Outono do caçador
Endividado e nostálgico, Tony Mayrink
Veiga,
o marido de Carmen, escreve suas memórias
Roberta Paixão
Oscar Cabral
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Tony: nenhuma
boa notícia |
Nos últimos tempos, o empresário e ex-milionário
Antonio Alfredo Mayrink Veiga, o Tony, 68 anos, vem protagonizando
experiências inéditas na vida de quem sempre
ganhou e gastou à vontade. Com dívidas de
20 milhões de dólares, tem de apertar o cinto
Hermès, é verdade no último
furo. No escritório, ocupa-se em controlar contas
bancárias e renegociar dívidas. O resto do
tempo, sumo sacrifício, passa em casa mesmo. Foram-se
as temporadas de viagens à Europa e as caçadas
na África, lembranças de um estilo de vida
petulante e descuidado que o saldo no banco não sustenta
mais e que, de qualquer forma, ficou fora de moda. Em meio
a tantos dissabores, há três anos, na surdina,
Tony dedica-se a remontar a saga da família em três
livros, para os quais estuda propostas de publicação.
"Se não fossem os livros, eu teria enlouquecido",
afirma.
Rico de berço e casado há 43 anos com a
rainha das socialites brasileiras, Carmen Mayrink Veiga,
71, Tony, ao contrário da comentadíssima mulher,
sempre se manteve na sombra, por questão de personalidade
e por força do próprio negócio: a família
vende armamentos há mais de um século. Agora,
resolveu contar suas histórias. Um dos livros relata
a trajetória da Casa Mayrink Veiga, fundada em 1864,
em plena Guerra do Paraguai. O negócio, solidíssimo
graças às estreitas relações
com o Exército e a Marinha, começou a balançar
quando a casa, de representante, passou a fabricante de
equipamentos militares, em 1982 por pressão,
segundo Tony, da Marinha, que insistia em nacionalizar suas
compras , e desandou de vez em 1992, quando as dívidas
explodiram. O segundo volume é uma espécie
de colagem de recortes de jornais e revistas sobre a vida
social de Carmen. O terceiro é o único que
está pronto e o que lhe deu mais prazer escrever:
trata das caçadas de seus tempos de fausto.
Safáris e castelos Nas décadas
de 70 e 80, os Mayrink Veiga passavam meio ano no Rio de
Janeiro, meio ano viajando. Fora do país, sua base
era Paris, onde mantinham um apartamento na Rue de Lutèce,
do lado direito do Rio Sena. Nos fins de semana, eram convidados
a caçar perdizes e faisões nos domínios
de castelos na França, Escócia e Áustria.
Entre 1971 e 1972, Tony, sem Carmen, fez dois safáris.
Contratou a equipe de um velho conhecido de caçadas,
o príncipe austríaco Alfie Ausberg, e torrou
150.000 dólares para abater
cinco grandes animais da África: elefante, búfalo,
rinoce-ronte, leão e leopardo. Um avião bimotor
abastecia o safári, entre outras coisas, com litros
da água mineral francesa Evian. Quando a falta de
conforto passava dos limites, o aviãozinho o resgatava
à civilização: Tony voava para um hotel
cinco-estrelas em Nairóbi, capital do Quênia,
e repousava.
Fotos:
arquivo pessoal
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Os Mayrink
Veiga em 1984, na Áustria, e uma das moças
"
compradas": a festa acabou |
Era um vidão. Pairando acima do bem e do mal, bons
vivants rematados, os Mayrink Veiga faziam e aconteciam
no seu mundo como se outro não houvesse. Ou, quando
houvesse, pudesse ser dobrado ao seu gosto. Na temporada
africana, o empresário conheceu, e se horrorizou,
com a prática da mutilação genital
de meninas. Num encontro com uma tribo em Uganda, Tony e
Alfie, compadecidos, "salvaram" três moças
prestes a ser submetidas ao ritual. Como? Comprando-as pela
módica quantia de oito vacas, duas barracas e cinco
lanternas. Devidamente resgatadas, as meninas foram acopladas
à entourage e serviram os dois caçadores por
seis meses. "Elas cozinhavam, davam banho na gente e outras
coisinhas mais", diz Tony, risinho maroto, sem resquício
de constrangimento.
Como era de esperar, o livro esmera-se em histórias
de caçador. No primeiro safári, Tony conta
que matou um leão segundos antes de ser atacado.
No Alasca, em outra expedição, o Indiana Jones
carioca perseguiu um urso durante dez dias debaixo de um
frio de 40 graus negativos. Emagreceu 6 quilos, quase foi
comido por um bando de lobos, mas levou a cabeça
do urso para casa. Enquanto isso, Carmen freqüentava
festas em Paris. "Ela adora vida social. Eu odeio", explica
Tony. "Nós somos completamente diferentes", diz Carmen.
De vez em quando, ela acompanhava o marido no que apelidaram
de caçadas sociais, as chiques, nos castelos da Europa.
Tony ia atrás dos bichos, Carmen badalava. As noitadas
eram animadíssimas, com intenso troca-troca de quartos.
"Todo mundo circulava", diz ele. E ressalva: "Menos eu e
Carmen".
Casados desde 1956, quando Tony foi apresentado à
paulista Carmen no Rio de Janeiro, o casal tenta hoje se
adaptar à nova realidade financeira. Devolveu o apartamento
de Paris e uma casa em Angra dos Reis, que eram alugados.
Há três anos, Carmen começou a trabalhar,
pela primeira vez na vida, como colunista de um jornal popular
do Rio. De vez em quando, vira garota-propaganda. Mesmo
com a corda no pescoço, tentam manter a pose. Moram
no mesmo apartamento desde 1960 1.000
metros quadrados na aristocrática Avenida Rui Barbosa,
com vista de cartão-postal para o Pão de Açúcar,
atulhados de peças valiosas, como quadros de Lasar
Segall e Cândido Portinari. Tudo, felizmente, no nome
de Carmen. Na garagem, Tony mantém um Mazda novinho,
um Santana seminovo e um Mercedes 1980 pedindo reforma
até hoje, só o Rolls-Royce foi leiloado. O
casal conserva duas empregadas, um mordomo e um motorista.
Tony é dono de três prédios na Rua
Mayrink Veiga (homenagem ao avô), no centro do Rio,
um local, para seu desgosto, tomado por botequins. "E só
tem zulu nesses botecos", desdenha, superior, o velho desbravador
da África, emitindo um comentário racista
que, em sociedade, é tido como coisa de profundo
mau gosto. O Edifício Mayrink Veiga, de seis andares,
parece um prédio fantasma. Apenas vinte pessoas trabalham
ali, intermediando vendas bissextas de bóias sinalizadoras
e radares terrestres bugigangas, se comparadas aos
torpedos, aviões e armas da década de 70,
época de ouro em que a Casa Mayrink Veiga fornecia
quase 50% do material bélico usado pela Marinha e
pelo Exército, garantindo um faturamento anual de
50 milhões de dólares. Sustentam o casal o
salário de Carmen, a eventual ajuda dos filhos (Antonia
e Antenor, ambos muito bem casados), os 800 reais mensais
que ele recebe de uma aposentadoria e as minguadas representações
que restaram à Casa Mayrink Veiga. "São contratos
pequenos, que pagam minhas despesas, mas não meus
credores", lamenta. Encalacrado em dívidas, Tony
não consegue sair da ciranda de fogo. Há um
ano e meio, teve um infarto. Não bebe, mas queima
um maço de cigarros por dia. Para completar, Carmen
também está doente há anos. "Passo
o dia mergulhado em problemas. À noite, chego em
casa e tenho de encarar os de Carmen. Ninguém me
dá uma boa notícia nesta vida. Estou exausto",
suspira, desanimado, o caçador aposentado.