Edição 1 632 -19/1/2000

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Outono do caçador

Endividado e nostálgico, Tony Mayrink Veiga,
o marido de Carmen, escreve suas memórias

Roberta Paixão

 
Oscar Cabral
Tony: nenhuma
boa notícia

Nos últimos tempos, o empresário e ex-milionário Antonio Alfredo Mayrink Veiga, o Tony, 68 anos, vem protagonizando experiências inéditas na vida de quem sempre ganhou e gastou à vontade. Com dívidas de 20 milhões de dólares, tem de apertar o cinto – Hermès, é verdade – no último furo. No escritório, ocupa-se em controlar contas bancárias e renegociar dívidas. O resto do tempo, sumo sacrifício, passa em casa mesmo. Foram-se as temporadas de viagens à Europa e as caçadas na África, lembranças de um estilo de vida petulante e descuidado que o saldo no banco não sustenta mais e que, de qualquer forma, ficou fora de moda. Em meio a tantos dissabores, há três anos, na surdina, Tony dedica-se a remontar a saga da família em três livros, para os quais estuda propostas de publicação. "Se não fossem os livros, eu teria enlouquecido", afirma.

Rico de berço e casado há 43 anos com a rainha das socialites brasileiras, Carmen Mayrink Veiga, 71, Tony, ao contrário da comentadíssima mulher, sempre se manteve na sombra, por questão de personalidade e por força do próprio negócio: a família vende armamentos há mais de um século. Agora, resolveu contar suas histórias. Um dos livros relata a trajetória da Casa Mayrink Veiga, fundada em 1864, em plena Guerra do Paraguai. O negócio, solidíssimo graças às estreitas relações com o Exército e a Marinha, começou a balançar quando a casa, de representante, passou a fabricante de equipamentos militares, em 1982 – por pressão, segundo Tony, da Marinha, que insistia em nacionalizar suas compras –, e desandou de vez em 1992, quando as dívidas explodiram. O segundo volume é uma espécie de colagem de recortes de jornais e revistas sobre a vida social de Carmen. O terceiro é o único que está pronto e o que lhe deu mais prazer escrever: trata das caçadas de seus tempos de fausto.

Safáris e castelos – Nas décadas de 70 e 80, os Mayrink Veiga passavam meio ano no Rio de Janeiro, meio ano viajando. Fora do país, sua base era Paris, onde mantinham um apartamento na Rue de Lutèce, do lado direito do Rio Sena. Nos fins de semana, eram convidados a caçar perdizes e faisões nos domínios de castelos na França, Escócia e Áustria. Entre 1971 e 1972, Tony, sem Carmen, fez dois safáris. Contratou a equipe de um velho conhecido de caçadas, o príncipe austríaco Alfie Ausberg, e torrou 150.000 dólares para abater cinco grandes animais da África: elefante, búfalo, rinoce-ronte, leão e leopardo. Um avião bimotor abastecia o safári, entre outras coisas, com litros da água mineral francesa Evian. Quando a falta de conforto passava dos limites, o aviãozinho o resgatava à civilização: Tony voava para um hotel cinco-estrelas em Nairóbi, capital do Quênia, e repousava.

 
Fotos: arquivo pessoal

Os Mayrink Veiga em 1984, na Áustria, e uma das moças "
compradas": a festa acabou

Era um vidão. Pairando acima do bem e do mal, bons vivants rematados, os Mayrink Veiga faziam e aconteciam no seu mundo como se outro não houvesse. Ou, quando houvesse, pudesse ser dobrado ao seu gosto. Na temporada africana, o empresário conheceu, e se horrorizou, com a prática da mutilação genital de meninas. Num encontro com uma tribo em Uganda, Tony e Alfie, compadecidos, "salvaram" três moças prestes a ser submetidas ao ritual. Como? Comprando-as pela módica quantia de oito vacas, duas barracas e cinco lanternas. Devidamente resgatadas, as meninas foram acopladas à entourage e serviram os dois caçadores por seis meses. "Elas cozinhavam, davam banho na gente e outras coisinhas mais", diz Tony, risinho maroto, sem resquício de constrangimento.

Como era de esperar, o livro esmera-se em histórias de caçador. No primeiro safári, Tony conta que matou um leão segundos antes de ser atacado. No Alasca, em outra expedição, o Indiana Jones carioca perseguiu um urso durante dez dias debaixo de um frio de 40 graus negativos. Emagreceu 6 quilos, quase foi comido por um bando de lobos, mas levou a cabeça do urso para casa. Enquanto isso, Carmen freqüentava festas em Paris. "Ela adora vida social. Eu odeio", explica Tony. "Nós somos completamente diferentes", diz Carmen. De vez em quando, ela acompanhava o marido no que apelidaram de caçadas sociais, as chiques, nos castelos da Europa. Tony ia atrás dos bichos, Carmen badalava. As noitadas eram animadíssimas, com intenso troca-troca de quartos. "Todo mundo circulava", diz ele. E ressalva: "Menos eu e Carmen".

Casados desde 1956, quando Tony foi apresentado à paulista Carmen no Rio de Janeiro, o casal tenta hoje se adaptar à nova realidade financeira. Devolveu o apartamento de Paris e uma casa em Angra dos Reis, que eram alugados. Há três anos, Carmen começou a trabalhar, pela primeira vez na vida, como colunista de um jornal popular do Rio. De vez em quando, vira garota-propaganda. Mesmo com a corda no pescoço, tentam manter a pose. Moram no mesmo apartamento desde 1960 – 1.000 metros quadrados na aristocrática Avenida Rui Barbosa, com vista de cartão-postal para o Pão de Açúcar, atulhados de peças valiosas, como quadros de Lasar Segall e Cândido Portinari. Tudo, felizmente, no nome de Carmen. Na garagem, Tony mantém um Mazda novinho, um Santana seminovo e um Mercedes 1980 pedindo reforma – até hoje, só o Rolls-Royce foi leiloado. O casal conserva duas empregadas, um mordomo e um motorista.

Tony é dono de três prédios na Rua Mayrink Veiga (homenagem ao avô), no centro do Rio, um local, para seu desgosto, tomado por botequins. "E só tem zulu nesses botecos", desdenha, superior, o velho desbravador da África, emitindo um comentário racista que, em sociedade, é tido como coisa de profundo mau gosto. O Edifício Mayrink Veiga, de seis andares, parece um prédio fantasma. Apenas vinte pessoas trabalham ali, intermediando vendas bissextas de bóias sinalizadoras e radares terrestres – bugigangas, se comparadas aos torpedos, aviões e armas da década de 70, época de ouro em que a Casa Mayrink Veiga fornecia quase 50% do material bélico usado pela Marinha e pelo Exército, garantindo um faturamento anual de 50 milhões de dólares. Sustentam o casal o salário de Carmen, a eventual ajuda dos filhos (Antonia e Antenor, ambos muito bem casados), os 800 reais mensais que ele recebe de uma aposentadoria e as minguadas representações que restaram à Casa Mayrink Veiga. "São contratos pequenos, que pagam minhas despesas, mas não meus credores", lamenta. Encalacrado em dívidas, Tony não consegue sair da ciranda de fogo. Há um ano e meio, teve um infarto. Não bebe, mas queima um maço de cigarros por dia. Para completar, Carmen também está doente há anos. "Passo o dia mergulhado em problemas. À noite, chego em casa e tenho de encarar os de Carmen. Ninguém me dá uma boa notícia nesta vida. Estou exausto", suspira, desanimado, o caçador aposentado.