydney H3N2 passou por uma enorme transformação em menos de três anos. Diante de uma mudança tão drástica e veloz, o sistema imunológico humano não tem como reconhecer e se defender do novo vírus – é como se um exército invasor encontrasse escancaradas as portas da fortaleza. O resultado é a facilidade com que a doença se está espalhando e a forma intensa com que afeta as pessoas. Os sintomas da chamada gripe australiana são semelhantes aos de qualquer outra – febre alta, dores por todo o corpo e mal-estar geral. Só que mais fortes. As principais vítimas são os idosos e as crianças de até 5 anos. São faixas etárias em que o sistema de defesa é mais débil.

Restrita por enquanto ao Hemisfério Norte, a onda de gripe é esperada para breve no Brasil. Se no início do século um vírus demorava cerca de quatro meses para dar a volta ao mundo, atualmente, com a facilidade com que se vai de um lado a outro do planeta, a viagem demora apenas quatro dias. Mesmo que já tenha desembarcado aqui, a nova versão do A-Sydney ainda não causou estragos. Estamos no verão, época de viver ao ar livre. Em pleno inverno, os americanos e europeus passam a maior parte do tempo em ambientes fechados, o que facilita o contágio. Com as notícias vindas dos Estados Unidos e da Europa, os brasileiros ficaram assustados. Alguns alarmistas estão prevendo a eclosão da epidemia no Carnaval. "Bobagem. Apesar das grandes aglomerações, as festas ocorrem sempre ao ar livre", descarta o médico João Toniolo Neto, coordenador do Grupo de Vigilância da Gripe, órgão responsável pelo monitoramento da doença no Brasil. "Além disso, a maioria dos foliões é gente jovem e não idosos ou crianças pequenas."

Mesmo durante o inverno brasileiro é pequeno o risco de o vírus australiano repetir uma epidemia com as proporções da ocorrida no Hemisfério Norte. No ano passado, conforme dados do Grupo de Vigilância da Gripe, o Brasil alcançou um dos maiores índices de vacinação de idosos no mundo. Mais de 80% da população acima dos 65 anos foi imunizada. A nosso favor conta ainda o fato de que a vacina da próxima campanha já contém uma versão branda do A-Sydney. Aliada às altas taxas de imunização da população, a vacina deve prevenir os sintomas mais graves de uma eventual epidemia. Isso significa, sobretudo, evitar o desenvolvimento da pneumonia, uma das principais e mais perigosas complicações da gripe. Com uma conjunção de fatores semelhantes, a França manteve as rédeas da situação, apesar do grande número de doentes. Lá, 85% dos idosos foram imunizados. Nos Estados Unidos, só seis de cada dez velhinhos receberam a vacina. Na Inglaterra, ainda menos: quatro em dez. Às vésperas do inverno, os brasileiros poderão contar com novos aliados no combate à gripe. São os remédios Tamiflu, do laboratório Roche, e o Relenza, da Glaxo Wellcome. Lançadas no ano passado nos Estados Unidos, essas drogas atuam em uma parte do microrganismo que nunca sofre mutação. Servem, portanto, para todos os tipos de vírus de gripe. Se consumidas até 36 horas depois do início da doença, reduzem em até 50% os sintomas. Não é à toa que os novos remédios se esgotaram assim que chegaram às farmácias.